O DISCURSO CIENTÍFICO: UMA ANÁLISE PECHETIANA

O DISCURSO CIENTÍFICO: UMA ANÁLISE PECHETIANA.

João Flávio de Almeida

RESUMO

Pensadores como Bourdieu, Latour, Rossi, Merton e Ianni deixaram valiosas contribuições epistemológicas sobre o nascer e o fazer científico. Dentre as principais estão os conceitos de campos e alianças. Este texto tentará detectar alguns efeitos discursivos da contemporaneidade, à partir do referencial teórico da análise do discurso de Michel Pêcheux, que trabalham a ideologia à favor da ciência e da mídia,

INTRODUÇÃO

Bourdieu lança mão do conceito de campos de forças ao descrever o modo com que as instituições nascem, legitimam-se e atuam socialmente. À partir de sua obra ‘Para uma sociologia da ciência’ (BOURDIEU, 1970), abordaremos três conceitos para este texto: campos, conflitos entre campos, e capital científico. Este pensador expõe a ideia de que cada campo de forças é dotado de uma estrutura peculiar, bem como de espaços de conflitos pela manutenção ou transformação desse campo. Cada campo, como se vê com o científico e com outros mais, deforma o espaço em que se envolvem e conferem-lhe determinada estrutura.

Nesta investigação Bourdieu detectou, ainda, que cada campo conflita com os demais campos em busca de legitimação. Deduz-se, logo, que o nível de conflito não é o mesmo entre todos os campos, visto que alguns deles não concorrem diretamente. Contudo, o conflito não se dá somente nesta região intercampos, externa, como também se dá hermeticamente no interior de cada um. Cada jogador, em seu campo, luta para estabelecer-se como ator relevante, buscando lugar de respeito e estabilidade, e ao lutar pela legitimação individual, cada jogador acaba, indiretamente, por fortalecer e legitimar todo seu campo.

Bourdieu insere, ainda, o conceito marxista de “capital” ao descrever o potencial de cada campo de se estabelecer e de se legitimar. Cada jogador acumula seu capital, e cada campo acumula todo o capital somado de todos seus jogadores. O capital de um jogador depende dos seus diferentes trunfos que possam garantir-lhe vantagem sobre seus rivais. No campo científico, o capital é uma espécie particular de capital simbólico fundado no “reconhecimento de conhecimento”, mais até do que o próprio conhecimento em si.

O capital, portanto, para que se constitua como capital, é distribuído de forma desigual, regulando as possibilidades de ascensão e de consolidação em melhores espaços dentro de cada campo. Um cientista com alto capital ocupa uma posição tal que a estrutura acaba por operar em seu favor. Em última instância pode-se dizer que cada jogador defende e arregimenta seu campo como forma de auto arregimentação, pois que o enfraquecimento de seu campo de atuação significaria seu próprio enfraquecimento como jogador.

Latour, anteriormente até, lançou o conceito de “alianças”, explicitando a forma com que agentes de uma determinada comunidade se interagem com outras. Ao longo de sua obra ‘Ciência em ação: como seguir cientistas e engenheiros sociedade afora’ (LATOUR, 1980), ele acompanha cientistas e capta exatamente os instantes e as formas com que alianças são feitas e fortalecidas. Em alguns instantes ele conceitua de forma mais categórica:

Como em O príncipe, de Maquiavel, a construção progressiva de um império é uma série de decisões quanto a alianças: com quem posso colaborar? Quem devo excluir? Como posso obter a fidelidade deste? E aquele, será confiável? Esse porta-voz é digno de crédito? Mas o que não ocorreu a Maquiavel é que essas alianças podem transcender os limites existentes entre seres humanos e “coisas”. (LATOUR, 1980, p. 206).

Fazendo uma breve intersecção entre os pensamentos destes dois pensadores, podemos justapor facilmente o conceito de “alianças” aos “conflitos de campos”. Esta concatenação de conceitos nos permite um vasto panorama das relações que se estabelecem em busca ou da manutenção do poder. Assim, podemos dizer que um campo, na tentativa de alargar seu capital, necessita de alianças e de “empréstimos” de capital de outro campo no esforço de reduzir o capital do seu antagonista direto, para assim, se legitimar e fortalecer suas bases.

Nos séculos XVI e XVII vimos crescer um movimento, contraditório ao vigente – talvez até em decorrência de certos excessos nas práticas da hegemonia católica – que começa a ganhar corpo, contudo que careceu se arregimentar, somar capital e “virar o jogo” com o clero. A revolução científica começa a tomar forma com Descartes, Bacon, Galileu e outros (ROSSI, 2001) que, ilhados e sem organização, eram ameaçados ou mandados à fogueira. Foi neste momento histórico que surgiram outros campos que começaram a ganhar força, além do científico: o protestantismo e a burguesia capitalista. A aliança entre eles é clara e rápida. O protestantismo prega a descentralização do poder e do capital das mãos do clero, e justifica e incentiva a prosperidade financeira dos homens (MERTON, 1970). A burguesia se refugia no protestantismo, e o capitalismo cresce, contudo precisando de novas tecnologias de produção e de filosofias que minorassem o poder das tradições antigas que bloqueavam os novos modos de negócio. Assim, a ciência moderna nasce protestante e capitalista. E o mesmo podemos dizer dos outros dois campos: nasceram misturados, aliados, e aos poucos tomam forma própria, cada um. Parcerias que perduraram até o Iluminismo, quando dois dos campos perceberam que um destes campos parceiros já era descartável: a fé nas religiões, pois que Deus então torna-se uma adversidade a vários conceitos filosóficos e físicos, além de trazer em si valores éticos que conflitam com o capitalismo burguês.

Um novo campo, todavia, tomou forma e força nas últimas décadas, e tem sido de grande valia em alianças com a ciência e com o capitalismo: a grande mídia. Otavio Ianni chama este campo de “O novo príncipe”, aquele que realmente conseguiu unificar os povos e fazer as transformações que lhe conviesse (IANNI, 2001). Em sua gestação, a mídia – mais especificamente o jornalismo, em seus diversos meios – fez uso de conceitos científicos para se legitimar como porta-voz da verdade e de fatos. Nas mãos de grandes conglomerados financeiros, os meios de comunicação tornaram-se valiosas ferramentas do discurso consumista do capitalismo (THOMPSON, 1998). Como porta-voz da verdade, que faz uso de especialistas na defesa de seus argumentos, os meios de comunicação tornaram-se necessários para todo e qualquer campo no que se refere à aquisição de capital e de seguidores. Em tempos de globalização e de encurtamento de distâncias, é muito vantajoso divulgar os conceitos de determinado campo em um meio dotado de tanto poder de disseminação.

Como se dá, em nossos dias, especificamente a aliança “mídia/ciência”? Qual é a necessidade mútua de ambos os campos? Neste presente projeto faremos uma análise do discurso da “verdade”, elo que sustém a aliança ciência/jornalismo: atributo necessário a ambos, e conquistado através de uma parceria na qual cada um confere “verdade” ao outro. E através da ilusão da transparência, dos esquecimentos e do trabalho que se faz à partir da ideologia, ambos os campos se dotam reciprocamente desta dita verdade, numa legitimação mútua.

ANÁLISE DO DISCURSO PECHETIANA

Como funciona a linguagem no instante da construção do “fato” na notícia? Para tal análise faremos uso do referencial teórico desenvolvido por Michel Pêcheux, em sua Análise do Discurso. Este autor define o discurso como sendo efeito de sentidos entre locutores, um objeto sócio-histórico circunscrito no linguístico. Considera, ainda, que a linguagem é um sistema em que a ambiguidade e os furos são constituintes, e não defeitos, definindo a discursividade como a inserção de efeitos materiais da língua na história, incluindo a análise do imaginário na relação dos sujeitos com a linguagem.

Os trabalhos de Pêcheux (1997), Romão (2002), Orlandi (1999) e Payer (2005) delinearam um percurso de investigação a respeito do lugar da mídia na ideologia. Sob a ação da ideologia (PÊCHEUX, 1969), torna-se natural o aparecimento de apenas um sentido nos filmes, documentários, textualizações midiáticas etc, marcando um impedimento para o sujeito conjeturar que os sentidos poderiam ser outros, distintos daqueles que se estabelecem como dominantes ou já legitimados. Assim, o discurso midiático faz circular uma suposta coincidência entre os atos de linguagem e os fatos puros, instalando o mote da transparência e da univocidade, como se não existissem outros modos de dizer, relatar, narrar fatos, entrevistar personalidades, cobrir eventos e fazer reportagens. Dessa forma, apagam-se os enunciados dos e sobre os equívocos, fissuras, sabotando a possibilidade de que a imprecisão, a inexatidão, os não-ditos e o silenciamento possam ser ditos.

Instaura-se, portanto, um ideário coletivo em que, ao sujeito-consumidor desse discurso, resta crer que existe uma equivalência, termo a termo, entre as palavras e o mundo, entre os relatos e os fatos. Visto dessa forma, está marcado um lugar supostamente constituído pela ausência de sombras, em que as palavras impressas ratificam os fatos, em que os relatos correspondem à verdade pura e em que um poder está permanentemente funcionando como uma credencial simbólica de verdade. Constituem-se exemplos desse efeito de legitimidade expressões presentes em formulações cotidianas – “vi num documentário”, “saiu no jornal”, “eu vi no programa de tv”, “apareceu no telejornal” – que, ditas no contexto da comunicação global funcionam virtualmente como efeitos de garantia de certificação e de fonte de legitimidade, emprestados da voz poderosa da mídia e transferidos àquele que lê, assiste, compra, assina, enfim, consome um produto midiático.

Tal imaginário de certificação e veracidade coloca o órgão de imprensa em uma determinada posição de autoridade, de saber e de poder em que existe uma confiabilidade já dada a priori, fazendo falar a representação da verdade, independente do que diga, de como produza sentido, de quais efeitos movimentem-se nos registros midiáticos, de que significantes lança mão para elaborar a costura dos dados, da credibilidade das fontes e de quais recursos use para editar a informação de um determinado modo.

Assim, nos jornais se reassegura a continuidade do presente ao se produzirem explicações, ao se estabelecerem causas e consequências, enfim, […] ao se didatizar o ‘mundo’ exterior e o tempo em que os fatos acontecem. Dizendo de outro modo, a ‘objetividade’ dos fatos, ie, sua evidência de visibilidade, resulta inevitavelmente de um gesto interpretativo que se dá a partir de um imaginário já constituído (MARIANI, 1998, p. 63).

Faz-se importante, também, recuperar o conceito de formações imaginárias, criado por Pêcheux (1969), que define que as posições-sujeito são traçadas a partir de um retrato virtual que o sujeito traça para si mesmo e para seu interlocutor. Na relação mídia e consumidor da informação, temos duas posições em situação de assimetria: a primeira ocupa um lugar de poder, ou melhor, do poder de narrar a realidade com palavras sem sombra(s); ao segundo cabe o lugar, antecipadamente imaginado como espectador, leitor, ouvinte ou internauta, sempre consumidor, crédulo, voraz e necessitado de informações, que está sempre prestes a recebê-las, em qualquer tempo e lugar, em um fluxo contínuo de informação que não pode ser interrompido. Ao saber-e-poder-a-mais (BUCCI; KEHL, 2004) da mídia corresponde um suposto saber-e-poder-a-menos do leitor, combinando as seguintes imagens: à primeira está dada a potência de traçar relatos, escolher o que merece divulgação, selecionar os fatos tidos como meritórios de destaque na atualidade e fazê-los circular em suportes tecnológicos de alcance largo e rápido. No caso deste estudo, destacamos a propagação da ideia de que somente à ciência cabe produzir os conhecimentos ditos verdadeiros. Neste movimento recíproco, a mídia empresta seu capital à ciência (o de propagação de seus conceitos) e esta, por sua vez, confere veracidade aos fatos que a mídia expõe. Este “saber-e-poder-a-mais” faz valer-se à partir de uma aliança cujo discurso silencia outras formas de produção de conhecimento, e ao “saber-e-poder-a-menos”, dos espectadores, cabe tão somente o papel de consumidores e replicadores deste discurso, quando lhes convém.

Todos estes conceitos trabalham, finalmente, na constituição de uma ideologia que interpela o sujeito e o constitui. Sobre a ideologia, aliás, Pêcheux busca referência na teoria de Althusser, como se pode ver em trechos tais: “Já aludi várias vezes à tese central de Althusser (…)” (PÊCHEUX, 1996, p. 146). Althusser, por sua vez, expande a teoria marxista defendendo que não existem somente ‘Aparelhos Repressivos de Estado’, mas também ‘Aparelhos Ideológicos de Estado’:

 “(…) o exército, a polícia, os tribunais, os presídios etc, que constituem o que doravante denominaremos de Aparelho Repressivo de Estado. O ‘repressivo’ sugere que o Aparelho de Estado em questão ‘funciona pela violência’. (…) Daremos o nome de Aparelhos Ideológicos de Estado a um certo número de realidades que se apresentam ao observador imediato sob a forma de instituições distintas e especializadas. (…); o AIE religioso (…); o AIE escolar (…)” (ALTHUSSER, 1996, p. 114)

Assim, Pêcheux retoma o conceito de Aparelhos Ideológicos de Estado (AIE) para definir o papel da ideologia na constituição de sua teoria do discurso. Assim, o AIE não consiste na mera expressão da ideologia dominante (no caso, a burguesa), mas sim o local e a forma para a efetivação deste predomínio (PÊCHEUX, 1996, p. 144), ou seja, a ideologia dominante é propagada nos discursos das igrejas e escolas, bem como em programas de TV, revistas e jornais impressos, etc., com o intuito de interpelar os indivíduos como sujeitos, afim de dissimular – mascarar, no sentido marxista – a “realidade”, e dar continuidade à reprodução das condições de produção (ALTHUSSER, 1996) que sustentam a posição da classe dominante no sistema capitalista: “está claro que é nas formas e sob as formas da sujeição ideológica que se assegura a reprodução da qualificação da força de trabalho” (ALTHUSSER, 1996, p. 109).

UM GESTO DE LEITURA SOBRE O PROGRAMA CONEXÃO REPÓRTER, DO SBT. 

Tomaremos como corpus um episódio jornalístico ocorrido no dia 05/04/2012, no programa SBT Repórter, sob o título “O preço do milagre”, encontrado no link: http://www.sbt.com.br/conexaoreporter/reportagens/reportagem.asp?id=98&t=O+Pre%E7o+do+Milagre.

O jornalista e apresentador do programa acompanhou os bastidores de curas milagrosas, em que homens fazem uso de mecanismos que se diferem daqueles atestados pela  ciência, e o jornalista se propõe a analisar até que ponto tais curandeiros colocam a saúde das pessoas em risco. “Para os seguidores dos médico-feiticeiros, estes possuem a capacidade de operar milagres. Para seus críticos, são farsantes aproveitadores do desespero de quem procura a cura a qualquer custo”, enuncia o apresentador.

Durante o programa dois casos específicos são apresentados: o do doutor João de Deus, e o do curandeiro Hirota. O programa informa que eles são dois de quatro mil curandeiros, só no Brasil. À medida em que são apresentados, os pacientes dos curandeiros são também expostos, bem como a fé que apresentam nestes homens ditos acima da ciência. No local onde João de Deus opera seus milagres, uma sala é apresentada contendo centenas de cadeiras de roda, muletas, coletes cervicais, e outros equipamentos de saúde deixados para trás pelos que foram curados. Ele cura pessoas há mais de quarenta anos, e se garante semianalfabeto, realizando curas espirituais em que certos procedimentos cirúrgicos são realizados ali mesmo, sem esterilização nem assepsia comumente usados em hospitais. Um de seus pacientes é tratado ali, frente às câmeras. Seu olho direito é raspado com um bisturi, e depois enfaixado. João de Deus diz que no caso dele serão necessários outras duas intervenções como aquela.

O professor Hirota, curandeiro e migrante asiático, leva pessoas até seu templo e lá faz com que os maus espíritos saiam dos corpos dos pacientes e recaiam sobre algumas pessoas que tem a alma mais aberta, de onde, finalmente, são expulsos os demônios. Feito isto, ele apenas toca nas partes adoecidas de seus pacientes recém libertos. Ele sugere a um que diminua o tratamento com insulina, e também possui várias cadeiras de rodas e afins como provas de seu poder de cura.

Contudo, fica sempre latente certa desconfiança nos médicos espirituais, e embora não seja apresentada deliberadamente uma contra-argumentação, os curandeiros são apresentados sempre em tom de suspeita, e os médicos legitimados pela Ordem dos Médicos, presentes no programa, aparecem em local privilegiado, como conhecedores do saber verdadeiro; local seguro para se buscar respostas e tratamentos.

Abaixo, algumas transcrições do programa, que por método, chamaremos de materialidades linguísticas:

 

O tema do programa: “O preço do milagre”.

Primeiro bloco:

Fala 1: A fé e a razão: o milagre cara a cara com a ciência (1’50”).

Fala 2: Este é Hirota, conhecido como professor Hirota, embora jamais tenha feito qualquer universidade (4’40”).

Fala 3: A idolatria (ao professor Hirota) é visível. (5’16”).

Fala 4: Jornalista: A senhora está se sentindo melhor agora? Paciente: Tô. Bastante (6’52”).

Fala 5: Paciente: Foi milagre. Eu nasci de novo, aqui (7’30”).

Fala 6: Uma espécie de médico alternativo, um curandeiro, ou chefe espiritual. Fuma compulsivamente (7’52”).

Fala 7: Mas será que as curas que mostramos antes resistem a um exame minucioso da medicina? (12’10”).

Fala 8: Quem está em ação jamais passou perto de uma universidade de medicina (12’40”).

Fala 9: Para manter tudo isto não há cobranças de consultas, mas sim doações voluntárias… a prosperidade é visível. É inclusive mais um mercado dos milagres (14’10”) – Mostrando livros e materiais vendidos no templo de João de Deus.

Fala 10: A forma com que supostamente opera milagres chama a atenção… (14’55”).

Segundo bloco:

Fala 11: Será que a ciência respalda esta cura? (13’26”).

Fala 12: Médico 2: Temos aqui um grande tumor de pâncreas (14’10”).

Fala 13: Médico 2: Numa pancreatite crônica, a imagem é a mesma (14’30”).

Fala 14: Médico 2: Não era um tumor. Ou sendo um tumor, houve um milagre ou alguma cura (14’50”).

Terceiro bloco:

Fala 15: Ministério público: Isto pra mim é preocupante. Porque no Brasil, havendo liberdade de crença, evidentemente é possível que pessoas façam rezas, orientações espirituais, nas suas diversas religiões. O que não se pode permitir é que entre na questão médica (1’18”).

Fala 16: Psicanalista: Eu colocaria a fé como um grande aliado no enfrentamento, não como algo que cura. Né, porque ai eu acho algo muito perigoso. Então, o quê que os cientistas estão fazendo dentro dos laboratórios? Tentando buscar alguma cura para o câncer ou para alguma síndrome, não é? Quer dizer, agente não pode se esquecer disto (2’40”).

Fala 17: Há dois meses uma austríaca morreu dentro da casa onde João de Deus fazia seus atendimentos. Ele nega (5’10”).

Fala 18: Em dois mil e três, um americano morre após trocar o tratamento médico pelo espiritual (5’22”).

Fala 19: O mercado da fé é lucrativo, e está em expansão (6’5″).

 

Inicia-se a análise do discurso “de-superficializando”, o que consiste em explicitar o como se diz, o quem diz, em que circunstâncias se diz, etc., atentando, no processo de enunciação, para os traços em que o sujeito se marca e se revela no que diz (ORLANDI, 2005).

A equipe deste programa jornalístico – Conexão Repórter, do SBT – o descreve e classifica, em seu site, como jornalismo investigativo, ou jornalismo de denuncias. Seu apresentador é dotado de uma voz intensa e contundente – de fala lenta e persuasiva, e faz uso frequente de aforismos e frases de efeito, e ao fundo ouve-se trilhas sonoras que nitidamente atuam na construção do enunciado apresentado. Ocupa, na média, a segunda posição no IBOPE em sua faixa horária, segundo o site especializado “www.ocanaltv.com.br”. Como subproduto, insere-se na categoria mídia televisiva jornalística, e como tal, atrai sobre si a necessidade de veracidade factual e legitimação. Concorre, no mesmo horário, com o “Jornal da Globo”, que ocupa a primeira posição no IBOPE para o horário, segundo o mesmo site especializado em métricas midiáticas.

A segunda posição numa competição jornalística pode implicar, dentre vários outros fatores, uma confiança menor por parte do espectador, fato que implicaria na constante busca por qualidade e veracidade das informações produzidas, bem como pela busca por temas de impacto e poder de atração. Neste aspecto, o referido programa foi ao ar dias após a famosa apresentadora americana Oprah Winfrey visitar o Brasil procurando pelo curandeiro João de Deus – fato repercutido em todo o mundo. Assim, uma boa possibilidade se delineia com esta soma de eventos: um fato de impacto, um tema com alto poder de atração, a possibilidade de apresentar fatos verossímeis, e certa capacidade de legitimação junto ao público ao denunciar o “lucrativo mercado da fé” (fala 19).

Faz-se importante procurarmos pelos esquecimentos enunciativos – que dão a impressão de que o que foi dito só poderia ser dito daquela maneira, desfazendo-se, assim, os efeitos dessa ilusão (ORLANDI, 2005, p. 65). Neste instante da análise, tomaremos os enunciados linguísticos supra citados, recortados do corpus, e pinçaremos alguns dos seus “não-ditos”.

O próprio título do programa, O Preço do Milagre, diz, abertamente, que o milagre possui determinado ônus, alguma perda por parte do acolhedor do milagre, bem como algum ganho por parte do autor do milagre. Há, ai, certo teor político na forma com que é dito o enunciado. Contudo este não diz, por exemplo, que a medicina convencional também possui um altíssimo custo, muitos enriquecimentos, inúmeros casos de desvio de verba e finalmente que a carreira médica é uma das mais bem remuneradas em nosso país. Na fala 1, a fé e a razão são contrapostas: a fé é atribuída à aquilo que fazem os curandeiros e a razão ao que faz a ciência, a medicina convencional. Apaga-se, aqui, o conceito de Robert Merton de que a ciência constrói para si estruturas, hierarquias, regras, crenças e dogmas da mesma ordem das existentes no cristianismo, na astrologia e em outros campos, e silencia-se também o conceito de Bruno Latour de que a razão científica se dá, na verdade, de forma muito mais caótica e contingente do que propriamente racional.

Nos recortes linguísticos extraídos do corpus aparecem frequentemente a ideia de que os médicos legitimados devem passar, necessariamente, por uma universidade, e que o ministério público tem o poder de esquadrejar à base de punições o campo da medicina. Várias colocações políticas são colocadas a respeito dos curandeiros, tais como: fuma ‘compulsivamente’; a ‘prosperidade é visível’; a forma com que ‘supostamente’ opera milagres; o ‘mercado da fé é lucrativo’, e ‘está em expansão’. Nestes litígios discursivos omitem-se fatos sabidamente recorrentes nos atores do campo resguardado pelo programa: o campo das ciências médicas. Médicos não fumam? Médicos não enriquecem? Médicos não falham? O mercado farmacêutico não prospera às custas de doenças alheias? Os conselhos de ética medica não são formados também por seus pares, médicos? Pacientes não morrem por negligência médica? Testes duvidosos e antiéticos não são realizados em humanos?

Vários outros enunciados linguísticos aparecem exaltando o saber científico da medicina convencional, legitimando este campo como produtor confiável de saber, em detrimento do saber produzido e aplicado pelos atores que estão fora:

__Fala 7: Mas será que as curas que mostramos antes resistem a um exame minucioso da medicina?

__Fala 11: Será que a ciência respalda esta cura?

__Fala 15: Isto pra mim é preocupante. Por quê no Brasil, havendo liberdade de crença, evidentemente é possível que pessoas façam rezas, orientações espirituais, nas suas diversas religiões. O que não se pode permitir é que entre na questão médica.

__Fala 16: Então, o quê que os cientistas estão fazendo dentro dos laboratórios? Tentando buscar alguma cura para o câncer ou para alguma síndrome, não é? Quer dizer, agente não pode se esquecer disto.

Este processo de construção do enunciado tem um duplo efeito: enquanto legitima a ciência como única forma segura de produção de saber, empresta da ciência à mídia (jornalismo) o capital necessário para sua legitimação enquanto difusor confiável de saber. Uma nítida aliança onde ambos os campos adquirem capital e se fortalecem contra outras formas de produção e propagação de conhecimento, numa mútua autoproclamação de posse da verdade.

Esta aliança se mostra, portanto, um importante elemento na análise do discurso científico. A ilusão da transparência e da univocidade fora construída à partir de efeitos de silenciamentos e estabilização tais que, ao diminuir uma voz frágil, tal como a dos curandeiros, enaltece-se a voz da ciência e do jornal que explicitou a suposta verdade – mas verdade construída hermeticamente dentro da teia de enunciados que o próprio programa evocou. Enaltecendo-se a ciência à partir de um confronto com atores frágeis, fortalece-se o campo científico no embate contra outros campos mais fortes e estabiliza-se uma única forma de se pensar o mundo: pelas vias da razão, e razão científica. Assim, a ideologia que inicialmente atravessou o sujeito retorna a si fortalecida, e os próximos “confrontos” da ciência moderna terão ganho argumentos já inseridos no interdiscurso.

Referências:

ALTHUSSER, L. Ideologia e aparelhos ideológicos de Estado: notas para uma investigação. In: ZIZEK, S. (Org.). Um mapa da ideologia. Rio de Janeiro: Contraponto, 1966. p. 105-142.

BOURDIEU, Pierre. Para uma sociologia da ciência. Lisboa, Portugal. Edições 70. Ano.

BUCCI, E.;  KEHL, M. R. Videologias. São Paulo: Boitempo Editorial, 2004.

IANNI, Octávio, 1926 – Teorias da globalização / Octávio Ianni. – 9″ ed. – Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001.

LATOUR, Bruno. Ciência em ação: como seguir cientistas e engenheiros sociedade afora. Tradução de Ivone C. Benedettí – São Paulo. Editora UNESP, 2000.

MARIANI, B. O PCB e a imprensa. Campinas: Editora da Unicamp e Editora Revan, 1998.

MERTON, Robert K. Sociologia: teoria e estrutura. São Paulo: Mestre Jou. 1970a.

ORLANDI, E. P. Análise de discurso – princípios e procedimentos. Campinas: Pontes Editores, 1999.

PAYER, M. O. Linguagem e sociedade contemporânea – sujeito, mídia, mercado. Rua – Revista do Núcleo de Desenvolvimento da Criatividade da Unicamp –  Nudecri, n.11, 2005.

PÊCHEUX, M. Semântica e discurso – uma crítica à afirmação do óbvio, (1969). Tradução Eni Orlandi. Campinas: Editora da Unicamp, 1997.

______. Papel da memória. In: Papel da memória, vários autores. Campinas: Pontes, 1999.

______. O mecanismo do (des) conhecimento ideológico. In: ZIZEK, S. (Org.). Um mapa da ideologia. Rio de Janeiro: Contraponto, 1966. p. 143-166.

ROMÃO, L. M. S. O discurso do conflito materializado no MST: a ferida aberta na nação. 2002. 310 f. Tese (Doutorado em Psicologia) – Universidade de São Paulo, Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, Ribeirão Preto, 2002.

ROSSI, Paolo. O Nascimento da ciência moderna na Europa; tradução de Antônio Angonese. Bauru, SP:EDUSC, 2001.

THOMPSON, John B. A mídia e a modernidade: uma teoria social da mídia. Petrópolis, RJ: Vozes, 1998.

                Sites citados:

http://ocanaltv.com.br/2012/07/03/confira-a-media-das-emissoras-por-faixa-horaria-no-mes-de-junho/

http://www.sbt.com.br/conexaoreporter/reportagens/reportagem.asp?id=98&t=O+Pre%E7o+do+Milagre

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