PENSANDO O SABER CIENTÍFICO NA MODERNIDADE

O fazer científico moderno é calcado no argumento do método, seu principal pilar. O método, óbviamente, pressupõe desmedido rigor na produção destes saberes com a crença de que, devidamente seguido e aplicado, regula-se o saber especulativo. Nascido no século XVI, o método dividiria, segundo a ciência moderna, o saber comum – derivado da fé, de lendas e folclores – do saber comprobatório e racional, este devidamente testado e fundamentado. Este instante de transição, no entanto, evidenciou vários princípios contraditórios e dicotômicos que revelaram o caráter deste grandioso movimento que mudou a história do humanidade: substituiu-se o lugar da produção do saber, os indivíduos autorizados, os conceitos éticos, os fins, os meios e a gênese. Neste capítulo intentaremos, portanto, discutir sobre a origem da ciência moderna e de que modo o método – mais especificamente o método quantitativo – transformou e condicionou toda construção do saber moderno.

Paolo Rossi, em seu livro “O nascimento da ciência moderna na Europa” (2001), aponta que esta transformação no modus operandi científico não teve origem em um lugar específico, mas sim em toda Europa. Provavelmente os excessos do Clero acarretaram num estado de espírito que uniu à distância homens e mulheres de todos os cantos que existiam sob o jugo da igreja. E como movimento de ruptura e transformação, a ciência moderna não nasceu serenamente nas universidades: nasceu fora delas, marginalizada e perseguida. Em outras palavras, se hoje o lugar da ciência é a academia, configura-se ai uma apropriação. De toda forma, o contexto do nascimento da ciência moderna era caótico, históricamente falando (ROSSI, 2001, p. 10). A guerra dos trinta anos, pestes, bruxas queimadas, turbas saqueadoras e muitos outros elementos sociais, fundados em mitos e folclores, faziam da Europa dos séculos XVI e XVII um lugar demasiado conturbado de se viver. Hoje bem se sabe que muito do que se contava sobre a idade média era um mito construído pelos pais da modernidade na intenção de demonizar aqueles mil anos anteriores, de trevas e bruxas, ao mesmo tempo em que elevavam o valor de seus corajosos e valorosos atos (ROSSI, 2001, p. 15).

Os “pares” eram escassos, e a comunicação entre eles rarefeita, o que exigia que falassem e produzissem com rigorosa sistematização. Exigiam, entre si, “experiências sensatas” e “determinadas demonstrações”, elementos que deveriam ser manifestos juntos numa construção de saber. Toda evidência deveria ser colocada à prova, ser possível de ser demonstrada e aplicada por outros, e obviamente ser submetida à eventuais contestações. Com este rigor lutaram e venceram uma tradição que determinava que somente as autoridades eclesiasticas poderiam pronunciar “verdades”  (ROSSI, 2001, p. 14). Hoje tudo isto soa demasiado irônico: a ciência-religião não outorga a produção da verdade exclusivamente às suas novas autoridades eclesiásticas? Mas caminhemos.

Em 1561 nasce Francis Bacon, aquele que primeiro defenderia o rigor científico e a propor uma metodologia de produção de conhecimento e de estudo dos fenômenos naturais. Em sua obra “Novum organum” (BACON, 1973), o filósofo inglês defende que a descoberta de fatos verdadeiros não depende do raciocínio silogístico aristotélico e sim da observação e da experimentação regulada pelo raciocínio indutivo. Para ele o conhecimento verdadeiro sobre um fenômeno deriva de suas recorrências e de suas variações que, se devidamente observadas, evidenciariam a causa dos fenômenos  (GALVÂO, 2007). Deve-se, ainda, descrever de modo detalhado os fatos observados para serem confrontados com as três tábuas responsáveis por disciplinar o método indutivo: a tábua da presença (o registro de presenças das formas que se investigam), a tábua de ausência (o controle de situações nas quais as formas pesquisadas se revelam ausentes) e a tábua da comparação (o registro das variações que as formas anteriores manifestaram). A indução, embora fosse conhecida dos antigos, em Bacon é que ela ganha força e aplicabilidade.

Alguns anos depois, em 1596, nasce René Descartes. Apesar da primazia de Bacon, o impacto da filosofia de Descartes fora o mais importante da modernidade. Descartes parte da premissa de que o Sujeito que observa o objeto é mais importante que o objeto, logo, antes de voltar ao objeto é necessário olhar para o sujeito e fundamentar nele a possibilidade desse conhecimento. Quem é esse sujeito que conhece? Quais suas potencialidades e limitações? É possível sair da fé e do ceticismo e alcançar a verdade? É Descartes que insere a dicotomia corpo/mente, e mesmo que no final da obra (DESCARTES, 2008, p. 134) ele re-misture estes elementos da vida humana, a ciência moderna tomou como legado somente a separação alma/espírito, o que se tornou motivo de crítica de muitos filósofos modernos por conta das muitos consequências negativas desta disjunção. Descartes constrói seu método assumindo uma postura cética, mas ele não duvida para negar, mas sim para chegar, através da dúvida metódica, ao verdadeiro conhecimento (HIRATA, 2012). Para ele, tanto os sentidos humanos quanto a percepção não se configuram fundamentos seguros para um conhecimento verdadeiro, e por isso estabelece um percurso metódico com quatro preceitos básicos: Evidência (aquilo que aparece imediatamente ao entendimento), a Análise (divisão do problema em partes menores), a Síntese (ordenação do pensamento, do mais simples ao mais complexo) e a Evidência do Conjunto (enumeração dos dados e revisões gerais).

No entanto faz-se importante olhar para o contexto histórico das revoluções propostas por Bacon e Descartes. O que Paolo Rossi afirma é que a revolução científica da modernidade não fora mérito de uma sistemática busca pela verdade, mas sim um conflito entre duas forças, a saber, o clero e a nova burguesia (ROSSI, 2001, p. 18). Para nenhuma delas o saber teria o objetivo de “melhorar” o mundo, ou de desvelar os segregos ocultos da natureza na intenção de domesticá-la e minorar seus perigos. Por trás da verdade está o poder – e o próprio poder de gerar novas verdades. Neste embate entre verdades não venceu “a verdade mais verdadeira”, mas sim a mais eficiente em legitimar-se, aquela com maior poder de aliciamento.

Segundo Rossi (2001, p. 23), a ciência moderna esteve em franca aliança com a burguesia: ambos detinham interesses semelhantes. A nova ciência, financiada pelo capital burguês, tratou de criar seus novos espaços, com novas regras, linguagens e verdades próprias. “Verdades” importantes, como a da gravidade e a dos movimentos dos corpos – apesar de surgirem de uma ciência que excomungava as abstrações em nome de uma empiría comprobatória – não passam, afinal, de abstrações do real, uma matematização da física (ROSSI, 2001, p. 34). No decorrer destes cem anos (1610 a 1710) vários conceitos foram discutidos, criticados, rejeitados, transformados, culminando numa enorme construção do cosmos erigida por Newton: a física clássica. O que se oculta, no entanto, é que estas mudanças radicais implicavam também na transformação da forma com que o homem enxergava a natureza e seu próprio lugar e função no mundo (ROSSI, 2001, p. 39).

Já no século XVII outra importante transformação ocorreu: a união entre a ciência e a técnologia, separadas durante milênios, desde Aristóteles. Neste novo paradigma, em virtude das experimentações, novos aparatos técnicos surgiam justamente das mãos destes cientistas que experimentavam e comprovavam o mundo (ROSSI, 2001, p. 40). A burguesia via tudo isto com bons olhos: agora, além do fato de que não só o clero poderia possuir o capital – corroboração da filosofia, novas tecnologias eram entregues à uma sociedade ávida em adquirir novas facilidades e luxos, uma nova burguesia curiosa e interessada na manifestação prática e palpável de todos aqueles novos conceitos teóricos.

Poderosas dúvidas partiam em direção à fé católica, desestabilizações propostas por Bacon e Voltaire num caloroso arrebatamento inspirado em toda a Europa (exceto em Rousseau) numa nova fé, e fé inabalável, no poder da ciência e da lógica para conduzir afinal os homens à sua “perfectibilidade infinita”. Novas regras de fé, portanto, foram erigidas, pendendo a balança para o lado contrário. Em Spinoza esta fé alcançou níveis suntuosos, proporcionais ao criacionismo cristão: o universo todo poderia ser comparado e compreendido como uma estrutura geométrica e lógica, perfeitamente descritível. Tomas Hobbes e Diderot também faziam desfalecer os antigos dogmas, duvidando e criticando a fé milenar que a tantos levou às fogueiras. Foi nesta época que Deus morreu, assassinado pela medicina, pela física, química, matemática e pelas artes. Um poderoso Tribunal Revolucionário fora instituído, e este distribuía fartamente a morte a quantas esperanças antigas conseguisse: grandes “duvidadores”, grandes construtores de verdades  (DURANT, 1986).

O uso da palavra “fé”, em referênia à ciência, não constitui herezia tão agressiva a esta forma de produção de saber, apesar de sua veemente negação. Segundo Robert Merton (MERTON, 1970, p. 676), os valores iniciais da ciência, em seus primórdios modernos, se aproximavam muito dos valores religiosos de então, e seu puritanismo inicial, visto claramente até mesmo na Royal Society, trata-se de uma herança cristã. Todavia, de que forma a fé, motivo de repúdio no campo científico, pode constituir a base do próprio método científico?

Segundo Popper  (POPPER, 1993), a ciência trabalha sobre duas ferramentas principais: a lógica e a confrontação com os fatos. Aceitando os argumentos de Hume, Popper entende que há um grave problema lógico no fazer científico da modernidade: a indução. A observação de um fragmento temporal é tomada, via indução, como totalidade. Por exemplo, se foram vistos 1000 gansos pela janela, isto não quer dizer que o próximo também será branco, no entanto a ciência enfaticamente induzirá que “os gansos são brancos”, ou seja, reduzirá a totalidade dos gansos ao observável (FURLAN, 2002). A gravidade do problema lógico, segundo Popper, está no fato de que aqueles 1000 gansos brancos que por ali passaram sejam, na verdade, a minoria de todos os gansos. O movimento do sol e da terra, como observamos e entendemos, talvez seja um pequeno fragmento temporal de um movimento que, na em sua totalidade, seja radicalmente diferente, ou seja: o que vemos, uma fração do todo do mundo, é tal como um acidente (SARTRE, 2010, p. 16).  Não se percebe, no entanto:

…que é tão impossível atingir a essência amontoando acidentes quanto chegar à unidade acrescentando indefinidamente algarismos à direita de 0,99. Se eles tiverem por meta apenas acumular conhecimentos de detalhes, não há nada a dizer; simplesmente não se percebe o interesse desses trabalhos de colecionador (SARTRE, 2010, p. 17).

Se a ciência se baseia na experiência e na observação, tudo o que ela sabe é que “é assim que tem ocorrido”, mas não conhece a causa do ocorrido. Explicar com mais detalhes um fenômeno, explicitando cronologicamente aquela sucessão de fragmentos que constituem um todo, na verdade nada mais é que inserir algarismos à direita de 0,99 – se a intenção do cientista for compreender a causa e a origem daquele fenômeno. Se quiser meramente colecionar fragmentos de fenômenos, que se divirta com o fato; mas que se reconheça como mero colecionador.

E o problema lógico continua a se agravar: se não se conhece o motor ou a causa inicial de um fenômeno, não se pode afirmar que algo “sempre será assim”, pelas vias da indução. Assim, a menos que se pudesse observar todos os gansos, do princípio ao fim do universo e em toda sua extensão, constantando que todos os gansos são brancos, não poderíamos afirmar algo com certeza sobre a cor dos gansos. Ou seja, as ciências da natureza não visão conhecer o mundo, mas sim as condições de possibilidade de certos fenômenos gerais (SARTRE, 2010, p. 17). E se o conhecimento científico se baseia apenas na experiência de sua regularidade, então está baseado na fé, a crença e a expectativa de que aquele fenômeno se repita eternamente  (POPPER, 1993). E como não se sabe sobre esta perenidade de um fenômeno específico, salta-se para uma hipótese arriscada, testadas a posteriori.

Fica evidente, assim, que a ciência moderna não se aproximou da “verdade” mais do que a ciência clássica, que o clero ou que os antigos mitos folclóricos. Se detesse em suas mãos a verdade, aquela pregada e perseguida, não conflitaria a ciência consigo mesma. Por ser “fé”, ou seja, uma abstração construída, cada cientista tentará criar e legitimar sua versão da verdade. A despeito do uso dos métodos propostos por Descartes ou Bacon, a ciência continua a chegar a resultados e conclusões radicalmente diferentes, abrindo precedentes para uma acirrada competição entre atores e campos.

Sendo a ciência “fé” em movimento de legitimação, Bourdieu apresenta o conceito de “campos de forças” ao descrever o modo com que as instituições nascem, legitimam-se e atuam socialmente. A partir de sua obra ‘Para uma sociologia da ciência’ (BOURDIEU, 1970), abordaremos três conceitos para este texto: campos, conflitos entre campos, e capital científico. Este pensador expõe a ideia de que cada campo de forças é dotado de uma estrutura peculiar, bem como de espaços de conflitos pela manutenção ou transformação desse campo. Cada campo, como se vê com o científico e com outros mais, deforma o espaço em que se envolvem e conferem-lhe determinada estrutura.

Segundo Bourdieu, cada campo conflita com os demais em busca de legitimação. Contudo, o conflito não se dá somente nesta região intercampos, externa, mas também se dá hermeticamente, no interior de cada campo. Cada jogador, em seu campo, luta para estabelecer-se como ator relevante, buscando lugar de respeito e estabilidade, e ao lutar pela legitimação individual, cada jogador acaba, indiretamente, por fortalecer e legitimar todo seu campo. Bourdieu insere, ainda, o conceito marxista de “capital” ao descrever o potencial de cada campo de se estabelecer e de se legitimar. Cada jogador acumula seu capital, e cada campo acumula o capital somado de todos seus jogadores. O capital de um jogador depende dos seus diferentes trunfos que possam garantir-lhe vantagem sobre seus rivais. No campo científico, o capital é uma espécie particular de capital simbólico fundado no “reconhecimento de conhecimento”, mais até do que o próprio conhecimento em si.

O capital, portanto, para que se constitua como capital, é distribuído de forma desigual, regulando as possibilidades de ascensão e de consolidação em melhores espaços dentro de cada campo. Um cientista com alto capital ocupa uma posição tal que a estrutura acaba por operar em seu favor. Em última instância pode-se dizer que cada jogador defende e arregimenta seu campo como forma de auto arregimentação, pois que o enfraquecimento de seu campo de atuação significaria seu próprio enfraquecimento como jogador.

Dialogando com o conceito de campos de forças, resgatamos Bruno Latour, que lançou o conceito de “alianças”, explicitando a forma com que agentes de uma determinada comunidade se interagem com outras. Ao longo de sua obra “Ciência em ação: como seguir cientistas e engenheiros sociedade afora” (LATOUR, 2000), ele acompanha cientistas e capta exatamente os instantes e as formas com que alianças são feitas e fortalecidas. Em alguns instantes ele conceitua de forma mais categórica:

Como em “O príncipe”, de Maquiavel, a construção progressiva de um império é uma série de decisões quanto a alianças: com quem posso colaborar? Quem devo excluir? Como posso obter a fidelidade deste? E aquele, será confiável? Esse porta-voz é digno de crédito? Mas o que não ocorreu a Maquiavel é que essas alianças podem transcender os limites existentes entre seres humanos e “coisas” (LATOUR, 2000, p. 206).

Depois de uma breve intersecção entre os pensamentos destes dois pensadores, podemos justapor facilmente o conceito de “alianças” aos “conflitos de campos”. Esta concatenação de conceitos nos permite um vasto panorama das relações que se estabelecem em busca ou da manutenção do poder. Assim, podemos dizer que um campo, na tentativa de alargar seu capital, necessita de alianças e de “empréstimos” de capital de outro campo no esforço de reduzir o capital do seu antagonista direto, para assim, se legitimar e fortalecer suas bases. Segundo Latour fora exatamente assim que a Ciência moderna, em aliança com outros campos – burguesia, protestantismo, artes e outros – depreciou e exauriu o poder do Clero, derretendo os sólidos da idade médio, desmanchando-os no ar. Sim, a liquefação, através da competição por capital) também alcançou a produção de saberes.

Os saberes científicos – mesmo aqueles poucos que ainda não se dão em função do capital – também são regidos pelas mesmas regras da competitividade e da fluidez. O boletim informativo da FAPESP, de Novembro de 2011, não somente aponta o incrível número de publicações científicas como também aponta o destaque competitivo do estado de São Paulo:

Pesquisadores no Estado de São Paulo publicaram, de 2008 a 2010, 43.535 artigos científicos em revistas cadastradas no Web of Science, quantidade que supera a de todos os países latino-americanos (Tabela 1), exceto o Brasil. O Brasil lidera a produção de artigos científicos em relação aos principais países da América Latina, tendo publicado 94.622 trabalhos em periódicos científicos internacionais indexados pelo Web of Science no período 2008 a 2010. O número de publicações brasileiras foi 25% maior do que a soma dos trabalhos de México, Argentina, Chile, Colômbia e Venezuela, que juntos publicaram 75.665 artigos entre os anos citados. São Paulo representou 25,5% da produção na América Latina, se considerada a soma dos países já mencionados (FAPESP, 2011).

O número de publicações já é apresentado dentro de um contexto de competição. Os números apresentados são carregados de uma alta carga ideológica que assujeita o pesquisador a produzir competitivamente. O resultado é uma incrível quantidade de artigos publicados a cada ano, o que leva, segundo Bourdier (1970) e Latour (2000), não a uma procura pela verdade e pela melhoria da vida humana, mas acaba por fazer funcionar um movimento que se baseia nele mesmo, cuja regra é o próprio movimento: a própria produção de saber por si mesma, fomentada pelo capital e pela competição perene de seus competidores.

Voltando a Sartre, Bauman, Berman e Lyotard, podemos aferir que a produção científica do século XXI também é fluida por conta da competitividade acirrada da pós-modernidade. O sujeito, que coexiste com suas posses, saberes, relações pessoais, etc., não pode ser visto com saberes obsoletos, nem pode ficar estagnado na produção destes mesmos saberes: deve produzir mais, e produzir novos e muitos saberes, atualizados, divulgados, reconhecidos. A consequência é a fragmentação das narrativas, como propôs Lyotard CITATION LYO93 \n  \t  \l 1046 (1993), e a possibilidade de fundamentação de toda sorte de certezas, segundo a intenção de cada sujeito angustiado por alguma dúvida (SARTRE, 1997).

Bauman aborda esta problemática em sua obra “Modernidade e Ambivalência” CITATION BAU99 \n  \t  \l 1046 (1999), onde o autor evidencia os projetos e as promessas feitas na revolução científica do século XV, revoluções que prometiam a libertação da mão pesada da igreja e a criação de novos sólidos fundamentos para a vida humana. No entanto este estado de competição, efemeridade e fluidez que alcançou a produção de saberes, trouxe consigo uma ambivalência inerente. Diz-se de ambivalência, nas ciências, para a produção de saberes em larga escala ao ponto de que uma ponta não tome conhecimento da outra, e produzam, sob a mesma ciência (e seus métodos), dizeres antagônicos e até paradoxais, sob o subterfúgio de uma heterogeneidade consentida. O projeto inicial da ciência – de conquistar a natureza, entendê-la e subordiná-la às necessidades humanas – quedou-se, afinal, ante as necessidades políticas dos produtores de saber, e a natureza, afinal, tornou-se um objeto maleável nas mãos da liberdade humana (BAUMAN, 1999, p. 48).

Para Bauman, essa competitividade fluida e ambivalente da ciência culminou em Auschiwitz e Hiroshima, onde a produção científica e filosófica do mundo ocidental perdeu completamente de vista as promessas feitas pelos Iluministas no século XV:

O que a lição do holocausto nos ensinou, porém, foi a duvidar da sabedoria pretensiosa dos cientistas ao dizerem o que é bom ou mau, da capacidade da ciência como autoridade moral, enfim da capacidade dos cientistas de identificar questões morais e de fazer um julgamento moral dos efeitos de suas ações (BAUMAN, 1999, p. 54).

O que o autor ressalta, no decorrer desta obra, é que esta soma de elementos da modernidade (competitividade, fluidez e ambivalência), na ciência, faz funcionar regras herméticas que se fundamentam nelas mesmas, regras estas que acabam por excluir questões morais e éticas, existindo numa esfera deveras artificial, e já não diz mais respeito aos seres humanos. Mas os problemas continuam a crescer. A modernidade colocou a humanidade em uma encruzilhada ameaçadora: ou aceita o desprezo da ética e a desqualificação da moral pelos cientistas, ou questiona os valores e ações propostas por estes racionalistas, pois que, ambivalente, a ciência torna-se um mero dizer sofisticado a respeito de artificialidades humanas – longe dos ideiais Iluministas – mas ainda assim saberes submetidos a jogos políticos e econômicos (BAUMAN, 1999, pp. 30-32).

A velocidade da obsolescência chegou à produção de saberes científicos no século XXI:

A “modernidade” só é concebível como uma modernização – termo taquigráfico que significa a construção de detours sempre novos e mais abrangentes, quase sempre disfarçados de atalhos – de forma contínua, obsessiva e compulsiva. Aos obstáculos, só concede um poder temporário, na verdade de curto prazo: oferece-lhes, na melhor das hipóteses, o status de constrangimentos transitórios, tolerados por algum tempo, mas destinados a serem logo eliminados, ultrapassados ou empurrados para fora do caminho por mais um esforço, ou conjunto de esforços, da ciência (depositária do cérebro e da reflexão ponderada da tecnologia) e da tecnologia (braço prático da ciência). Obstáculos, incluindo aqueles que suspeitamente se parecem com limites, são “problemas”, e problemas, como nós modernos sabemos muito bem, são desafios que determinam tarefas as quais são, por sua vez, realizáveis por definição (BAUMAN, 2008b, p. 101).

Para Bauman, finalmente, este caráter efêmero e ambivalente da ciência moderna, nas mãos da competitividade capitalista, assume um caráter genocida com enorme potencial destrutivo. Homem e mundo correm perigo, segundo o autor, pois que sombras de aniquilação despontam no horizonte (BAUMAN, 1999, p. 60). As soluções não são nítidas, tampouco fáceis. O que se sabe é que, nesta direção, a humanidade ainda sofrerá as consequências de sua escolha por uma liberdade competitiva e fluida.

Campos de forças, alianças, fé, burguesia, tecnologia: todas estas palavras fazem coro com a palavra “método” no que chamamos revolução científica dos séculos XVI e XVII. Esta discussão se faz importante para refletirmos em equilíbrio o papel da ciência moderna na vida cotidiana de nossos dias: muitos divinizam, outros tantos demonizam. Devemos olhar suas contribuições e seus efeitos colaterais, seu discurso, sua legitimação, seu processo de criação, seus atores, seus financiadores. Mas afinal, filosoficamente falando, entender que a verdade científica é só mais uma: depende da fé tanto quanto as demais fontes de saber.

REFERÊNCIAS:

BACON, F. (1973). Novum organum ou verdadeiras indicações acerca da interpretação da natureza. (J. A. Andrade, Trans.) São Paulo: Abril Cultura (Coleção Os Pensadores, 13).

BOURDIEU, P. (1970). Para uma sociologia da ciência. Lisboa, Portugal: Edições 70.

DESCARTES, R. (1985). Regras para a direção do espírito. Porto, Portugal: Edições 70.

DESCARTES, R. (2008). Discurso do Método e Meditações. (R. L. Ferreira, Trans.) São Paulo: Martin Claret.

DURANT, W. (1986). A filosofia de Emanuel Kant ao seu alcance. (M. T. Miranda, Trans.) RIO DE JANEIRO: Ediouro.

FURLAN, R. (2002). Uma revisão/Discussão sobre Filosofia da Ciência. Revista Paidéia, pp. 12-24.

GALVÂO, R. C. (2007, II Semestre). FRANCIS BACON: TEORIA, MÉTODO E CONTRIBUIÇÕES PARA A EDUCAÇÃO. Revista Voz das Letras.

HIRATA, C. (2012, Jan./Abril). Sistema em Leibniz e Descartes. Trans/Form/Ação, 35, pp. 23-36.

IANNI, O. (2001). Teorias da globalização. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.

LATOUR, B. (2000). Ciência em ação: como seguir cientistas e engenheiros sociedade afora. (I. C. Benedettí, Trans.) São Paulo: Editora UNESP.

MERTON, R. K. (1970). Sociologia – Teoria e Estrutura. São Paulo: Mestre Jou.

POPPER, K. (1993). A lógica da pesquisa científica. São Paulo: Cultrix.

ROSSI, P. (2001). O nascimento da ciência moderna na Europa. (A. Angonese, Trans.) Bauru, SP: EDUSC.

SARTRE, J.-P. (2010). Esboço para uma teoria das emoções. (P. Neves, Trans.) Porto Alegre: L&PM.

THOMPSON, J. B. (1998). A mídia e a modernidade: uma teoria social da mídia. Petrópolis, RJ: Editora Vozes.

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