A LIQUEFAÇÃO DOS SÍGNOS NO CAPITALISMO

Texto não publicado em revistas científicas.

RESUMO

Umberto Eco apresenta um complexo universo de signos que constitui nossa sociedade: homens, objetos, ações, lugares, posições e tudo mais estão sujeitos a significações e resignificações. Por outro lado Bauman apresenta uma liquefação dos sólidos antigos: família, religião, papéis sociais e outros, culminando numa sociedade em que tudo se renova a todo instante, como que por obrigação. Entrecruzando estes dois campos de conhecimento, analisaremos a forma com que a liquefação dos signos resulta numa sociedade líquida consumista, cujas significações já não são mais estáveis, e nem podem ser.

O MUNDO DOS SIGNOS

Em seus estudos semióticos Umberto Eco dá grande importância ao conceito de Signo. É através dele que a informação é transmitida e as coisas são ditas, trabalhando num processo de comunicação que se dá na forma “fonte – emissor – canal – mensagem – destinatário” (ECO, 1988, p. 21). Geralmente uma mensagem é composta por vários signos, logo, a soma deles é quem atribui o sentido final a cada signo.

Eco aponta os Estoicos (pré-socráticos) como fundadores da definição de signo, e o fizeram distinguindo nele três elementos constituintes (ECO, 1988, p. 24):

O semainon, ou seja, o signo físico, uma materialidade perceptível.

O semainomenon, que é a ideia que se cola ao signo, não sendo, portanto, uma entidade física.

O pragma, que é a coisa em si sobre a qual fala o semainomenon, é um objeto físico, um acontecimento ou ação.

Estes conceitos são apresentados por Eco na forma de um triângulo, tal como o vemos abaixo:

 

O significante é qualquer materialidade que suporte o signo. Ao tentar falar sobre um conjunto de pessoas que são parentes entre si, do mesmo sangue, que se cuidam, etc., escrevo num pedaço de papel “família”, ou “family”, ou “famiglia”, ou ainda “obitelj”. Se com nenhum destes signos conseguir expressar a ideia que tenho em mente, posso tentar desenhar uma família, fazer gestos ou uma simulação. O significado, por sua vez, é a ideia de família que estou tentando passar a outrem. Nada existe que cole esta abstração “família” a qualquer significante material do mundo, e mesmo a ideia de “família” pode ser diferente em cada sujeito ou cultura. A referência, finalmente, é uma família propriamente dita, algo pragmático no mundo real, sensível e material. É sobre a “referência” que falava uma materialidade significante “família” no qual colei um significado ideal “família” (ECO, 1988, p. 25). Percebemos, no entanto, que no triângulo a linha entre Significante e Referência é pontilhada, apontando, segundo Eco, para a obscuridade e arbitrariedade desta relação, pois que não motivo algum para que se use “família, family ou obitelj” para descrever aquele grupo de pessoas que convivem juntas e se cuidam por serem do mesmo sangue (ECO, 1988, p. 26).

O autor aponta ainda para a dificuldade de se afirmar exatamente o que é o signo, em nossos dias, pois que alguns chamam signo o que agora há pouco chamamos significante, outros ainda chamam todo o conjunto do triângulo como signo. Tais ambiguidades atestam, portanto, para um definição fora do triangulo, a de que o signo é “algo que se põe no lugar de outra coisa, ou por outra coisa” (ECO, 1988, p. 27). Assim a semiótica se pôs a separar os signos naturais dos artificiais e alocá-los ainda em outras subdivisões, no entanto as tendências atuais se inclinam a definir como signo todos os aspectos da cultura e da vida social. Assim, objetos que foram criados sem a mínima intenção de comunicarem algo, afinal, comunicam.

La función se compenetra en el sentido; esta semantización es fatal: por el mero hecho de que existe sociedad, cualquier uso se convierte en signo de este uso. La función del impermeable es proteger de la lluvia, pero esta función no puede disociarse del signo de una situación atmosférica determinada; dado que nuestra sociedad no produce más objetos estandarizados, normalizados, tales objetos son necesariamente ejecuciones de un modelo, las palabras de una lengua, las substancias de una forma significante (BARTHES, 1964, pág. 39).

Assim chegamos a uma rede de conceitos que trabalham “toda possibilidade de comunicar” como uma rede de significações, um universo de signos que permeia toda a sociedade. Diversos estudiosos (MOLES, 1969; BAUDRILLARD, 1968) tem proposto uma semiótica dos objetos – daquilo que comunicam e da possibilidade de receber novas significações. O mesmo se pode dizer sobre a arquitetura (ECO, 1968; DE FUSCO, 1969; KOENIG, 1970) e mesmo sobre o corpo humano e seus atos (ECO, 1988, p. 33). Assim percebemos que todos os elementos que compõem nossa sociedade são passíveis de serem significados, de comunicarem a despeito de sua origem distante desta finalidade. Eco dá como exemplo as vestimentas que nunca serviram apenas para cobrirem o corpo, mas comunicam status, identidade, ideologias e castas sociais. O mesmo se dá com um automóvel, um sofá, um corte de cabelo, um gesto, uma forma de se sentar, um equipamento tecnológico avançado: tudo comunica e está sujeito a receber novas significações (ECO, 1988, p. 40).

O HOMEM COMO LINGUAGEM: SARTRE

Tal como os objetos no mundo são dotados de uma significação, quando em contato com o homem e por este utilizado, assim o próprio homem é um existente passível de receber significação e de significar-se. Sartre, em “O ser e o nada” afirma que o homem, já ontologicamente, se faz linguagem ao outro que o vê e o objetiva.

  • Meus atos, livremente concebidos e executados, meus projetos, além de minhas possibilidades, possuem afora um sentido que me escapa e que experimento: sou linguagem (SARTRE, 1997, p.716).

 Segundo o filósofo existencialista, o surgimento do outro à minha presença, me olhando (objetivando), faz surgir a linguagem como condição de meu ser. Obviamente que se trata de todos os fenômenos de expressão, e ainda uma linguagem que não faz conhecer, mas experimentar meu ser. E o ser que o que outro experimenta através desta linguagem é o que Sartre chama de ‘ser-para-outrem’, um ser que escapa de mim através do outro quando este transcende minha transcendência, ou seja, minha subjetividade. No entanto, ao transcender minha transcendência, o outro me objetiva e me torno objeto-linguagem, logo, um objeto-signo, dotado de significações que no entanto me escapam.

  • Não posso nem sequer conceber que efeito terão meus gestos e atitudes, já que sempre serão recolhidos e fundados por uma liberdade que os transcenderá, e não podem ter significação a menos que esta liberdade lhe confira. Assim, o sentido de minhas expressões me escapam sempre; não sei nunca exatamente se significo o que quero significar nem ainda se possuo significado; neste preciso instante, seria necessário que eu me lesse no outro, o que, por princípio, é inconcebível. (Idem, p.718).

Assim se prefigura um conflito nesta relação que se estabelece pelas vias da linguagem: apesar de almejar significar algo, na intenção de seduzir a transcendência do outro, é o outro quem me atribui o significado final nesta equação. Ao me apresentar objeto-signo ao outro, a despeito de qualquer que seja minha intenção de significar, submeto-me à significação que o outro faz sobre mim.

Sartre afirma ainda que o homem não é nada, mas um “constante escolher-se” livre: ninguém é pai, filho, professor, belo ou comunista. Há que se escolher colocar-se embaixo de um destes signos todos os dias; no entanto, se de súbito desisto daquele signo que aparentemente me conferia necessidade e existência dentro de uma rede de constituição, percebo-me como um nada: nada sou, mas desejo ser (SARTRE, 1997, p.720), e para tanto executo uma série de rituais diários de legitimação e estabilização do significado que a mim é atribuído.

E assim constituímo-nos sujeitos-signos nesta rede de significações que é a sociedade, onde cada sujeito ocupa um lugar simbólico sempre com a impressão de estabilização do sentido do que se ‘é’, pois que afinal, nada somos; um significado não se cola perpetuamente num individuo significante, e se este não exercer os devidos rituais de legitimação, todos seus significados anteriores se desmoronarão dando lugar a outros.

A ontologia Sartreana afirma, ainda, que ao significar um objeto e com ele coexistir, significo também a mim através dele, numa cosignificação (SARTRE, 1997, p.XXX). Assim, imerso num contexto histórico e ideológico que significa um automóvel da marca Ferrari, tento significar-me a mim também através do uso-fruto de tal veículo, muito embora esta significação final seja realizada pelo outro que me vê. Se coexisto com ele, logo, sou um homem numa Ferrari; o sujeito-signo que apresento ao outro, em relação com o objeto-signo Ferrari, compõem um signo final composto por um duplo significante que coexiste naquele instante (SARTRE, 1997, p. 456).

DILUINDO OS GRANDES SIGNOS

Deste estudo prévio concluímos que a sociedade é uma grande rede de signos que significam homens, objetos, ações, lugares, posições e tudo mais. Para adentrar no próximo assunto, tomemos como exemplo o signo “família”. Durante séculos este signo carregou um significado estável: uma família patriarcal em que cada membro sabia exatamente o lugar que nela deveria ocupar, bem como o papel de toda aquela família numa sociedade específica. A rigidez com que este signo conduzia as ações humanas é comparada aos sólidos, por Bauman, o que por sua vez antecipa a conceituação de um líquido. Mas comecemos pelo início.

De toda a teoria de Karl Marx um conceito nos interessa demasiado neste texto, conceito, aliás, que fundou toda uma rede de conceitos presentes em diversos pensadores contemporâneos: “Tudo o que é sólido se desmancha no ar”, chamado também de “Ideal desenvolvimentista”. O desfalecimento dos sólidos, um importante conceito da sociologia contemporânea, é tratado com maestria por Zygmund Bauman, além de perpassar as teorias de Berman, Baudrillard, e Lyotard, conforme veremos.

Comecemos estabelecendo a diferença entre sólidos e líquidos, o que Bauman faz baseando-se na enciclopédia britânica (BAUMAN, 2001, p. 7). Os líquidos são fluidos, assim como os gases. A fluidez é o atributo físico que os une. Um fluido não suporta uma força tangencial deformante quando imóvel, e assim sofre uma mudança em sua forma quando submetido a tal tensão. Portanto, um simples movimento de uma parte do material fluido resulta no movimento de todo ele, num fluxo de movimento em que uma parte exerce pressão sobre outra do mesmo material, gerando movimento em todo o conteúdo: movimento que gera movimento, contudo, não ao infinito (BAUMAN, 2001, p. 7). No entanto, se recebe outra força tangencial em outra parte do sistema, um novo movimento surge deste outro ponto, movimento que se choca com outros movimentos, provocando ainda novos movimentos em direções diferentes: o movimento é, portanto, caótico.

No sólido, ao contrário, uma tensão em uma de suas partes não é capaz de gerar fluxo deformante em cadeia, e assim, mesmo retorcendo uma ponta o restante daquele objeto não se movimentará. Assim, a diferença fundamental entre os fluidos e os sólidos está na capacidade de cada um em ocupar certo espaço por um determinado tempo (BAUMAN, 2001, p. 8).

Os fluidos, por assim dizer, não fixam o espaço nem prendem o tempo. Enquanto os sólidos têm dimensões espaciais claras, mas neutralizam o impacto e, portanto, diminuem a significação do tempo (resistem efetivamente a seu fluxo ou o tornam irrelevante), os fluidos não se atêm muito a qualquer forma e estão constantemente prontos (e propensos) a mudá-la; assim, para eles, o que conta é o tempo, mais do que o espaço que lhes toca ocupar; espaço que, afinal, preenchem apenas “por um momento’ (BAUMAN, 2001, p. 8).

Qual a origem desta fluidez social? Bauman aponta que este processo de “liquefação” teve início na modernidade, no instante de todas as revoluções. Segundo ele a modernidade já foi concebida fluida. Para que as revoluções e os renascimentos culturais, sociais, científicos e antropológicos ocorressem, era preciso uma emancipação da “mão morta de sua própria história” (BAUMAN, 2001, p. 9), o que somente se daria derretendo os sólidos. Isto implicaria dissolver tudo aquilo que tivesse persistido ao tempo e fosse obstáculo ao fluxo e às mudanças. Fora necessário a profanação do sagrado, o repúdio e destronamento do passado e da tradição. O Renascimento clamava, segundo Bauman, “pelo esmagamento da armadura protetora forjada de crenças e lealdades que permitiam que os sólidos resistissem à ‘liquefação'” (BAUMAN, 2001, p. 10). Estas revoluções procuravam não por uma sociedade eternamente fluida, ao contrário, por novos sólidos de uma durabilidade maior, uma solidez confiável e previsível, portanto, administrável (BAUMAN, 2001, p. 10). Derreter-se-ia os sólidos da idade média na intenção de se construir sólidos mais justos e humanistas.

As primeiras resistências, sólidas resistências, estavam impregnadas no seio das massas: nas tradições morais que cerceavam cada indivíduo. Derreter os sólidos implicava eliminar os comprometimentos irrelevantes, libertar a sociedade dos grilhões dos deveres para com a família e o lar, com a igreja e os costumes sociais obsoletos, de suas densas tramas éticas. Este derretimento dos sólidos deixou caminho aberto para a racionalidade instrumental da economia, visto que a então “nova burguesia” era quem financiava toda sorte de revolução: na arte, na filosofia (iluminista), no protestantismo, na ciência, na imprensa e tudo mais. Uma superestrutura de base cuja única função era auxiliar numa transformação suave e contínua (BAUMAN, 2001, p. 11). A economia tornou-se a nova ordem, o novo paradigma social, imune a desafios que não fossem de sua própria natureza.

Em sua obra “Vida Líquida”, Bauman apresenta como esta liquefação alcançou, segundo ele, a família, a sexualidade, a constituição do indivíduo enquanto sujeito, a política, os meios de comunicação, a própria ciência, e muitos outros campos sociais. Esta liquefação dos modelos acabou, finalmente, por se transformar num novo modelo, qual seja, o do movimento contínuo, o da fluidez, o da constante novidade e obsolescência de todos os sentidos: o modelo consolidado é o “não-modelo” (BAUMAN, 2001, p. 11).

A fluidez disseminada, portanto, apresenta-se agora como obstáculo à própria solidificação que tanto se almejou nos primórdios da revolução cultural do século XV, e assim, o único sólido que persistiu acabou por ser a economia, esta que a tudo fundamenta (leia-se superestrutura). Contudo, quão sólido é este fundamento? Pode-se determinar a economia como um ‘sólido’? A solidez que acomete a economia é estranhamente fluida. Marshall Berman, em seu livro “Tudo o que é sólido se desmancha no ar”, descreve este seu estranho ‘movimento-sólido’. Ele afirma que uma das grandes realizações da burguesia foi emancipar a capacidade e o esforço humano para o desenvolvimento e contínua mudança: para uma perpétua renovação de todos os modos de vida pessoal e social, movimento este que, por sua vez, partiu e parte das necessidades diárias da economia.

 Quem quer que esteja ao alcance dessa economia se vê sob a pressão de uma incansável competição, seja do outro lado da rua, seja em qualquer parte do mundo. Sob pressão, todos os burgueses, do mais humilde ao mais poderoso, são forçados a inovar, simplesmente para manter seu negócio e a si mesmos à tona; quem quer que deixe de mudar, de maneira ativa, tornar-se-á vítima passiva das mudanças draconianamente impostas por aqueles que dominam o mercado (BERMAN, 1986, p. 92).

 Isso evidencia que mesmo a burguesia “não pode subsistir sem constantemente revolucionar os meios de produção” (BERMAN, 1986, p. 92). Afirma ainda, o autor, que a partir da intensa pressão por revolução dos meios de produção é que se extrapola os limites do mercado, o instante em que a coação por circulação alcança todas as condições e relações sociais, ao que ele cita Marx:

  • O constante revolucionar da produção, a ininterrupta perturbação de todas as relações sociais, a interminável incerteza e agitação distinguem a época burguesa de todas as épocas anteriores. Todas as relações fixas, imobilizadas, com sua aura de idéias e opiniões veneráveis, são descartadas; todas as novas relações, recém-formadas, se tornam obsoletas antes que se ossifiquem. Tudo o que é sólido desmancha no ar, tudo o que é sagrado é profanado, e os homens são finalmente forçados a enfrentar com sentidos mais sóbrios suas reais condições de vida e sua relação com outros homens, (MARX, 1988, p.338)

Marshall Berman faz então uma perturbadora conclusão sobre os movimentos da economia. Segundo ele, esta ininterrupta perturbação do sistema, as constantes crises, as intermináveis incertezas e agitações são, na verdade, o fortalecimento do próprio sistema capitalista. Assim, as catástrofes são convertidas em lucrativas oportunidades para o redesenvolvimento e para a renovação; muitos caem, e muitos sobem. As desintegrações e crises são, portanto, forças motoras! Logo, o único temor da economia seria uma estabilidade sólida e prolongada. Neste cenário a estabilidade significa entropia, logo, dizer que nossa sociedade está em direção decadente consiste dizer que está viva e em forma (BERMAN, 1986, p. 93).

Nas constantes e recorrentes crises há uma renovação geral: dos produtos, das forças produtivas, dos membros da burguesia, das formas de se vender e de se consumir. As crises podem aniquilar pessoas e empresas que são mais fracas, menos aptas às mudanças, e assim abrir espaço para que novas companhias se estabeleçam. Assim, as crises se apresentam como inesperada força de resistência do capitalismo, pois que lhe dá movimento, logo, lhe dá vida. Marx, no entanto, acreditava que estas reformulações apenas “pavimentam o caminho para crises ainda maiores e mais destrutivas”. Entretanto, comprovada a capacidade do capitalismo de tirar proveito da ruína, podemos facilmente acreditar que essas crises possam prosseguir numa espiral interminável (BERMAN, 1986, p. 100).

Assim chegamos à conclusão de que a totalidade da modernidade é dotada de certa liquidez, talvez não em níveis homogêneos, mas certamente não há mais o que chamar ‘sólido’. Todo o sistema se move, em alguns campos com maior velocidade, e a modernidade líquida, pressagiada por Weber e Marx, converte-se no substrato principal para a constituição de uma ideologia pós-moderna, embora este termo não seja usado por nenhum dos autores aqui abordados.

Marshall Berman, em seu diagnóstico, afirma que o cidadão comum assumiu de vez a fluidez e a forma aberta dessa sociedade (BERMAN, 1986, p. 93). Os sujeitos aspiram às mudanças: aspiram não somente estar aptos a elas, mas buscam efetivamente estas transformações, ao ponto de estas tornarem-se contínua. É preciso aprender a não lastimar em nostalgia pelos tempos que se foram, mas se empenhar e se deliciar na renovação, no hoje, atentos ao amanhã. O ontem já se foi, e não há mais espaço para ele (BERMAN, 1986, p. 94).

  • …foi retirada a tampa dos desejos humanos: nenhuma quantidade de aquisições e sensações emocionantes tem qualquer probabilidade de trazer satisfação da maneira como o “manter-se ao nível dos padrões” outrora prometeu: não há padrões a cujo nível se manter – a linha de chegada avança junto com o corredor, e as metas permanecem continuamente distantes, enquanto se tenta alcançá-las (BAUMAN, 1998, p. 56).

As consequências aos indivíduos são inúmeras: a vida líquida é uma vida problemática que se dá em condições de incerteza perene. Segundo Bauman (2007, p.8), o perigo iminente é não conseguir acompanhar a velocidade dos eventos e ficar para trás: perder a data do vencimento da conta, atrasar-se para o trabalho passando por um trânsito caótico, perder o último lançamento no cinema, perder o último lançamento de qualquer coisa: ficar para trás. Perigo é perder o momento da exigência da mudança, não estar atento a ele e acabar estagnado num caminho sem volta. A vida líquida é uma sucessão de reinícios, logo, livrar-se das coisas tem prioridade sobre adquiri-las.

Lyotard também fez um profundo estudo sobre este movimento de liquefação social. Em suas teorias encontramos a liquefação das “grandes narrativas” e das “metanarrativas”, até restarem as “pequenas narrativas” da pós-modernidade.

  • Desta decomposição dos grandes Relatos, […], segue-se o que alguns analisam como a dissolução do vínculo social e a passagem das coletividades sociais ao estado de uma massa composta de átomos individuais […]. Isto não é relevante, é um caminho que nos parece obscurecido pela representação paradisíaca de uma sociedade ‘orgânica’ perdida (Ibid., p. 28).

Assim, o átomo individual, por menor que seja, não está sozinho, pois é atravessado todo o tempo por mensagens constitutivas de novos vínculos sociais, mas sem a necessidade de pertencer por muito tempo a nenhum deles. Seu deslocamento em meio aos jogos de linguagem é consentido e provocado pelo sistema na intenção de melhorar seu próprio desempenho enquanto sistema.

Em resumo, Bauman, Berman e Lyotard mostraram este percurso de liquefação dos sólidos no decorrer da modernidade até nossos dias. Os lugares simbólicos (signos) não são mais duradouros, e a consequência é uma sociedade líquida onde interessa mais a troca que a continuação.

O grande movimento de liquefação vigente desde a modernidade diluiu inclusive o papel do homem na sociedade, seu lugar, seu nome, sua identidade, enfim. A solidez de um signo sob o qual se estabelecer era um atributo valioso construído ao longo de toda uma vida, passado de geração a geração e mantido com todo cuidado (BAUMAN, 1998, p. 38). No entanto, depois dos contínuos séculos de liquefação de todos os sentidos e o fim dos grandes e dos metarrelatos, a pós-modernidade então exige a fluidez também do signo-sujeito. Bauman recupera uma frase de Lao Tse, o profeta oriental do desligamento e da tranquilidade:

  • Flutuando como a água… você vai em frente com rapidez, jamais enfrentando a corrente nem parando o suficiente para ficar estagnado ou se grudar às margens ou às rochas – propriedades, situações ou pessoas que passam por sua vida -, nem mesmo tentando agarrar-se a suas opiniões ou visões de mundo, apenas se ligando ligeiramente, mas com inteligência, a qualquer coisa que se apresente enquanto você passa e depois deixando-a ir embora graciosamente sem apegar-se (BAUMAN, 2007, p. 4).

Bauman aponta duas lições importantes que o homem pós-moderno necessita aprender com urgência e nunca esquecer. 1ª: os dias valem tanto quanto – e somente – a satisfação que cada um deles dá. A recompensa é um hoje diferente, e não um amanhã melhor. O futuro está além do seu alcance e as preocupações a longo prazo são para os crédulos. 2ª: mantenha seus engajamentos sempre superficiais, pois lealdades e compromissos possuem datas de ‘vencimento’, e mantê-los por muito tempo pode ser perigoso (BAUMAN, 2005, p. 132).

O estranho mecanismo que conserva a perenidade do movimento e diluição dos signos está para o nível dos anseios humanos mais básicos: ontológicos e psicológicos. Segundo Bauman, na pós-modernidade líquida estes desejos estão mais em evidência que em qualquer outro instante da história. A satisfação dos desejos suprimiu o desejo por segurança (BAUMAN, 1998, p. 8), e a antiga renuncia aos instintos – sob o signo da ordem e da moral da civilização (FREUD, 1974, p. 58) é agora vertida em ética hedonista, e a liberdade é seu pressuposto: estar livre dos antigos grilhões para ascender à satisfação dos desejos.

Esta promessa de satisfação, todavia, só pode persistir atraente se o desejo continuar sempre irrealizado. Assim, apesar das infinitas cartas de crédito, o mercado evita estabelecer alvos fáceis simplesmente tornando permanente a insatisfação. Depreciam e desvalorizam os signos de consumo (produtos, lazer, conhecimentos e outros) logo depois de terem sido alçados ao universo dos desejos do consumidor, ou ainda proporcionam satisfações que geram outras necessidades (BAUMAN, 2007, p. 107).

Prefigura-se aqui a importante relação do homem com os objetos do mundo: um movimento senão dialético, diluído um no outro, pois que a obsolescência da imagem que se faz sobre um sujeito depende em grande parte dos objetos com o qual este se relaciona, movimento este que atua na rápida obsolescência dos produtos por uma sociedade que necessita estar sempre renovada.

  • “Com vergonha de seu celular? Será que este é tão velho que você fica envergonhado ao atender uma chamada? Faça um upgrade para um aparelho do qual você possa se orgulhar.” O lado negativo da ordem de “fazer um upgrade” para um celular “consumidoristicamente correto” é, com certeza, a exigência de não voltar a ser visto portando aquele para o qual você fez um upgrade da última vez (BAUMAN, 2007, p. 17).

A soma destes eventos acaba por dar à sociedade pós-moderna um caráter estritamente de consumo. O consumo torna-se a medida de uma vida bem sucedida, da felicidade e mesmo da decência humana (BAUMAN, 1998, p. 56), ao que Bauman cita Althusser sobre uma ideologia pós-moderna do consumo: “uma sociedade que […] ‘interpela’ seus membros basicamente, ou talvez até exclusivamente, como consumidores” (BAUMAN, 2007, p. 109).

Totalmente imerso numa sociedade de consumo, o próprio sujeito-signo converte-se em mercadoria, e para tanto será necessário igualmente estar atualizado e modernizado. O ideal é que ele seja um empregado/mercadoria “antigo, mas novinho em folha” (BAUMAN, 2005, p. 105), com todo o conhecimento necessário mas com a garra e a expressão facial de um recém contratado. O sujeito-signo é estimulado/coagido a promover uma mercadoria atraente e desejável: ele mesmo. E para isso faz ele o máximo esforço para aumentar seu próprio valor de mercado, sendo ele ao mesmo tempo produto e seu próprio promotor de marketing (BAUMAN, 2008, p. 13).

Concluindo, fica nítida a implicação de um sistema de signos noutro: os movimentos dialeticamente construídos entre o sujeito-signo e o objeto-signo na sociedade. Os movimentos caóticos de liquefação dos signos sólidos pré-modernos conduziram a sociedade à mais intensa individualização, como vimos em Bauman e Lyotard. Não existe mais a noção de grupo, mas de grupos pelos quais caminho, e caminho sozinho e em liberdade absoluta. Intensificou-se a competição pela eficácia de cada sujeito, cada qual um pequeno relato em busca de legitimação (LYOTARD, 1993, p. 28). No entanto esta liberdade, na sociedade do consumo, foi alcançada elevando a rivalidade inter-individual acima mesmo da riqueza e do poder, transformando estes em símbolos. No mundo do consumo a posse de bens é apenas um dos benefícios perigosos da competição. A luta é primeiro por símbolos e pelas diferenças e distinções que eles representam: estes sim, recursos inesgotáveis (BAUMAN, 1989, p. 94). Portanto, não podemos falar de obsolescência dos produtos sem falar de obsolescência dos sujeitos.

A capacidade de durar não joga mais a favor das coisas. Dos objetos e dos laços, exige-se apenas que sirvam durante algum tempo e que possam ser destruídos ou descartados de alguma forma quando se tornarem obsoletos – o que acontecerá forçosamente. Assim, é preciso evitar a posse de bens, em particular daqueles que duram muito e que não são descartáveis com facilidade. O consumismo de hoje não consiste em acumular objetos, mas em seu gozo descartável (BAUMAN, 2010, p. 42).

A consequência para o sujeito é uma crônica falta de recursos com os quais possa construir uma identidade verdadeiramente sólida e duradoura (BAUMAN, 1998, p. 38), ou ainda a obrigatoriedade de livrar-se de qualquer identidade duradoura. Nas mais diversas ciências antropológicas se veriam muitas consequências negativas desta incapacidade do sujeito em legitimar uma identidade. Em Sartre, como se viu anteriormente, o homem nada é e muito se angustia por isso. Deseja ele, portanto, com todas suas forças, ser algo. Contudo, numa sociedade intensamente fluida, a angústia ontológica de nada ser é menos sanada, o que se refletirá em seus projetos na vida. O desejo pelo máximo de estabilização de um sentido – estabilização utópica – é ontológico, para Sartre, pois que deseja ser pleno e estanque, como um deus consciente mas sem falta alguma (SARTRE, 1997, p. XXX).

O OBJETO-SIGNO EM LIQUEFAÇÃO – A OBSOLESCÊNCIA E O CONSUMISMO

O objeto: esse figurante humilde e receptivo, essa espécie de escravo psicológico e de confidente, tal e como foi vivido no cotidiano tradicional e ilustrado por toda a arte ocidental até nossos dias, esse objeto foi o reflexo de uma ordem total ligada a uma concepção bem definida da decoração e da perspectiva, da substância e da forma. Conforme esta concepção, a forma é uma fronteira absoluta entre o interior e o exterior. É um continente fixo, e o exterior é substância. Os objetos possuem, assim, alem de sua função prática, uma função primordial de recipiente, de vaso do imaginário (BAUDRILLARD, 1979, p.27).

Este parágrafo da obra “O sistema dos objetos”, de Jean Baudrillard, faz coro com os conceitos apresentados anteriormente na teoria Sartreana das relações do homem com os objetos. Todo objeto se constituirá signo se lhe for atribuído uma função, logo, um nome, como veremos adiante. Contudo todo objeto tem a potencialidade de carregar outro tipo de significação, qual seja, a da afinidade, um “vaso do imaginário”, nas palavras do autor supracitado. No entanto, percorramos todo o trajeto proposto por este pensador na tentativa de compreendermos com mais profundidade a forma com que um objeto pode ser dotado de significação, e como tal significação sofre alterações significativas numa modernidade líquida, causando não somente sua obsolescência material, mas também uma obsolescência ‘sígnica’, uma fluidez de todos os sentidos.

Baudrillard inicia descrevendo o complexo universo dos objetos nesta sociedade de hiperprodução e hiper-renovação. Para falar de uma linguagem com sentidos conotativos relacionados aos produtos, Baudrillard usa como exemplo o mobiliário de uma casa (Idem, p.13). Ele contrapõe o sentido denotativo de um móvel, ou seja, sua “função”, com seu sentido conotativo, este que carrega significados mais individuais e de cunho mais psicanalítico. Uma mesa pode ter um sentido conotativo muito mais amplo se for, por exemplo, uma herança de terceira geração na qual se tenha passado toda uma infância, muitas ceias e momentos importantes, para o bem ou para o mal. Na família tradicional todo o ambiente é um organismo vivo, e sua estrutura é a relação familiar. A simples composição dos móveis constitui também a relação entre os membros daquela família e a preocupação, portanto, não será de um ordenamento objetivo dos móveis e objetos, pois que estes tem como função primeiramente personificar as relações humanas, seus conceitos morais e afetivos (Idem, p.14).

Assim, resgatando os conceitos de Sartre de dupla significação, estes móveis na residência tradicional possuíam significados semelhantes aos de seus proprietários: figurar numa esfera moral, justamente onde devem e podem significar. Conforme afirma Baudrillard, possuíam tão pouca autonomia neste espaço mobiliário quanto os diversos membros da família possuíam na sociedade. Ademais, seres e objetos estavam ligados numa cumplicidade densa, um valor afetivo que este autor chama de “presença” (Idem, p.14). Há, nesta residência tradicional, um antagonismo entre interior e exterior que faz trabalhar todo um sentido de interioridade familiar: entrar no interior de sua própria casa é entrar no seio de sua família. Os móveis, a divisão dos cômodos, os objetos de enfeite e os de uso, todos assumem certa antropomorfia e encarnam no espaço os laços afetivos, certo censo de permanência no grupo (Idem, p.14-15). Fica nítido, portanto, o aparecimento de três tipos de constituição de significados sobre um objeto:

             O signo denotativo, ou signo-uso, que ordena e atribui função aos objetos, além de lhes dar nomes.

             O signo conotativo, ou signo-presença, da ordem dos sentimentos atribuídos, das relações psicológicas e ontológicas.

No entanto Baudrillard apresenta os mesmos movimentos de liquefação, estes que diluíram os grandes signos desde a modernidade, trabalhando na transformação da relação homem/objeto. As relações do homem com sua família mudaram, assim mudam o estilo e as relações do homem com seus objetos: suas significações também se transformam e trabalham na transformação da relação familiar, que transformam as relações sociais, as relações religiosas e as relações consigo mesmo: uma rede de interdependências.

Baudrillard alerta que as mudanças destas relações não se dão de maneira improvisada e espontânea: são adaptações a novas necessidades. A cama converte-se sofá-cama, a mesa se dobra e comporta menos pessoas, os automóveis ficam menores e também seus motores mais leves e econômicos. Todas estas transformações são adaptações forçadas à falta de espaço, à economia de tempo e de combustível: as dificuldades financeiras é que inventam e faz adaptar, e transformam, por sua vez, uma rede enorme de relações dotadas de significações (Idem, p. 15). Se a grande e herdada mesa de jantar era carregada de significações morais e afetivas, os interiores modernos agora se atentam à funcionalidade máxima por conta de novas necessidades, e esta nova organização faz com que a afetividade familiar dê lugar a uma mesa desprovida de capacidade de significar além de sua função: não há mal algum em passar por nossas vidas mais de cinco mesas. Se as necessidades mudam, os objetos devem mudar para suprir esta nova realidade, e como mudam com muita frequência, as relações afetivas, relativas à durabilidade e à solidez, já não são mais capazes de atribuir signos afetivos aos objetos. E assim a desestruturação da antiga ordem simbólica não fora reposta por ordem alguma: vive em constante fluidez.

Entre o indivíduo e seus objetos agora já não há significação alguma além de seu uso prático: não exercem nenhuma sorte de constrangimento moral e liberta aos poucos o indivíduo de suas responsabilidades familiares. Encontra nesta mobilidade uma relação mais liberal, mais desapegada e passível de mudanças menos dolorosas. Uma liberação parcial, no entanto, pois que libertar-se da significação afetiva não implica libertar-se de uma nova rede de significações de uso: novas necessidades são apresentadas todos os dias e, finalmente, a dependência dos objetos aumenta. (Idem, p. 16).

A consequência disto são mesas lisas, brancas e sem ornamentos que lhe proporcionem identidade. São diferentes, mas iguais. A própria distinção de objeto para objeto por vezes se liquefaz: cama e mesa se parecem. O que foi libertado, portanto, segundo Baudrillard, foi a função do objeto: ela está agora liberada da teatralidade moral dos antigos móveis, separada dos ritos que legitimavam uma estrutura familiar repleta de significados e responsabilidades (Idem, p.16). Agora o objeto está livre para ser apenas aquilo para que serve, livre para funcionar, e o homem, por sua vez, está liberado para apenas utilizar este objeto: igualmente livre das significações que pediam constantes legitimações, cansativas sustentações de signos pesados. Sem estas relações não há mais espaço, pois que este se abre e se reaproveita, é fluido e livre: funcional, afinal (Idem, p. 17).

Já não existe a dicotomia interioridade/exterioridade, e assim o homem já não é mais nem proprietário nem usuário, mas somente um informador ativo do ambiente, um mero ‘homem de colocação’, nas palavras de Baudrillard. O homem moderno domina, controla e ordena seus objetos, mas não os consome: opera como mero técnico, e a propaganda é seu conselheiro de comunicações (Idem, p. 26), reflexos de uma liquefação de todos os signos:

…a lógica mesmo deste jogo traz consigo a imagem de uma estratégia geral das relações humanas, de um projeto humano, de um modus vivendi da era técnica; verdadeiro câmbio da civilização cujos aspectos se podem observar inclusive na vida cotidiana (Idem, p.27).

Para analisar o que Baudrillard chama de conotação técnica precisaremos nos atentar para o conceito de automatismo, conceito capital do triunfo da mecânica, um certo ideal mitológico do objeto moderno. O automatismo é a causa de uma nova transformação, dentre tantas, na relação homem objeto de nossa sociedade pós-moderna. Porque “anda sozinho”, o objeto automatizado impõe certa semelhança com o ser humano e o fascina. Estamos diante, pois, de um novo antropomorfismo (Idem, p. 128), depois de morto o antropomorfismo da sociedade tradicional (em que uma mesa passava tanto tempo comigo que já se constituía certa extensão de mim no mundo). Esta nova identificação do homem com os objetos aloca sobre ele um novo tipo de signo-presença, porém este já não está ligado ao longo período de necessário para que se constituísse uma relação desta complexidade: está mais ligado ao constante progresso e capacidade técnica de fazer parecer a máquina com o homem – vê-se o fascínio por tudo que se assemelha a uma inteligência artificial.

Em sua própria existência técnica o objeto encontra substrato para sua nova mitologia moderna: “[…] o caminho do automatismo é uma supersignificação do homem em sua essência formal e em seus desejos inconscientes” (Idem, p. 129). Sobre este conceito podemos aproximar novamente Baudrillard de Sartre, pois que para o existencialista o homem busca no mundo um equivalente a si mesmo para fundamentar o nada que reside em seu âmago. Assim, quanto mais inteligentes e autônomos forem os celulares, televisores, automóveis e demais produtos, maior a própria supersignificação do homem.

Imerso nesta corrida em direção a um “si-mesmo” manifesto nos objetos, recairá ainda uma significativa característica moderna sobre os produtos: a qualidade de ‘modelos’, ou seja, de que são exemplos para a produção de uma ‘série’ de produtos iguais a ele mas depois dele, depois da sensação de novidade ter se obliterado (Idem, p.160). O mercado vende todos os objetos como ‘modelo’, e nunca como ‘série’, visto que há um intervalo significativo entre a possibilidade da aquisição de um e de outro. Todavia o que se omite é que é a ‘série’ que trabalha sobre o ‘modelo’, empurrando-o para frente: é o menos tecnológico que obriga a criação do mais tecnológico (Idem, p.163). Mas o mercado faz funcionar um jogo facilmente manipulado: todas as inovações e personalizações fazem dos produtos mais efêmeros. Limitam a duração de um produto, forçando uma nova aquisição, simplesmente sobrepondo lentamente os atuais por outros mais tecnológicos, e então tal objeto deixará de agradar e se tornará antiquado mesmo que conserve sua qualidade funcional intacta (Idem, p.164).

Os atributos técnicos de um produto podem, afinal, estarem obsoletos em relação a outro, o que incidirá fortemente na constituição do signo-presença de ambos: o novo constitui o obsoleto e o obsoleto constitui o novo. É preciso estar sempre à altura dos ‘modelos’, e não se permitir usar um produto de ‘série’. Contudo, o inadmissível seria usar um produto fora de série, fora do jogo, pois que numa lógica de dupla significação, o sujeito que usa um produto dotado de um signo obsoleto se autossignifica como obsoleto, logo, fora de série, não-modelo: fora do jogo (Idem, p.167).

DISCUSSÃO FINAL: OBSOLESCÊNCIA E CONSUMISMO

Entendendo que todos os elementos de nossa sociedade ocupam um lugar de significação, não podemos falar de obsolescência de um signo-sujeito sem falar da obsolescência do signo-objeto. A constante necessidade de renovação de um implica na renovação de outro. Todo este movimento de liquefação dos sólidos dotou nossa sociedade de uma fluidez incontrolável que rearranja todos as significações a cada instante, e importa mais constituir-se a si mesmo como uma metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo (Canção brasileira, de Raul Seixas).

Aplicando estes conceitos na temática do consumismo, percebemos que sua origem advém de épocas distantes, da revolução científica e artística do século XV, de um grande movimento de liquefação da sociedade. Certamente que esta não é a única explicação, todavia faz-se um erro olvidar destes eventos maiores que aparentemente englobam toda a modernidade. Um objeto que comigo significa, uma coexistência significante, necessitará ser constantemente trocado e renovado para que minha própria significação não permaneça estagnada, antiquada e pronta para ser descartada. O sujeito precisa ser “novo” a todo instante, e o fará através das coisas que aprende, que pensa, que compra, que veste e faz. A consequência de um instante de desatenção e atraso é ser descartado e colocado fora do jogo social pós-moderno.

OBRAS CITADAS

BAUMAN, Z. (1989). A liberdade. (M. F. Azevedo, Trad.) Lisboa: Editora Estampa, Lda.

BAUMAN, Z. (2010). Capitalismo parasitário: e outros temas contemporâneos. (E. Aguiar, Trad.) Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.

BAUMAN, Z. (2001). Modernidade Líquida. (P. Dentzien, Trad.) Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.

BAUMAN, Z. (1998). O mal-estar da pós-modernidade. (M. Gama, Trad.) Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

BAUMAN, Z. (2007). Vida Líquida. (C. A. Medeiros, Trad.) Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

BAUMAN, Z. (2008). Vida para o consumo: a transformação das pessoas em mercadorias. (C. A. Medeiros, Trad.) Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.

BAUMAN, Z. (2005). Vidas desperdiçadas. (C. A. Medeiros, Trad.) Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.

BERMAN, M. (1986). Tudo o que é sólido se desmancha no ar. (C. F. Moisés, Trad.) São Paulo: Ed. Schwarcz Ltda.

ECO, U. (1988). El signo. Barcelona: Letra E.

FREUD, S. (1974). O mal estar na civilização – Obras completas. Rio de Janeiro: Imago.

LYOTARD, J.-F. (1993). O pós-moderno. (R. Correia, Trad.) Rio de Janeiro: José Olympio.

SARTRE, J. P. (1997). O ser e o Nada. (Perdigão, Trad.) São Paulo: Vozes.

MOLES, Abraham A.

Sociodmamica della cultura, Florencia, Guaraldi, 1971. [Edición original en francés, Sociodynamique de la culture, La Haya, Mouton.]

BAUDRILLARD, Jean

1968 Il sistema degli oggetti, Milán, Bompiani, 1972. [Edición original francesa, Gallimard, París.]

ECO, Umberto

*1968 La struttura assente, Milán, Bompiani. [Traducción española, Barcelona, Lumen.]

DI FUSCO, Renato

1969 (con M. E. Scaivini) «Significami e significati nella rotondo palladiana», en Op. Cit. , núm. 16.

KOENIG. Giovanni K.

1969 Architettura e comunicazione, Florencia, Fiorentina, 1970.

RESUMO

Umberto Eco apresenta um complexo universo de signos que constitui nossa sociedade: homens, objetos, ações, lugares, posições e tudo mais estão sujeitos a significações e resignificações. Por outro lado Bauman apresenta uma liquefação dos sólidos antigos: família, religião, papéis sociais e outros, culminando numa sociedade em que tudo se renova a todo instante, como que por obrigação. Entrecruzando estes dois campos de conhecimento, analisaremos a forma com que a liquefação dos signos resulta numa sociedade líquida consumista, cujas significações já não são mais estáveis, e nem podem ser.

O MUNDO DOS SIGNOS

Em seus estudos semióticos Umberto Eco dá grande importância ao conceito de Signo. É através dele que a informação é transmitida e as coisas são ditas, trabalhando num processo de comunicação que se dá na forma “fonte – emissor – canal – mensagem – destinatário”  CITATION ECO88 \p 21 \t  \l 1046  (ECO, 1988, p. 21). Geralmente uma mensagem é composta por vários signos, logo, a soma deles é quem atribui o sentido final a cada signo.

Eco aponta os Estoicos (pré-socráticos) como fundadores da definição de signo, e o fizeram distinguindo nele três elementos constituintes  CITATION ECO88 \p 24 \t  \l 1046  (ECO, 1988, p. 24):

O semainon, ou seja, o signo físico, uma materialidade perceptível.

O semainomenon, que é a ideia que se cola ao signo, não sendo, portanto, uma entidade física.

O pragma, que é a coisa em si sobre a qual fala o semainomenon, é um objeto físico, um acontecimento ou ação.

Estes conceitos são apresentados por Eco na forma de um triângulo, tal como o vemos abaixo:

O significante é qualquer materialidade que suporte o signo. Ao tentar falar sobre um conjunto de pessoas que são parentes entre si, do mesmo sangue, que se cuidam, etc., escrevo num pedaço de papel “família”, ou “family”, ou “famiglia”, ou ainda “obitelj”. Se com nenhum destes signos conseguir expressar a ideia que tenho em mente, posso tentar desenhar uma família, fazer gestos ou uma simulação. O significado, por sua vez, é a ideia de família que estou tentando passar a outrem. Nada existe que cole esta abstração “família” a qualquer significante material do mundo, e mesmo a ideia de “família” pode ser diferente em cada sujeito ou cultura. A referência, finalmente, é uma família propriamente dita, algo pragmático no mundo real, sensível e material. É sobre a “referência” que falava uma materialidade significante “família” no qual colei um significado ideal “família”  CITATION ECO88 \p 25 \t  \l 1046  (ECO, 1988, p. 25). Percebemos, no entanto, que no triângulo a linha entre Significante e Referência é pontilhada, apontando, segundo Eco, para a obscuridade e arbitrariedade desta relação, pois que não motivo algum para que se use “família, family ou obitelj” para descrever aquele grupo de pessoas que convivem juntas e se cuidam por serem do mesmo sangue  CITATION ECO88 \p 26 \t  \l 1046  (ECO, 1988, p. 26).

O autor aponta ainda para a dificuldade de se afirmar exatamente o que é o signo, em nossos dias, pois que alguns chamam signo o que agora há pouco chamamos significante, outros ainda chamam todo o conjunto do triângulo como signo. Tais ambiguidades atestam, portanto, para um definição fora do triangulo, a de que o signo é “algo que se põe no lugar de outra coisa, ou por outra coisa”  CITATION ECO88 \p 27 \t  \l 1046  (ECO, 1988, p. 27). Assim a semiótica se pôs a separar os signos naturais dos artificiais e alocá-los ainda em outras subdivisões, no entanto as tendências atuais se inclinam a definir como signo todos os aspectos da cultura e da vida social. Assim, objetos que foram criados sem a mínima intenção de comunicarem algo, afinal, comunicam.

La función se compenetra en el sentido; esta semantización es fatal: por el mero hecho de que existe sociedad, cualquier uso se convierte en signo de este uso. La función del impermeable es proteger de la lluvia, pero esta función no puede disociarse del signo de una situación atmosférica determinada; dado que nuestra sociedad no produce más objetos estandarizados, normalizados, tales objetos son necesariamente ejecuciones de un modelo, las palabras de una lengua, las substancias de una forma significante (BARTHES, 1964, pág. 39).

 

Assim chegamos a uma rede de conceitos que trabalham “toda possibilidade de comunicar” como uma rede de significações, um universo de signos que permeia toda a sociedade. Diversos estudiosos (MOLES, 1969; BAUDRILLARD, 1968) tem proposto uma semiótica dos objetos – daquilo que comunicam e da possibilidade de receber novas significações. O mesmo se pode dizer sobre a arquitetura (ECO, 1968; DE FUSCO, 1969; KOENIG, 1970) e mesmo sobre o corpo humano e seus atos  CITATION ECO88 \p 33 \t  \l 1046  (ECO, 1988, p. 33). Assim percebemos que todos os elementos que compõem nossa sociedade são passíveis de serem significados, de comunicarem a despeito de sua origem distante desta finalidade. Eco dá como exemplo as vestimentas que nunca serviram apenas para cobrirem o corpo, mas comunicam status, identidade, ideologias e castas sociais. O mesmo se dá com um automóvel, um sofá, um corte de cabelo, um gesto, uma forma de se sentar, um equipamento tecnológico avançado: tudo comunica e está sujeito a receber novas significações  CITATION ECO88 \p 40 \t  \l 1046  (ECO, 1988, p. 40).

O HOMEM COMO LINGUAGEM: SARTRE

Tal como os objetos no mundo são dotados de uma significação, quando em contato com o homem e por este utilizado, assim o próprio homem é um existente passível de receber significação e de significar-se. Sartre, em “O ser e o nada” afirma que o homem, já ontologicamente, se faz linguagem ao outro que o vê e o objetiva.

Meus atos, livremente concebidos e executados, meus projetos, além de minhas possibilidades, possuem afora um sentido que me escapa e que experimento: sou linguagem (SARTRE, 1997, p.XXX).

Segundo o filósofo existencialista, o surgimento do outro à minha presença, me olhando (objetivando), faz surgir a linguagem como condição de meu ser. Obviamente que se trata de todos os fenômenos de expressão, e ainda uma linguagem que não faz conhecer, mas experimentar meu ser. E o ser que o que outro experimenta através desta linguagem é o que Sartre chama de ‘ser-para-outrem’, um ser que escapa de mim através do outro quando este transcende minha transcendência, ou seja, minha subjetividade. No entanto, ao transcender minha transcendência, o outro me objetiva e me torno objeto-linguagem, logo, um objeto-signo, dotado de significações que no entanto me escapam.

Não posso nem sequer conceber que efeito terão meus gestos e atitudes, já que sempre serão recolhidos e fundados por uma liberdade que os transcenderá, e não podem ter significação a menos que esta liberdade lhe confira. Assim, o sentido de minhas expressões me escapam sempre; não sei nunca exatamente se significo o que quero significar nem ainda se possuo significado; neste preciso instante, seria necessário que eu me lesse no outro, o que, por princípio, é inconcebível. (Idem, p.XXX).

Assim se prefigura um conflito nesta relação que se estabelece pelas vias da linguagem: apesar de almejar significar algo, na intenção de seduzir a transcendência do outro, é o outro quem me atribui o significado final nesta equação. Ao me apresentar objeto-signo ao outro, a despeito de qualquer que seja minha intenção de significar, submeto-me à significação que o outro faz sobre mim.

Sartre afirma ainda que o homem não é nada, mas um “constante escolher-se” livre: ninguém é pai, filho, professor, belo ou comunista. Há que se escolher colocar-se embaixo de um destes signos todos os dias; no entanto, se de súbito desisto daquele signo que aparentemente me conferia necessidade e existência dentro de uma rede de constituição, percebo-me como um nada: nada sou, mas desejo ser (SARTRE, 1997, p.XXX), e para tanto executo uma série de rituais diários de legitimação e estabilização do significado que a mim é atribuído.

  E assim constituímo-nos sujeitos-signos nesta rede de significações que é a sociedade, onde cada sujeito ocupa um lugar simbólico sempre com a impressão de estabilização do sentido do que se ‘é’, pois que afinal, nada somos; um significado não se cola perpetuamente num individuo significante, e se este não exercer os devidos rituais de legitimação, todos seus significados anteriores se desmoronarão dando lugar a outros.

A ontologia Sartreana afirma, ainda, que ao significar um objeto e com ele coexistir, significo também a mim através dele, numa cosignificação (SARTRE, 1997, p.XXX). Assim, imerso num contexto histórico e ideológico que significa um automóvel da marca Ferrari, tento significar-me a mim também através do uso-fruto de tal veículo, muito embora esta significação final seja realizada pelo outro que me vê. Se coexisto com ele, logo, sou um homem numa Ferrari; o sujeito-signo que apresento ao outro, em relação com o objeto-signo Ferrari, compõem um signo final composto por um duplo significante que coexiste naquele instante CITATION SAR97 \p 456 \t  \l 1046   (SARTRE, 1997, p. 456).

DILUINDO OS GRANDES SIGNOS

Deste estudo prévio concluímos que a sociedade é uma grande rede de signos que significam homens, objetos, ações, lugares, posições e tudo mais. Para adentrar no próximo assunto, tomemos como exemplo o signo “família”. Durante séculos este signo carregou um significado estável: uma família patriarcal em que cada membro sabia exatamente o lugar que nela deveria ocupar, bem como o papel de toda aquela família numa sociedade específica. A rigidez com que este signo conduzia as ações humanas é comparada aos sólidos, por Bauman, o que por sua vez antecipa a conceituação de um líquido. Mas comecemos pelo início.

De toda a teoria de Karl Marx um conceito nos interessa demasiado neste texto, conceito, aliás, que fundou toda uma rede de conceitos presentes em diversos pensadores contemporâneos: “Tudo o que é sólido se desmancha no ar”, chamado também de “Ideal desenvolvimentista”. O desfalecimento dos sólidos, um importante conceito da sociologia contemporânea, é tratado com maestria por Zygmund Bauman, além de perpassar as teorias de Berman, Baudrillard, e Lyotard, conforme veremos.

Comecemos estabelecendo a diferença entre sólidos e líquidos, o que Bauman faz baseando-se na enciclopédia britânica  CITATION BAU01 \p 7 \t  \l 1046  (BAUMAN, 2001, p. 7). Os líquidos são fluidos, assim como os gases. A fluidez é o atributo físico que os une. Um fluido não suporta uma força tangencial deformante quando imóvel, e assim sofre uma mudança em sua forma quando submetido a tal tensão. Portanto, um simples movimento de uma parte do material fluido resulta no movimento de todo ele, num fluxo de movimento em que uma parte exerce pressão sobre outra do mesmo material, gerando movimento em todo o conteúdo: movimento que gera movimento, contudo, não ao infinito  CITATION BAU01 \p 7 \t  \l 1046  (BAUMAN, 2001, p. 7). No entanto, se recebe outra força tangencial em outra parte do sistema, um novo movimento surge deste outro ponto, movimento que se choca com outros movimentos, provocando ainda novos movimentos em direções diferentes: o movimento é, portanto, caótico.

No sólido, ao contrário, uma tensão em uma de suas partes não é capaz de gerar fluxo deformante em cadeia, e assim, mesmo retorcendo uma ponta o restante daquele objeto não se movimentará. Assim, a diferença fundamental entre os fluidos e os sólidos está na capacidade de cada um em ocupar certo espaço por um determinado tempo  CITATION BAU01 \p 8 \t  \l 1046  (BAUMAN, 2001, p. 8).

Os fluidos, por assim dizer, não fixam o espaço nem prendem o tempo. Enquanto os sólidos têm dimensões espaciais claras, mas neutralizam o impacto e, portanto, diminuem a significação do tempo (resistem efetivamente a seu fluxo ou o tornam irrelevante), os fluidos não se atêm muito a qualquer forma e estão constantemente prontos (e propensos) a mudá-la; assim, para eles, o que conta é o tempo, mais do que o espaço que lhes toca ocupar; espaço que, afinal, preenchem apenas “por um momento’  CITATION BAU01 \p 8 \t  \l 1046  (BAUMAN, 2001, p. 8).

Qual a origem desta fluidez social? Bauman aponta que este processo de “liquefação” teve início na modernidade, no instante de todas as revoluções. Segundo ele a modernidade já foi concebida fluida. Para que as revoluções e os renascimentos culturais, sociais, científicos e antropológicos ocorressem, era preciso uma emancipação da “mão morta de sua própria história”  CITATION BAU01 \p 9 \t  \l 1046  (BAUMAN, 2001, p. 9), o que somente se daria derretendo os sólidos. Isto implicaria dissolver tudo aquilo que tivesse persistido ao tempo e fosse obstáculo ao fluxo e às mudanças. Fora necessário a profanação do sagrado, o repúdio e destronamento do passado e da tradição. O Renascimento clamava, segundo Bauman, “pelo esmagamento da armadura protetora forjada de crenças e lealdades que permitiam que os sólidos resistissem à ‘liquefação'”  CITATION BAU01 \p 10 \t  \l 1046  (BAUMAN, 2001, p. 10). Estas revoluções procuravam não por uma sociedade eternamente fluida, ao contrário, por novos sólidos de uma durabilidade maior, uma solidez confiável e previsível, portanto, administrável  CITATION BAU01 \p 10 \t  \l 1046  (BAUMAN, 2001, p. 10). Derreter-se-ia os sólidos da idade média na intenção de se construir sólidos mais justos e humanistas.

As primeiras resistências, sólidas resistências, estavam impregnadas no seio das massas: nas tradições morais que cerceavam cada indivíduo. Derreter os sólidos implicava eliminar os comprometimentos irrelevantes, libertar a sociedade dos grilhões dos deveres para com a família e o lar, com a igreja e os costumes sociais obsoletos, de suas densas tramas éticas. Este derretimento dos sólidos deixou caminho aberto para a racionalidade instrumental da economia, visto que a então “nova burguesia” era quem financiava toda sorte de revolução: na arte, na filosofia (iluminista), no protestantismo, na ciência, na imprensa e tudo mais. Uma superestrutura de base cuja única função era auxiliar numa transformação suave e contínua  CITATION BAU01 \p 11 \t  \l 1046  (BAUMAN, 2001, p. 11). A economia tornou-se a nova ordem, o novo paradigma social, imune a desafios que não fossem de sua própria natureza.

Em sua obra “Vida Líquida”, Bauman apresenta como esta liquefação alcançou, segundo ele, a família, a sexualidade, a constituição do indivíduo enquanto sujeito, a política, os meios de comunicação, a própria ciência, e muitos outros campos sociais. Esta liquefação dos modelos acabou, finalmente, por se transformar num novo modelo, qual seja, o do movimento contínuo, o da fluidez, o da constante novidade e obsolescência de todos os sentidos: o modelo consolidado é o “não-modelo”  CITATION BAU01 \p 11 \t  \l 1046  (BAUMAN, 2001, p. 11).

A fluidez disseminada, portanto, apresenta-se agora como obstáculo à própria solidificação que tanto se almejou nos primórdios da revolução cultural do século XV, e assim, o único sólido que persistiu acabou por ser a economia, esta que a tudo fundamenta (leia-se superestrutura). Contudo, quão sólido é este fundamento? Pode-se determinar a economia como um ‘sólido’? A solidez que acomete a economia é estranhamente fluida. Marshall Berman, em seu livro “Tudo o que é sólido se desmancha no ar”, descreve este seu estranho ‘movimento-sólido’. Ele afirma que uma das grandes realizações da burguesia foi emancipar a capacidade e o esforço humano para o desenvolvimento e contínua mudança: para uma perpétua renovação de todos os modos de vida pessoal e social, movimento este que, por sua vez, partiu e parte das necessidades diárias da economia.

Quem quer que esteja ao alcance dessa economia se vê sob a pressão de uma incansável competição, seja do outro lado da rua, seja em qualquer parte do mundo. Sob pressão, todos os burgueses, do mais humilde ao mais poderoso, são forçados a inovar, simplesmente para manter seu negócio e a si mesmos à tona; quem quer que deixe de mudar, de maneira ativa, tornar-se-á vítima passiva das mudanças draconianamente impostas por aqueles que dominam o mercado CITATION BER86 \p 92 \t  \l 1046   (BERMAN, 1986, p. 92).

Isso evidencia que mesmo a burguesia “não pode subsistir sem constantemente revolucionar os meios de produção”  CITATION BER86 \p 92 \t  \l 1046  (BERMAN, 1986, p. 92). Afirma ainda, o autor, que a partir da intensa pressão por revolução dos meios de produção é que se extrapola os limites do mercado, o instante em que a coação por circulação alcança todas as condições e relações sociais, ao que ele cita Marx:

O constante revolucionar da produção, a ininterrupta perturbação de todas as relações sociais, a interminável incerteza e agitação distinguem a época burguesa de todas as épocas anteriores. Todas as relações fixas, imobilizadas, com sua aura de idéias e opiniões veneráveis, são descartadas; todas as novas relações, recém-formadas, se tornam obsoletas antes que se ossifiquem. Tudo o que é sólido desmancha no ar, tudo o que é sagrado é profanado, e os homens são finalmente forçados a enfrentar com sentidos mais sóbrios suas reais condições de vida e sua relação com outros homens, (MARX, 0000, p.338)

Marshall Berman faz então uma perturbadora conclusão sobre os movimentos da economia. Segundo ele, esta ininterrupta perturbação do sistema, as constantes crises, as intermináveis incertezas e agitações são, na verdade, o fortalecimento do próprio sistema capitalista. Assim, as catástrofes são convertidas em lucrativas oportunidades para o redesenvolvimento e para a renovação; muitos caem, e muitos sobem. As desintegrações e crises são, portanto, forças motoras! Logo, o único temor da economia seria uma estabilidade sólida e prolongada. Neste cenário a estabilidade significa entropia, logo, dizer que nossa sociedade está em direção decadente consiste dizer que está viva e em forma CITATION BER86 \p 93 \t  \l 1046   (BERMAN, 1986, p. 93).

Nas constantes e recorrentes crises há uma renovação geral: dos produtos, das forças produtivas, dos membros da burguesia, das formas de se vender e de se consumir. As crises podem aniquilar pessoas e empresas que são mais fracas, menos aptas às mudanças, e assim abrir espaço para que novas companhias se estabeleçam. Assim, as crises se apresentam como inesperada força de resistência do capitalismo, pois que lhe dá movimento, logo, lhe dá vida. Marx, no entanto, acreditava que estas reformulações apenas “pavimentam o caminho para crises ainda maiores e mais destrutivas”. Entretanto, comprovada a capacidade do capitalismo de tirar proveito da ruína, podemos facilmente acreditar que essas crises possam prosseguir numa espiral interminável  CITATION BER86 \p 100 \t  \l 1046  (BERMAN, 1986, p. 100).

Assim chegamos à conclusão de que a totalidade da modernidade é dotada de certa liquidez, talvez não em níveis homogêneos, mas certamente não há mais o que chamar ‘sólido’. Todo o sistema se move, em alguns campos com maior velocidade, e a modernidade líquida, pressagiada por Weber e Marx, converte-se no substrato principal para a constituição de uma ideologia pós-moderna, embora este termo não seja usado por nenhum dos autores aqui abordados.

Marshall Berman, em seu diagnóstico, afirma que o cidadão comum assumiu de vez a fluidez e a forma aberta dessa sociedade  CITATION BER86 \p 93 \t  \l 1046  (BERMAN, 1986, p. 93). Os sujeitos aspiram às mudanças: aspiram não somente estar aptos a elas, mas buscam efetivamente estas transformações, ao ponto de estas tornarem-se contínua. É preciso aprender a não lastimar em nostalgia pelos tempos que se foram, mas se empenhar e se deliciar na renovação, no hoje, atentos ao amanhã. O ontem já se foi, e não há mais espaço para ele  CITATION BER86 \p 94 \t  \l 1046  (BERMAN, 1986, p. 94).

…foi retirada a tampa dos desejos humanos: nenhuma quantidade de aquisições e sensações emocionantes tem qualquer probabilidade de trazer satisfação da maneira como o “manter-se ao nível dos padrões” outrora prometeu: não há padrões a cujo nível se manter – a linha de chegada avança junto com o corredor, e as metas permanecem continuamente distantes, enquanto se tenta alcançá-las CITATION BAU98 \p 56 \t  \l 1046   (BAUMAN, 1998, p. 56).

As consequências aos indivíduos são inúmeras: a vida líquida é uma vida problemática que se dá em condições de incerteza perene. Segundo Bauman (2007, p.8), o perigo iminente é não conseguir acompanhar a velocidade dos eventos e ficar para trás: perder a data do vencimento da conta, atrasar-se para o trabalho passando por um trânsito caótico, perder o último lançamento no cinema, perder o último lançamento de qualquer coisa: ficar para trás. Perigo é perder o momento da exigência da mudança, não estar atento a ele e acabar estagnado num caminho sem volta. A vida líquida é uma sucessão de reinícios, logo, livrar-se das coisas tem prioridade sobre adquiri-las.

Lyotard também fez um profundo estudo sobre este movimento de liquefação social. Em suas teorias encontramos a liquefação das “grandes narrativas” e das “metanarrativas”, até restarem as “pequenas narrativas” da pós-modernidade.

 

Desta decomposição dos grandes Relatos, […], segue-se o que alguns analisam como a dissolução do vínculo social e a passagem das coletividades sociais ao estado de uma massa composta de átomos individuais […]. Isto não é relevante, é um caminho que nos parece obscurecido pela representação paradisíaca de uma sociedade ‘orgânica’ perdida (Ibid., p. 28).

Assim, o átomo individual, por menor que seja, não está sozinho, pois é atravessado todo o tempo por mensagens constitutivas de novos vínculos sociais, mas sem a necessidade de pertencer por muito tempo a nenhum deles. Seu deslocamento em meio aos jogos de linguagem é consentido e provocado pelo sistema na intenção de melhorar seu próprio desempenho enquanto sistema.

Em resumo, Bauman, Berman e Lyotard mostraram este percurso de liquefação dos sólidos no decorrer da modernidade até nossos dias. Os lugares simbólicos (signos) não são mais duradouros, e a consequência é uma sociedade líquida onde interessa mais a troca que a continuação.

O grande movimento de liquefação vigente desde a modernidade diluiu inclusive o papel do homem na sociedade, seu lugar, seu nome, sua identidade, enfim. A solidez de um signo sob o qual se estabelecer era um atributo valioso construído ao longo de toda uma vida, passado de geração a geração e mantido com todo cuidado  CITATION BAU98 \p 38 \t  \l 1046  (BAUMAN, 1998, p. 38). No entanto, depois dos contínuos séculos de liquefação de todos os sentidos e o fim dos grandes e dos metarrelatos, a pós-modernidade então exige a fluidez também do signo-sujeito. Bauman recupera uma frase de Lao Tse, o profeta oriental do desligamento e da tranquilidade:

Flutuando como a água… você vai em frente com rapidez, jamais enfrentando a corrente nem parando o suficiente para ficar estagnado ou se grudar às margens ou às rochas – propriedades, situações ou pessoas que passam por sua vida -, nem mesmo tentando agarrar-se a suas opiniões ou visões de mundo, apenas se ligando ligeiramente, mas com inteligência, a qualquer coisa que se apresente enquanto você passa e depois deixando-a ir embora graciosamente sem apegar-se  CITATION Bau07 \p 4 \t  \l 1046  (BAUMAN, 2007, p. 4).

Bauman aponta duas lições importantes que o homem pós-moderno necessita aprender com urgência e nunca esquecer. 1ª: os dias valem tanto quanto – e somente – a satisfação que cada um deles dá. A recompensa é um hoje diferente, e não um amanhã melhor. O futuro está além do seu alcance e as preocupações a longo prazo são para os crédulos. 2ª: mantenha seus engajamentos sempre superficiais, pois lealdades e compromissos possuem datas de ‘vencimento’, e mantê-los por muito tempo pode ser perigoso  CITATION BAU05 \p 132 \t  \l 1046  (BAUMAN, 2005, p. 132).

O estranho mecanismo que conserva a perenidade do movimento e diluição dos signos está para o nível dos anseios humanos mais básicos: ontológicos e psicológicos. Segundo Bauman, na pós-modernidade líquida estes desejos estão mais em evidência que em qualquer outro instante da história. A satisfação dos desejos suprimiu o desejo por segurança  CITATION BAU98 \p 8 \t  \l 1046  (BAUMAN, 1998, p. 8), e a antiga renuncia aos instintos – sob o signo da ordem e da moral da civilização  CITATION FRE74 \p 58 \l 1046  (FREUD, 1974, p. 58) é agora vertida em ética hedonista, e a liberdade é seu pressuposto: estar livre dos antigos grilhões para ascender à satisfação dos desejos.

Esta promessa de satisfação, todavia, só pode persistir atraente se o desejo continuar sempre irrealizado. Assim, apesar das infinitas cartas de crédito, o mercado evita estabelecer alvos fáceis simplesmente tornando permanente a insatisfação. Depreciam e desvalorizam os signos de consumo (produtos, lazer, conhecimentos e outros) logo depois de terem sido alçados ao universo dos desejos do consumidor, ou ainda proporcionam satisfações que geram outras necessidades  CITATION Bau07 \p 107 \t  \l 1046  (BAUMAN, 2007, p. 107).

Prefigura-se aqui a importante relação do homem com os objetos do mundo: um movimento senão dialético, diluído um no outro, pois que a obsolescência da imagem que se faz sobre um sujeito depende em grande parte dos objetos com o qual este se relaciona, movimento este que atua na rápida obsolescência dos produtos por uma sociedade que necessita estar sempre renovada.

“Com vergonha de seu celular? Será que este é tão velho que você fica envergonhado ao atender uma chamada? Faça um upgrade para um aparelho do qual você possa se orgulhar.” O lado negativo da ordem de “fazer um upgrade” para um celular “consumidoristicamente correto” é, com certeza, a exigência de não voltar a ser visto portando aquele para o qual você fez um upgrade da última vez  CITATION Bau07 \p 17 \t  \l 1046  (BAUMAN, 2007, p. 17).

A soma destes eventos acaba por dar à sociedade pós-moderna um caráter estritamente de consumo. O consumo torna-se a medida de uma vida bem sucedida, da felicidade e mesmo da decência humana  CITATION BAU98 \p 56 \t  \l 1046  (BAUMAN, 1998, p. 56), ao que Bauman cita Althusser sobre uma ideologia pós-moderna do consumo: “uma sociedade que […] ‘interpela’ seus membros basicamente, ou talvez até exclusivamente, como consumidores”  CITATION Bau07 \p 109 \t  \l 1046  (BAUMAN, 2007, p. 109).

Totalmente imerso numa sociedade de consumo, o próprio sujeito-signo converte-se em mercadoria, e para tanto será necessário igualmente estar atualizado e modernizado. O ideal é que ele seja um empregado/mercadoria “antigo, mas novinho em folha”  CITATION BAU05 \p 105 \t  \l 1046  (BAUMAN, 2005, p. 105), com todo o conhecimento necessário mas com a garra e a expressão facial de um recém contratado. O sujeito-signo é estimulado/coagido a promover uma mercadoria atraente e desejável: ele mesmo. E para isso faz ele o máximo esforço para aumentar seu próprio valor de mercado, sendo ele ao mesmo tempo produto e seu próprio promotor de marketing  CITATION BAU08 \p 13 \t  \l 1046  (BAUMAN, 2008, p. 13).

Concluindo, fica nítida a implicação de um sistema de signos noutro: os movimentos dialeticamente construídos entre o sujeito-signo e o objeto-signo na sociedade. Os movimentos caóticos de liquefação dos signos sólidos pré-modernos conduziram a sociedade à mais intensa individualização, como vimos em Bauman e Lyotard. Não existe mais a noção de grupo, mas de grupos pelos quais caminho, e caminho sozinho e em liberdade absoluta. Intensificou-se a competição pela eficácia de cada sujeito, cada qual um pequeno relato em busca de legitimação  CITATION LYO93 \p 28 \t  \l 1046  (LYOTARD, 1993, p. 28). No entanto esta liberdade, na sociedade do consumo, foi alcançada elevando a rivalidade inter-individual acima mesmo da riqueza e do poder, transformando estes em símbolos. No mundo do consumo a posse de bens é apenas um dos benefícios perigosos da competição. A luta é primeiro por símbolos e pelas diferenças e distinções que eles representam: estes sim, recursos inesgotáveis  CITATION BAU89 \p 94 \t  \l 1046  (BAUMAN, 1989, p. 94). Portanto, não podemos falar de obsolescência dos produtos sem falar de obsolescência dos sujeitos.

A capacidade de durar não joga mais a favor das coisas. Dos objetos e dos laços, exige-se apenas que sirvam durante algum tempo e que possam ser destruídos ou descartados de alguma forma quando se tornarem obsoletos – o que acontecerá forçosamente. Assim, é preciso evitar a posse de bens, em particular daqueles que duram muito e que não são descartáveis com facilidade. O consumismo de hoje não consiste em acumular objetos, mas em seu gozo descartável  CITATION BAU10 \p 42 \t  \l 1046  (BAUMAN, 2010, p. 42).

A consequência para o sujeito é uma crônica falta de recursos com os quais possa construir uma identidade verdadeiramente sólida e duradoura  CITATION BAU98 \p 38 \t  \l 1046  (BAUMAN, 1998, p. 38), ou ainda a obrigatoriedade de livrar-se de qualquer identidade duradoura. Nas mais diversas ciências antropológicas se veriam muitas consequências negativas desta incapacidade do sujeito em legitimar uma identidade. Em Sartre, como se viu anteriormente, o homem nada é e muito se angustia por isso. Deseja ele, portanto, com todas suas forças, ser algo. Contudo, numa sociedade intensamente fluida, a angústia ontológica de nada ser é menos sanada, o que se refletirá em seus projetos na vida. O desejo pelo máximo de estabilização de um sentido – estabilização utópica – é ontológico, para Sartre, pois que deseja ser pleno e estanque, como um deus consciente mas sem falta alguma (SARTRE, 1997, p. XXX).

O OBJETO-SIGNO EM LIQUEFAÇÃO – A OBSOLESCÊNCIA E O CONSUMISMO

O objeto: esse figurante humilde e receptivo, essa espécie de escravo psicológico e de confidente, tal e como foi vivido no cotidiano tradicional e ilustrado por toda a arte ocidental até nossos dias, esse objeto foi o reflexo de uma ordem total ligada a uma concepção bem definida da decoração e da perspectiva, da substância e da forma. Conforme esta concepção, a forma é uma fronteira absoluta entre o interior e o exterior. É um continente fixo, e o exterior é substância. Os objetos possuem, assim, alem de sua função prática, uma função primordial de recipiente, de vaso do imaginário (BAUDRILLARD, 1979, p.27).

Este parágrafo da obra “O sistema dos objetos”, de Jean Baudrillard, faz coro com os conceitos apresentados anteriormente na teoria Sartreana das relações do homem com os objetos. Todo objeto se constituirá signo se lhe for atribuído uma função, logo, um nome, como veremos adiante. Contudo todo objeto tem a potencialidade de carregar outro tipo de significação, qual seja, a da afinidade, um “vaso do imaginário”, nas palavras do autor supracitado. No entanto, percorramos todo o trajeto proposto por este pensador na tentativa de compreendermos com mais profundidade a forma com que um objeto pode ser dotado de significação, e como tal significação sofre alterações significativas numa modernidade líquida, causando não somente sua obsolescência material, mas também uma obsolescência ‘sígnica’, uma fluidez de todos os sentidos.

Baudrillard inicia descrevendo o complexo universo dos objetos nesta sociedade de hiperprodução e hiper-renovação. Para falar de uma linguagem com sentidos conotativos relacionados aos produtos, Baudrillard usa como exemplo o mobiliário de uma casa (Idem, p.13). Ele contrapõe o sentido denotativo de um móvel, ou seja, sua “função”, com seu sentido conotativo, este que carrega significados mais individuais e de cunho mais psicanalítico. Uma mesa pode ter um sentido conotativo muito mais amplo se for, por exemplo, uma herança de terceira geração na qual se tenha passado toda uma infância, muitas ceias e momentos importantes, para o bem ou para o mal. Na família tradicional todo o ambiente é um organismo vivo, e sua estrutura é a relação familiar. A simples composição dos móveis constitui também a relação entre os membros daquela família e a preocupação, portanto, não será de um ordenamento objetivo dos móveis e objetos, pois que estes tem como função primeiramente personificar as relações humanas, seus conceitos morais e afetivos (Idem, p.14).

Assim, resgatando os conceitos de Sartre de dupla significação, estes móveis na residência tradicional possuíam significados semelhantes aos de seus proprietários: figurar numa esfera moral, justamente onde devem e podem significar. Conforme afirma Baudrillard, possuíam tão pouca autonomia neste espaço mobiliário quanto os diversos membros da família possuíam na sociedade. Ademais, seres e objetos estavam ligados numa cumplicidade densa, um valor afetivo que este autor chama de “presença” (Idem, p.14). Há, nesta residência tradicional, um antagonismo entre interior e exterior que faz trabalhar todo um sentido de interioridade familiar: entrar no interior de sua própria casa é entrar no seio de sua família. Os móveis, a divisão dos cômodos, os objetos de enfeite e os de uso, todos assumem certa antropomorfia e encarnam no espaço os laços afetivos, certo censo de permanência no grupo (Idem, p.14-15). Fica nítido, portanto, o aparecimento de três tipos de constituição de significados sobre um objeto:

·         O signo denotativo, ou signo-uso, que ordena e atribui função aos objetos, além de lhes dar nomes.

·         O signo conotativo, ou signo-presença, da ordem dos sentimentos atribuídos, das relações psicológicas e ontológicas.

No entanto Baudrillard apresenta os mesmos movimentos de liquefação, estes que diluíram os grandes signos desde a modernidade, trabalhando na transformação da relação homem/objeto. As relações do homem com sua família mudaram, assim mudam o estilo e as relações do homem com seus objetos: suas significações também se transformam e trabalham na transformação da relação familiar, que transformam as relações sociais, as relações religiosas e as relações consigo mesmo: uma rede de interdependências.

Baudrillard alerta que as mudanças destas relações não se dão de maneira improvisada e espontânea: são adaptações a novas necessidades. A cama converte-se sofá-cama, a mesa se dobra e comporta menos pessoas, os automóveis ficam menores e também seus motores mais leves e econômicos. Todas estas transformações são adaptações forçadas à falta de espaço, à economia de tempo e de combustível: as dificuldades financeiras é que inventam e faz adaptar, e transformam, por sua vez, uma rede enorme de relações dotadas de significações (Idem, p. 15). Se a grande e herdada mesa de jantar era carregada de significações morais e afetivas, os interiores modernos agora se atentam à funcionalidade máxima por conta de novas necessidades, e esta nova organização faz com que a afetividade familiar dê lugar a uma mesa desprovida de capacidade de significar além de sua função: não há mal algum em passar por nossas vidas mais de cinco mesas. Se as necessidades mudam, os objetos devem mudar para suprir esta nova realidade, e como mudam com muita frequência, as relações afetivas, relativas à durabilidade e à solidez, já não são mais capazes de atribuir signos afetivos aos objetos. E assim a desestruturação da antiga ordem simbólica não fora reposta por ordem alguma: vive em constante fluidez.

Entre o indivíduo e seus objetos agora já não há significação alguma além de seu uso prático: não exercem nenhuma sorte de constrangimento moral e liberta aos poucos o indivíduo de suas responsabilidades familiares. Encontra nesta mobilidade uma relação mais liberal, mais desapegada e passível de mudanças menos dolorosas. Uma liberação parcial, no entanto, pois que libertar-se da significação afetiva não implica libertar-se de uma nova rede de significações de uso: novas necessidades são apresentadas todos os dias e, finalmente, a dependência dos objetos aumenta. (Idem, p. 16).

A consequência disto são mesas lisas, brancas e sem ornamentos que lhe proporcionem identidade. São diferentes, mas iguais. A própria distinção de objeto para objeto por vezes se liquefaz: cama e mesa se parecem. O que foi libertado, portanto, segundo Baudrillard, foi a função do objeto: ela está agora liberada da teatralidade moral dos antigos móveis, separada dos ritos que legitimavam uma estrutura familiar repleta de significados e responsabilidades (Idem, p.16). Agora o objeto está livre para ser apenas aquilo para que serve, livre para funcionar, e o homem, por sua vez, está liberado para apenas utilizar este objeto: igualmente livre das significações que pediam constantes legitimações, cansativas sustentações de signos pesados. Sem estas relações não há mais espaço, pois que este se abre e se reaproveita, é fluido e livre: funcional, afinal (Idem, p. 17).

Já não existe a dicotomia interioridade/exterioridade, e assim o homem já não é mais nem proprietário nem usuário, mas somente um informador ativo do ambiente, um mero ‘homem de colocação’, nas palavras de Baudrillard. O homem moderno domina, controla e ordena seus objetos, mas não os consome: opera como mero técnico, e a propaganda é seu conselheiro de comunicações (Idem, p. 26), reflexos de uma liquefação de todos os signos:

…a lógica mesmo deste jogo traz consigo a imagem de uma estratégia geral das relações humanas, de um projeto humano, de um modus vivendi da era técnica; verdadeiro câmbio da civilização cujos aspectos se podem observar inclusive na vida cotidiana (Idem, p.27).

Para analisar o que Baudrillard chama de conotação técnica precisaremos nos atentar para o conceito de automatismo, conceito capital do triunfo da mecânica, um certo ideal mitológico do objeto moderno. O automatismo é a causa de uma nova transformação, dentre tantas, na relação homem objeto de nossa sociedade pós-moderna. Porque “anda sozinho”, o objeto automatizado impõe certa semelhança com o ser humano e o fascina. Estamos diante, pois, de um novo antropomorfismo (Idem, p. 128), depois de morto o antropomorfismo da sociedade tradicional (em que uma mesa passava tanto tempo comigo que já se constituía certa extensão de mim no mundo). Esta nova identificação do homem com os objetos aloca sobre ele um novo tipo de signo-presença, porém este já não está ligado ao longo período de necessário para que se constituísse uma relação desta complexidade: está mais ligado ao constante progresso e capacidade técnica de fazer parecer a máquina com o homem – vê-se o fascínio por tudo que se assemelha a uma inteligência artificial.

Em sua própria existência técnica o objeto encontra substrato para sua nova mitologia moderna: “[…] o caminho do automatismo é uma supersignificação do homem em sua essência formal e em seus desejos inconscientes” (Idem, p. 129). Sobre este conceito podemos aproximar novamente Baudrillard de Sartre, pois que para o existencialista o homem busca no mundo um equivalente a si mesmo para fundamentar o nada que reside em seu âmago. Assim, quanto mais inteligentes e autônomos forem os celulares, televisores, automóveis e demais produtos, maior a própria supersignificação do homem.

Imerso nesta corrida em direção a um “si-mesmo” manifesto nos objetos, recairá ainda uma significativa característica moderna sobre os produtos: a qualidade de ‘modelos’, ou seja, de que são exemplos para a produção de uma ‘série’ de produtos iguais a ele mas depois dele, depois da sensação de novidade ter se obliterado (Idem, p.160). O mercado vende todos os objetos como ‘modelo’, e nunca como ‘série’, visto que há um intervalo significativo entre a possibilidade da aquisição de um e de outro. Todavia o que se omite é que é a ‘série’ que trabalha sobre o ‘modelo’, empurrando-o para frente: é o menos tecnológico que obriga a criação do mais tecnológico (Idem, p.163). Mas o mercado faz funcionar um jogo facilmente manipulado: todas as inovações e personalizações fazem dos produtos mais efêmeros. Limitam a duração de um produto, forçando uma nova aquisição, simplesmente sobrepondo lentamente os atuais por outros mais tecnológicos, e então tal objeto deixará de agradar e se tornará antiquado mesmo que conserve sua qualidade funcional intacta (Idem, p.164).

Os atributos técnicos de um produto podem, afinal, estarem obsoletos em relação a outro, o que incidirá fortemente na constituição do signo-presença de ambos: o novo constitui o obsoleto e o obsoleto constitui o novo. É preciso estar sempre à altura dos ‘modelos’, e não se permitir usar um produto de ‘série’. Contudo, o inadmissível seria usar um produto fora de série, fora do jogo, pois que numa lógica de dupla significação, o sujeito que usa um produto dotado de um signo obsoleto se autossignifica como obsoleto, logo, fora de série, não-modelo: fora do jogo (Idem, p.167).

DISCUSSÃO FINAL: OBSOLESCÊNCIA E CONSUMISMO

Entendendo que todos os elementos de nossa sociedade ocupam um lugar de significação, não podemos falar de obsolescência de um signo-sujeito sem falar da obsolescência do signo-objeto. A constante necessidade de renovação de um implica na renovação de outro. Todo este movimento de liquefação dos sólidos dotou nossa sociedade de uma fluidez incontrolável que rearranja todos as significações a cada instante, e importa mais constituir-se a si mesmo como uma metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo (Canção brasileira, de Raul Seixas).

Aplicando estes conceitos na temática do consumismo, percebemos que sua origem advém de épocas distantes, da revolução científica e artística do século XV, de um grande movimento de liquefação da sociedade. Certamente que esta não é a única explicação, todavia faz-se um erro olvidar destes eventos maiores que aparentemente englobam toda a modernidade. Um objeto que comigo significa, uma coexistência significante, necessitará ser constantemente trocado e renovado para que minha própria significação não permaneça estagnada, antiquada e pronta para ser descartada. O sujeito precisa ser “novo” a todo instante, e o fará através das coisas que aprende, que pensa, que compra, que veste e faz. A consequência de um instante de desatenção e atraso é ser descartado e colocado fora do jogo social pós-moderno.

Obras Citadas

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BAUDRILLARD, Jean

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DI FUSCO, Renato

1969 (con M. E. Scaivini) «Significami e significati nella rotondo palladiana», en Op. Cit. , núm. 16.

KOENIG. Giovanni K.

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