A JANELA QUEBRADA

CONTO: A janela quebrada

João Flávio de Almeida

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_Posso entrar?

_Sim, pode – contrariou-se, Samir.

_Se preferir, volto depois – argumentou o pai.

_É que acabo de ter uma ideia, e as primeiras pinceladas me seduziram. Queria avançar um pouco o campo central da tela.

_Pois bem. Depois conversamos.

Matias, pai de Samir, era o idoso proprietário de um antiquário que dirigira durante toda sua miserável vida. Pouquíssimos clientes entravam em sua loja, e além de não conseguir bons produtos para vender, nunca gozava de preço justo em suas vendas, sendo tomado como paspalhão por todo o pequeno vilarejo. Samir já ia aos trinta e oito anos: solteiro, pintor fracassado, aliás, de pouco talento – já admitido. No entanto nada mais sabia fazer além de pintar sofrivelmente aquelas telas bonitas, bem acabadas, com boa técnica e domínio nas pinceladas e composição de cores, levemente criativo mas ligeiramente grosseiro. Por vezes sentia estar a pequenos passos de criar algo relevante, mas não sabia como transpor aquela pequena fissura que separava sua obra de uma grande obra.

Mas aquela tela seria diferente. Parecia diferente. Sentia, a cada pincelada, que algo sui generis escorria de suas mãos até a tela através das pinceladas. Por instantes fechava os olhos e o pincel parecia dirigir seus movimentos que outrora eram arrastados em diligentes cálculos. Agora eram intuitivos: a técnica se tornara transparente e a tela um espelho. Suas dúvidas foram sanadas – não por respostas, e aquela antiga e estranha sensação de aprisionamento parecia se esvair em movimentos que guiavam sua existência à eternidade.

Alta noite já se ia até a cabeira pincelada. Não mirava a tela toda havia horas, absorto e alienado no puro movimento-pintar. Estava sem ar, ofegante! Era linda, perfeita. Sua técnica não se minorou em detrimento da inspiração: aliás, alcançara uma soma perfeita de luz, sombras e composição em simetria digna com algo indizível e sublime. Ao contemplá-la perdeu ainda mais a respiração e não se conteve: chorou. E ria e chorava, e dormiu, ali mesmo.

O sol da manhã o acordou lhe dando bom dia e dores nas costas. Olhou mais uma vez para sua obra e a levou para a sala principal do antiquário. Repousou-a com cuidado sobre o mais belo dos velhos cavaletes de que dispunham e se pôs a imaginar os olhares alheios: o de seu pai, o olhar altivo da madame Chevalier e até mesmo as expressões de surpresa e admiração de seus amigos e inimigos. Comeu algo e se apressou em sentar-se estratégicamente onde pudesse ver ao mesmo tempo a tela e os olhares.

Seu pai acordou e já se deu com a loja aberta. Tomou o escovão e se pôs a limpar o chão e a espanar o pó das velharias que vendia. Colocou-se a olhar com atenção para um velho e adornado relógio de mesa que pertencera por anos à sua própria família – mas agora deveria ser vendido, por muito menos que valia, por conta da grave crise financeira que abarcava a família e todo o país. O relógio ficava à frente da grande tela de Samir, pequeno e brilhante o suficiente para impedir que o velho vendedor percebesse a obra do filho.

Samir já as mãos trêmulas e suadas pela delonga de seu pai em atinar sua espantosa e arrebatadora obra de arte.

_Não a viu?

_De que falas, homem?

_De minha tela, a que pintava ontem à noite quando entrou no ateliê, e que terminei pela madrugada.

_Ah sim. É esta?

O velho se pôs a olhá-la.

_Meu filho, ontem pela noite queria lhe dizer da necessidade de cortarmos mais alguns dispêndios familiares – e foi se virando para a direção de Samir.

_Nossos custos não estão altos, mas nossa renda cada vez menor, meu filho.

_Você não viu minha obra? – Indignado.

_Sim, sim. Eu vi. Muito bonita. – Disse abaixando os óculos.

_Talvez esta nós consigamos vender, não? – falou o velho com um pequeno e inocente sorriso de canto de boca.

_Meu pai não a compreendera! Pensou baixo. O que era justificável: ele vendia pedaços velhos de coisas duras, empoeiradas e desprovidas de sentidos além de seus usos, e usos envelhecidos. Não se abateu. Sabia que seria reconhecido sem esforço por aquele trabalho. No entanto nem a madame Chevalier, tampouco seus amigos, e nem o próprio prefeito que passara por ali naquela semana devolveu o devido valor que Samir percebia em sua obra. Já não se continha em ansiedade, desespero e já calculava o ódio.

Num instante de descontrole tomou a tesoura que usava em um embrulho e se pôs com determinação a arruinar aquela que seria, definitivamente, sua última tela. Mas não pode. Desenvolvera, ela, sobre ele, um enorme poder aliciador e hipnotizante, certa paixão sexual; se sentia nas mãos daquela sua criatura que agora lhe possuía: sentia amor e ódio por aquela belíssima obra que, ingrata, não lhe correspondia com carinho, mas com dor. Seu coração doía como quando Rute rompeu com ele o noivado.

Não demorou muito e aquela tela saiu da sala principal do antiquário e foi parar junto com as demais telas insossas de Samir, num cavalete comum e até feio, sem moldura nem iluminação individual. E lá permaneceu durante anos, não poucos, alimentando, secretamente, aquele mesmo amor e ódio em seu criador que aos poucos o enlouquecia de desgosto.

Óbviamente que histórias como estas sofrem viravoltas. E eis uma singular. Certo homem, um pescador de meia idade conhecido apenas por Pereira, se aventurou na sala secundária do antiquário enquanto esperava o já bem idoso Matias separar algumas peças usadas que acabara de comprar. Dentre as belas e insípidas pinturas que ali havia se defrontou com ela, a Janela – título que Samir lhe colocou. Curiosamente o pescador não a achou bonita, não percebeu suas características estilísticas nem poéticas. Estranhamente viu ele, naquela pintura, um mapa.

_Esta pintura é sua?

_De meu filho. Quer levá-la também?

_Não, não. Se importa de me arrumar um lapis e um pequeno pedaço de papel?

O homem se pôs a desenhar de forma grosseira o mapa que vira, fez mais algumas anotações e guardou o pedaço de papel no bolso.

Algumas semanas depois chegou até Samir a notícia de que um pescador havia encontrado um velho tesouro enterrado nas proximidades da bacia do rio, terra de ninguém. O tesouro era todo dele, o pescador que comprou dezenas de barcos e nunca mais pôs as mãos em peixes – e nem lhes tocou o paladar, jurando que nunca entraria um peixe em sua nova mansão no centro da cidadela.

Certo dia se encontraram.

_Como, pois, desenhaste o mapa, e nunca fora procurar pelo tesouro?

_Senhor, não há mapa algum naquela pintura.

_Pois eu vi claramente um mapa. E seu tesouro era real, meu bom amigo.

Samir não podia compreender. Como poderia aquela tela, aquela que tanto amava e que nunca lhe devolvera sequer um cisco de gratidão e alegria, mostrar a um desconhecido tamanho tesouro? Culpava a tela, sim, pois sabia que dele é que não havia escapado aquele tal mapa.

Contudo esta história não se encerra aqui. Passado o susto e a raiva sobre o mapa, certo dia se colocou à frente daquela tela um jovem viajante bem vestido, com um terno preto e sapatos brancos. Este se delongou consideravelmente frente à Janela, o que chamou a atenção de Samir. Quando tentou interrogar sobre o interesse do viajante sobre a tela lhe fora pedido silencio e mais alguns minutos. Depois de mais dois terços de hora o já descabelado e atônito viageiro chamou o pintor:

_Você, meu bom homem, pintou algo maravilhoso, aqui.

_Obrigado. Fico feliz que tenha gostado – a esta altura já esperava vender o quadro, por conta de comida.

_Este conceito é muito rico, senhor. Quais autores o senhor lê?

_Como?

_Sim, quais são suas referências?

_Só estudo – estudava – pintura renascentista. Nada mais.

_Mas o senhor colocou aqui o elo que falta à atual teoria do Édipo, meu bom pintor. Não pode ter simplesmente deduzido tais conceitos!

_Senhor, eu não sei do que falas.

_Não sabe?

O jovem se colocou novamente a olhar profundamente aquela pintura.

_Vai comprá-la?

_Não, não. Obrigado. Aliás, passa da minha hora, e preciso ainda fazer minhas malas para o trem das vinte horas. Muito obrigado pela atenção.

Olhou mais uma vez de forma delongada e intrigante para a tela e se foi sem despedir.

Não. Não estou fabulando, sequer avultando. Alguns meses depois Samir encontrou um jornal que aclamava um jovem que havia proposto uma nova forma de pensar a consciência humana e criara uma técnica que ajudava homens e mulheres a lidarem melhor com eles mesmos. E se deu que no fim da entrevista o brilhante jovem até citou uma pintura, vista num pequeno vilarejo do interior, que lhe deu as respostas que faltavam à sua teoria.

Amargura. Samir se defrontava com a Janela por horas, intrigado, cético. Já perdera pela tela aquela antiga paixão, contudo não conseguia parar de nela pensar, dia e noite, angustiado. Seus passos eram pesarosos, e seus sorrisos escassos.

E de fato outras estranhesas aconteceram naquela sala secundária do antiquário. Outro homem disse que via, naquela tela, duas pessoas conversando à distância através de algum aparelho ligado por fios. Uma senhora com graves problemas mentais certa vez saiu dali curada, depois de alguns minutos à frente daquela mesma tela. E um menino, ao contrário, enlouqueceu-se quando lhe tocou os olhos. Ah, e teve o caso também do vereador que viu na tela sua esposa em ato de traição, e ao inquiri-la, confessou-lhe ela um ocorrido semelhante ao retratado na tela. Quando ela mesma foi conferir seu ato retratado, questionou Samir:

_Como você me viu naquele dia? Não havia maneira! Onde se escondia? E saiu chorando.

Samir morreu pobre, aos sessenta e nove anos. Sua criatura não. Apesar de anônima e insignificante, ela continua viva na parede de uma senhora que a ganhou do neto de Samir. Ela fica ao lado de uma samambaia cubista de pinceladas deveras grosseiras. Diz-se que certa vez o filho de uma empregada que trabalhava naquela casa viu, naquela mesma Janela, uma menina num céu de diamantes.

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One Comment Add yours

  1. Tan diz:

    Esqueça da nossa certidão de casamento. Esqueça do meu sentimento por você. Olha pra Tanyse Galon te dizendo: conto do caraaall…………..você me entendeu (desculpe a expressão).

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