A LINGUA E O RIO

FRAGMENTO DE DISSERTAÇÃO DE MESTRADO

 

TÊXTIL

A água em superfície

desce

tecendo um manto

que, em tocas e limos,

acetina-se num brilho híbrido.

 

Os pés que quebram o fluxo

amaciam a hidrotextura;

e os galhos

e toda gente

parecem bordar com talento

uma frase fértil e ilegível.

 

LUIZ FRAZON

 

lingua-rio3

A linguagem é uma das mais impressionantes criações da humanidade; não deveria ser diminuída a simples sistema, como se motor de automóvel. O poema acima convém como uma belíssima metáfora para entendermos a linguagem fazendo sentido, segundo a Análise do Discurso Francesa. Tomemos a imagem proposta para maiores reflexões:

lingua-rio2

Tal como o curso de um rio, a língua não é pura liberdade: possui margens que definem o rio como rio: lhe dá forma e certa possibilidade de compreensão. Sem as margens que lhe condicionam o rio não seria rio, mas uma porção de água disforme e incompreensível. No entanto a água não segue um movimento estabilizado: está em constante inquietação dentro das margens do rio, em choque com pedras, galhos, e toda sorte de objetos que se lhe apresente no caminho. A água dança, se agita, canta e cria em seu movimento. Ela brilha à luz do sol e da lua, e tanta vida surge exatamente deste movimento: a língua é rio, e não lagoa. Os peixes e os pescadores vivem dele: a vida que dele emana se expande para além-rio: o rio é pura criatividade entre margens! A margem, por sua vez, não é estanque: é repleta de furos. Um pequeno feixe de água pode dali formar um novo rio, escapar, procurar um novo percurso, e finalmente repousar seu curso em novas margens. Aqui cabe a distinção condicionamento/determinação: o rio é condicionado por suas margens, e não determinado. Estes poros na beira rio são possibilidades para que novos rios floresçam e levem vida a outros campos áridos e distantes.

Pergunto: o que é o rio? O rio não é somente a água, mas a soma de nascente, água em movimento, margens, pedras pelo caminho, a vida que dele emerge, as árvores que lhe sombreiam, pescadores em suas canoas, as famílias que dele se alimentam, e finalmente um oceano onde se oferecer. O sentido de rio é maior que água.

Assim, para Pêcheux o sentido de um enunciado não brota do seio do próprio texto, mas sim de um complexo universo que circunda o sujeito e o discurso. Portanto, a Análise do Discurso Francesa (doravante chamada de AD, nesta dissertação) se interessa por tudo que cinge sujeito e texto, o máximo de informações que estiverem ao alcance do analista na tarefa exploratória em busca de um sentido que, afinal, se apresentará sempre em movimento. No entanto este “tudo” é demasiado amplo e abstrato, o que já não interessa à AD, e, portanto, se faz necessário erigir um método de análise que busque as regularidades das formações discursivas que incidem sobre aquele discurso.

Aliás, que é discurso? Discurso tem que vem com ‘curso’, percurso, movimento, correr por…, logo, o discurso para Pêcheux é a palavra em movimento, prática da linguagem, o instante em que o homem entra em contato com a língua (ORLANDI, 2005a, p. 15). É neste breve instante, tão breve quanto o piscar de olhos que nasce, vive e morre o sentido. Assim, a AD procura entender a língua fazendo sentido, um complexo movimento que envolve o trabalho simbólico, o trabalho social e a constituição do sujeito, tudo isto a partir da historicidade e da ideologia que circunscreve esta relação (ORLANDI, 2001, p. 23). Para a AD não importa a língua como um sistema abstrato e meramente ideal: importa a língua no mundo material, suas maneiras de significar e produzir sentidos enquanto parte real da vida do homem e de suas relações em efeitos de sentidos.

[…] nos faz preferir aqui o termo discurso, que implica que não se trata necessariamente de uma transmissão de informação entre A e B, mas, de modo mais geral, de um efeito de sentidos entre os pontos A e B (PÊCHEUX & FUCHS, 1997, p. 82).

Assim se dá com o rio da linguagem. Ele brinca e cria a todo instante enquanto segue seu caminho, e não podemos concebê-lo como mera porção de água, mas sim como relação entre vários personagens que o compõem, efeito de sentidos. Logo, mais importante do que saber o que é a água, importa saber o “como”, como o rio produz tanta vida. Importa menos “o que o texto quer dizer”; importa “como o texto significa” (ORLANDI, 2005a, p. 16).

Todos os personagens na imagem do rio são importantes, e compõem, juntos, o quadro final. Assim diluímos a dicotomia emissor/receptor, pois que ambos são, a todo instante, ativos e passivos no processo de significação (ORLANDI, 2005a, p. 17). O pescador só é pescador por causa do rio e de seus peixes, logo, o peixe é tão ativo quanto o próprio indivíduo na constituição do “sujeito pescador”. O sujeito fala a partir de um lugar que é condicionado pela relação com o outro, o que predispõe a entendermos como “discurso” o que se pensava antes como “mensagem”, pois que o discurso é esta complexa rede de atores atuando na constituição de sujeitos e de sentidos, e não mera transmissão de sentidos (ORLANDI, 2001, p. 130). O rio não é somente movimento de levar água da nascente até o oceano, é um importante movimento de constituição e criação: margens, peixes, pescadores e outros são constituídos neste movimento.

Por baixo da superfície do rio há uma infinidade de movimentos e de vida que não se vê, que é justamente de onde o pescador faz emergir sobressaltos que alteram a relação homem/rio, ou seja, a língua, em seu movimento, comunica e silencia a todo instante, contudo não de forma dialética, mas concomitante (ORLANDI, 2005a, p. 18). Por vezes algum pescador revolve a lógica e retira vida daquilo que está oculto: o rio, por mais calmo que aparente ser, é cheio de surpresas.

Assim é o rio: um grande cenário em movimento do qual muitas constituições e sentidos emanam. Interessa-nos, portanto, desvelarmos um pouco deste movimento, de suas regularidades e possibilidades de apreensão, bem como aquilo que é constitutivamente ambíguo e passível de falhas. Convido-o a um mergulho neste quadro pintado pela poesia, mas não de forma imaginária: o rio da língua é tátil, e podemos mergulhar nele numa experiência real. Com atenção e esmero, veremos nele a mesma beleza do rio de águas turvas que, espero, tenhas provado muitas vezes com seus pés e mãos.

 

Obras Citadas

ORLANDI, E. (2001). Discurso e texto: formulação e circulação dos sentidos. Campinas: Pontes.

ORLANDI, E. (2005a). Análise de Discuro: princípios e procedimentos. Campinas: Pontes.

PÊCHEUX, M., & FUCHS, C. (1997). Por uma analise automatica do discurso: uma introdução a obra de Michel Pecheux / Organizadores Francaise Gadet; Tony Hak; (3ª ed.). (B. S. al.], Trad.) Campinas: Editora da UNICAMP.

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