A RODA D’ÁGUA

Conto – João Flávio de Almeida

A RODA D’ÁGUA

_No nada.

Dizem, nalguns corredores doutos, que a probabilidade de que surja a vida a partir de uma soma contingente de átomos é praticamente nula. Ainda mais, quase asneira, é idear o surgimento de uma consciência pensante nesta tal soma caótica de coisinhas diminutas, destas que só os inteligentes veem; as mesmas coisinhas presentes, por exemplo, numa roda d’água.

E não é? Sem razão alguma, talvez um erro, brotara nela, simples roda d’água, consciência. Absurdo? Não maior que estes seus olhos ledores sobre esta página. Não me questione de onde, nem o como; sei apenas que tal roda questionou-se a si mesma agora a pouco, quando puseste tu a pensar sobre ela. Pobre; reconheceu a vida, mas sem saber nada sobre ela. Herdou, das dúvidas de teu olhar, sua própria dúvida: herdou, portanto, nada.

Ou tudo?

_Para onde me levam? Que são estas partes cravadas em mim?

Seus questionamentos, em milésimos de segundos, percorreram todo o cosmo. Plantas, animais, flores e rios. Países, algumas bibliotecas, programas de televisão, pai e mãe. Mas não eram dela tais lembranças: ela mesma sentia que jamais havia percebido algo.

_Ei, você, que me olha. Você! Fale comigo!

Diga-me algo!

Você pode me ouvir?

Ou, porventura, serei eu incapaz de te ouvir?

 

Podes dar-me um sinal de que estás me ouvindo? De que não estou falando sozinha?

 

Posso sentir seu olhar sobre mim, mas não o sei: se vem de mim mesmo ou de você, ai, em cima.

É você quem me dá vida?

 

Qual seu nome? Por favor, me conte!

 

 

Diga-me algo!

Ao menos tente: fale-me algo, talvez eu o ouça!

Tens medo de tentar? Parecerá ridículo aos olhos de alguém ao teu lado?

 

 

Tente!

 

Estou só?

Talvez isto não seja uma pergunta.

Afinal, mesmo que me confiras vida neste momento, tu, mesmo, não podes falar comigo. Ou não o quer.

 

A mim gostaria saber quem sou. O que sou?

Você deve saber o que sou.

 

O que sei de mim?

O que sei de mim é que me deram o nome de roda d’água. Mal sei o que é uma roda d’água. Não sei o que significa. Levam-me agora para algo a que chamam rio. Também não sei o que é este tal

rio.

Não desejo o rio. Tampouco aspiro ser roda d’água. A ninguém se deu perguntar-me minhas inclinações?

E porque insisto eu em falar contigo?

Não me respondes!

Apenas fitas-me, inerte, vendo tudo se passar.

 

Sua curiosidade indiferente me enoja.

 

Podes interferir nestas páginas? Suponho que não. Apenas me vê, ou mais, me atina.

Podes salvar-me de tão dramático destino?

 

Renúncia! Não volverei a me dirigir a você. Falarei sozinha.

E espero, verdadeiramente, que não ouças.

E se me ouvir desejo que sofras justamente por nada poder me dizer. Ensejo que padeças quando quiser dar-me uma palavra e não o puder.

Sim. Espero que também sofras o silêncio de sua leitura enquanto grito cá de baixo, da superfície plano-branca, que nada sendo nada, tudo pode ser: dúvida para a morte e para a vida. Dúvida cinza.

 

E assim a roda d’água foi conduzida até o rio. Impotente, pranteava enquanto fixavam-na num mancal de metal que se estendia até o moinho. Marteladas impiedosas definiam seu destino, o que lhe causava certo lenitivo doloroso que sentia em imperativo rechaçar. Em meio a movimentos bruscos, solavancos e viravoltas – movimentos diluídos em medo e esperança, a roda d’água divisava um aglomerado de árvores, animais e algo que pressentia ser o rio. Enquanto era manejada impiedosamente por seus construtores, em meio a gritos surdos e confusos, a roda de madeira era inserida na água. Entre um tranco e outro lhe era permitido ver o céu em nuvens calmas, outro solavanco e podia ouvir o cantarolar dos pássaros em harmonia com o som das árvores. Outro movimento brusco e enfim se deparou com as águas fleumas do rio. O reflexo do sol se lhe devolvia um brilho inebriante enquanto suas águas cantavam uma canção invulgar e arrebatadora.

_Mas que é isto?

Que sensação é esta?

É maravilhosa!

A água! É maravilhosa e sublime

a água!

A luz que dela reflete me extasia.

Seu encanto exerce sobre mim uma força irreprimível!

Que sentimento é este?

 A água se lhe visitava tão linda! Tão atraente e imponente! A água, cristalina, em movimento e canto, seduzia a simples roda de madeira, que já nos primeiros instantes se ofereceu refém. Sentia uma forte atração, terrível, que lhe tomava de assalto e plenitude.

_Eu a quero para mim.

Quero a

       água, para mim; em mim.

Lançar-me-ei sobre a água-movimento e a tomarei para mim.

Oh sim. Perfeição! Estas cavidades que me constituem parecem terem sido justamente instaladas para que pudesse eu tomar a água para mim.

Eis o que sou!

Enfim!

Uma detentora de água!

Segurarei para mim toda a água do rio.

Felicidade! Nada mais importa! Satisfar-me-ei eternamente retendo em mim toda esta água que vem ao meu encontro.

 A roda de madeira lançou-se então sobre o rio. Escrava de seu brilho tentava ela subjugar em si o movimento da corrente d’água. Almejava reter, através do rio, cada árvore, pássaro, brisa, flor, borboleta e vida que margeavam o curso d’água. Projetou-se à frente, lançando-se inebriada naquele curto abismo infinito.

Mal terminada sua primeira volta, o sobressalto aterrador! As mesmas cavidades que pareciam perfeitas para reter, libertavam a água ainda com maior simplicidade e aptidão: oh dissabor! Agrura maior que cada prego cravado em seu corpo. Uma martelada súbita, terrífica e fatal bem no seio de seu ser.

_O que está acontecendo?

Não pode ser.

Por que me escapas?

Não pode ser!

Não é possível!

É preciso fazer algo!

Lançar-me-ei novamente sobre o rio. Provavelmente eu apenas não tenha compreendido tal fazer corretamente.

Sei que fui criada para reter água!

Bastará diligência. Ei de apreender o saber para apreender!

Pobre roda d’água. Em desespero lançava-se novamente e novamente sobre o rio tentando segurar para si a encantadora água. Seus claros sentimentos turvaram-se mais que as águas do rio, contudo emitiam estes os mesmos feixes luminosos que embelezavam a torrente: cada salto sobre o rio era carregado de novos planos e expectativas, além de um crescente medo de sentir medo.

Vez ou outra se permitia olhar, brevemente, para a paisagem ao redor. Havia, logo acima no rio, uma pequena cascata de água formada por três degraus de pedras brancas e grandes. As pedras ao centro eram totalmente brancas, mas as circundantes possuíam pequenas manchinhas marrons. Acima da cascata apareciam duas mangueiras que formavam um perfeito arco sobre o curso do rio. No verão muitas mangas caiam ao chão, outras eram aproveitadas pelas arapongas ainda nos galhos fartos, e muitas delas caíam nas águas, produzindo engraçados sons que lhe roubavam a atenção por um pouco de tempo, apanhando o olhar compenetrado sempre dirigido às águas do rio. Logo abaixo havia uma bacia d’água, rodeada também por pedras brancas com manchas marrons onde crianças e jovens se punham a pular e gritar em alegria. Quando assim, também se permitia tirar rapidamente os olhos da água, atraída pelos sorrisos e paixões que testemunhava silente.

Foi-se tarde e manhã o primeiro dia. Contudo, na manhã seguinte:

_Vi em sonhos uma imagem! E se retivesse eu, para mim, a água do rio?

Sim. Lançar-me-ei sobre suas correntes, e tomarei para mim toda a água do rio. Será minha.

Mas o que há de errado? Porque me escapas, oh magnífica água?

Que fiz de errado?

 Pôs-se a roda a estudar e ordenar os pensamentos. Dia após dia, por várias luas, considerava os saberes da floresta buscando resposta à sua terrível pergunta. Chegou, inclusive, a tomar gosto pelo estudo em si, mas logo sua sede de rio lhe arrastou bruscamente ao chão duro da água: faltava-lhe o ar.

_Talvez esteja eu sendo uma má roda d’água, pecadora.

Oh, sim. Talvez eu não mereça a água.

Aquele que me olha e me dá vida, provavelmente seja ele quem não me permita deter para mim a água.

Se ao menos soubesse sua vontade! Poderia agradá-lo, então ele falaria comigo e me permitiria reter para mim a água do rio.

E no dia seguinte:

_Oh que bela a água do rio! E se eu a retivesse para mim?

Sim. Lançar-me-ei sobre suas correntes, e tomarei para mim toda a água do rio. Certamente será minha.

Fui feita, certamente, para segurar em mim toda a água do rio.

Mas o que há de errado? Porque me escapas?

Que há de errado?

 

Não consigo segurar a água em mim?

 

Provavelmente me falta o saber necessário.

Sim. Ei de encontra-lo.

E lia, a roda d’água, as palavras do rio, do vento e das árvores. Lia e mergulhava. Lia, e se frustrava. Tentou equações gigantescas acerca da origem de tudo. Tentou até esquecer você, que a vê ai de cima: tentava e mergulhava. Lia, e não retinha. Experimentava e recuava. Com o tempo, sua diligência já não era assim pressentida. Não mais divisava seu projeto como certa honraria ou encanto. Era, ao contrário, um movimento quase involuntário, imprudente e maquinal: inseguro, mas confiante; hesitantemente presunçoso, de uma animalidade calculada, mas descompassada: absurdo lançar-se no breve-infinito cismo que separava a roda de madeira da água. E assim:

_Oh que bela a água do rio! Gostar-me-ia de reter para mim toda esta água.

Oh sim. Lançar-me-ei sobre suas correntes, e tomarei para mim toda a água do rio.

Fui feita, seguramente, para segurar em mim a água do rio.

Mas o que há de errado? Porque me escapas?

Que há de errado?

 

Não consigo segurar a água em mim?

 

Talvez devesse eu tentar ajudar e ouvir outras rodas d’água. Juntas, conseguiríamos reter a água em nós. Sim.

Poderíamos dividir a água. Um pouco dela, em mim, já me bastaria.

Trocaríamos experiências, saberes e com o tempo, todas nos satisfaríamos cada qual com sua porção de água.

E se pôs a pedir às arapongas que, à marteladas, levassem mensagens às outras rodas d’água, angustiadas como ela. Missivas iam e vinham: vagarosas, pois entre uma roda e outra corriam centenas de quilômetros. Como revides voltavam pareceres, tentames, saberes, crendices, mandingas e até algumas anedotas para relaxar. As arapongas, pobrezinhas, voavam e voavam por vezes cansadas, recontavam às outras as mensagens que deveriam ser entregues, o que evidentemente corrompia os dizeres sinceros. E no dia seguinte:

 _Oh que bela a água do rio! Eu a desejo: desejo em mim, para mim. Oh sim. Lançar-me-ei sobre suas correntes, e tomarei para mim a água do rio.

Para isto fui feita, seguramente: para segurar em mim a água do rio.

Mas o que há de errado? Porque não consigo?

 

Oh não! O que é isto preso em mim?

Que é esta coisa verde, engalfinhada em mim? Solte-se de mim!

 

Que é isto? É horrível e repugnante.

Você, caro leitor, já o deve saber. As primeiras manchas de musgo se formaram na roda d’água. E depois da primeira não houve descanso.

_O que mais te enoja? Tu que me vê ai de cima: que te dá asco?

Algum animal, talvez um inseto? Muita repugnância?

A mim me dá náuseas este verde e terrível musgo, grudado, em mim, todo o tempo.

Sua contextura nauseante me distrai a atenção, me logra e baralha quando em busca da água em mim.

Sim, tristemente: ano após ano, e uma e outra e muitas manchas de musgo, lentas e maculadas. A água, que não conseguira reter, ao contrário: levava dela sua aurora e encanto, deixando marcas de musgos e imundices que impregnadas marcavam épocas. Avançada em dias, cansada, continuava ela na mesma medida mergulhando-se, incontrolavelmente, sobre a água do rio, dia após dia, tentando reter para si a água do rio.

Lembrava-se dos verões e dos invernos, das mangas e das arapongas, das rodas amigas e outras opoentes. Olhava para o rio e percebia que a água que estava por vir era da mesma natureza daquela que havia ido, e de que nada lhe serviam: o que tinha, por brevíssimo instante, era aquela água sob si, só ela, a mesma que passava tão rapidamente como o silvo do vento que corria por entre as árvores. O rio se foi, e muito dele ainda estava por vir. Mas começava a entender que nada daquilo lhe pertencia, somente aquelas manchas verdes de musgo, que odiava.

_Que foi tudo isto? Passou!

E o que é que passou? Tudo. Tudo passou, e voltou ao nada.

 

No nada.

 

E agora vejo palidamente onde estou. Este lugar lindo, fantasioso, aconchegante e assustador: este lugar que passou e vai passar e nada ficar. Este lugar. Vermelho, azul, verde: cinza.

Este lugar, no nada, não lugar.

Tenho pena de você.

Eu, talvez, reviva vez ou outra, depois que me for.

 

Você não.

 

 

Você não.

Agora, só hoje, não mais te odeio.

Olhou para o lado e viu, pela primeira vez em sua curta existência, que retiravam do moinho uma farinha amarela, e no lugar dela colocavam outro tanto de milho. Quantas vezes de quantas fizeram o mesmo e não percebera? Naquele instante o acúmulo de musgo pesou o suficiente para que se fendesse o esfalfado e enferrujado mancal de metal.

_A água.

Eu a tenho em mim, agora. Plenamente.

Tenho em mim o rio.

 

Como é belo desde aqui.

 

Como é belo.

Agora a roda d’água pertencia ao rio, e se foi com ele, ao lado de duas mangas e uma garrafa com uma carta dentro. Desceu rio abaixo, trespassando vilarejos, fazendas e cidades. Por onde passava as pessoas descobriam suas cabeças em respeito, com as arapongas em cortejo fúnebre. Martelavam, agora, aos quatro ventos, que o mancal de metal não resistira. Suas idas e vindas, voltas e viravoltas, encerramentos e releituras, cessaram. E a roda d’água morreu, e continuará morrendo pensamentos outras tantas vezes mais.

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