O BURACO

Roteiro de Teatro – Resumo: Eliseu mais cinco pessoas caem num buraco que subitamente aparece no centro de uma cidade. Em queda livre, eles reaprendem a viver a partir do medo e da esperança.

Recorte: Eliseu – Fé. Eu acho tudo isso de uma bobeira tão infantil! Os homens dizem: se passarem mil pássaros pretos pela janela, todos os pássaros são pretos. Não conseguem pensar que talvez estejam vendo justamente a exceção? Que todos os demais pássaros podem ser multicoloridos, menos aqueles que foram vistos?

O BURACO

Pseudônimo: Aliocha

Personagens:

ELISEU –

SAFIRA –

DENILSON –

TARSO –

RUTE –

ADEMIR –

E mais:

Vendedora de bilhetes de loteria

Alguns transeuntes

Época: Atual.

Ação: Uma cidade qualquer; no centro dela, um buraco.

2 Atos / 8 Cenas

 

PRIMEIRO ATO

Na praça da cidade, algumas pessoas caminham com sacolas de compras, apressadas e distraídas.

Som de automóveis e multidão.

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CENA 1

ELISEU – (Andando pela rua, ele está muito cansado e deprimido. Entregou currículos o dia todo e o fracasso está materializado em sua face. Eliseu se encosta num poste de metal e tira o sapato para arrumar o jornal colocado dentro do sapato, mas se desiquilibra e pisa com o pé só de meia num punhado de sujeira. Então ele salta num pé só, até chegar aos degraus de uma escadaria e senta-se para terminar de arrumar o calçado. No chão ele encontra outras folhas de jornal, e começa a dobrá-las para colocar no lugar do jornal anterior, que rasgou.)

VENDEDORA DE LOTERIAS – (Entra na cena, tenta abordar uma pessoa que passa, mas esta não lhe dá atenção. Então ela se aproxima de Eliseu lentamente).

Boa tarde.

ELISEU – (Expressão de cansaço e derrota, mas não de ódio. Expressão de derrota complacente)

Olá.

VENDEDORA DE LOTERIAS – Quer comprar um bilhete de loteria?

ELISEU – Não. Acho que não.

Com certeza, talvez não.

VENDEDORA DE LOTERIAS – Talvez seja seu dia de sorte.

ELISEU – (Ainda arrumando o sapato com jornal, ele mostra a pasta de currículos)

Sorte? Mais de cinquenta currículos já se foram. Acho melhor não falar sobre isso. Você precisa trabalhar e eu não quero roubar seu tempo.

VENDEDORA DE LOTERIAS – (Ela se senta ao lado dele, lentamente, em silêncio. Depois de alguns segundos, sentada, ela volta a falar)

E você acha que se eu tivesse sorte estaria aqui vendendo bilhetes de loteria?

(Silêncio curto)

Que tipo de azar você teve?

ELISEU – (Expressão de incompreensão)

E lá existe tipo de azar? Disso nunca ouvi falar.

VENDEDORA DE LOTERIAS – Ora. Tem azar que vem antes da gente, daqueles que não dependem das escolhas. E tem azar que acontece depois das nossas ações.

(Silêncio curto)

Eu tive azar quando nasci.

(Silêncio curto, olhar vago para o nada. Depois olha para os bilhetes de loteria)

Eu nasci no lugar errado.

(Silêncio curto)

ELISEU – (Ele terminou de arrumar o jornal e calçou o sapato. Então ele olha para a vendedora para falar).

Eu acho que tenho uma quedinha pelo azar.

Eu vivo dando mais chances pra ele que pra sorte.

VENDEDORA DE LOTERIAS – Eu penso muito sobre sorte e azar. Talvez devesse pensar menos.

Isso deve dar azar.

ELISEU – E você chegou a alguma conclusão?

VENDEDORA DE LOTERIAS – (Balançando a cabeça, balbucia a resposta)

Não.

É tudo absurdo demais.

Já pensou que alguém simplesmente nasce num país miserável e vive a passar fome enquanto outros nascem em famílias riquíssimas? Já outros nascem pobres e levam um golpe de sorte e tudo muda, e o contrário também acontece.

(Silêncio curto)

Isto se chama (acentuando a fala) “Golpe de Sorte”.

ELISEU – E você, então, é uma vendedora de “Golpes de Sorte”?

VENDEDORA DE LOTERIAS – Que nada. O golpe é tão grande que é muito improvável. Acho que nunca vendi um bilhete premiado.

Eu acho.

ELISEU – Bem, preciso ir embora.

Foi um prazer conversar com você.

VENDEDORA DE LOTERIAS – (Dá um leve sorriso)

Digo o mesmo. Com um pouco de sorte nos encontramos novamente por ai.

Até mais, então!

ELISEU – Até mais ver!

VENDEDORA DE LOTERIAS – (Sai da cena com um olhar um pouco mais animado e confiante).

ELISEU – (Ele caminha em direção ao centro do palco e para para olhar as horas. Neste instante um tremor acontece. De súbito um buraco no chão se abre (o alçapão de abre) e engole cinco pessoas que por ali passavam naquele exato instante. Eliseu, a sexta pessoa, ainda consegue se segurar por alguns instantes em algo, pede ajuda, se desespera, mas por fim cede e cai. Ouve-se gritos, e todas as luzes se apagam.)

FIM DA CENA 1

FIM DO PRIMEIRO ATO

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SEGUNDO E ÚLTIMO ATO

CENA 2

(Gritos da cena anterior se ligam ao início desta cena. Sons de vento forte junto com os gritos. Luzes totalmente apagadas. Os atores estão pendurados por uma corda, simulando uma queda. O restante da peça se dá assim, em queda. As luzes vão se acendendo lentamente no decorrer das cenas, simulando a adaptação da visão dos personagens, assim como o som de vento forte diminui, na mesma intenção)

 

OS SEIS PERSONAGENS

(Gritos de medo, socorro e incompreensão, por aproximadamente um minuto. Luzes apagadas e barulho alto de vento).

(Gritos concomitantes e aleatórios)

SAFIRA – Meu Deus! Não quero morrer!

DENILSON – É o fim!

TARSO – Vou morrer!

RUTE – Socorro! Socorro!

ADEMIR – Ai meu chão! Onde está meu chão?

ELISEU – Ai meu pai, que o chão firme me faltou!

ADEMIR – Vamos morrer!

(Os gritos de medo vão diminuindo em quantidade. As falas seguintes são embargadas, com medo e apreensão, molhadas de choro. O barulho de vento ainda é alto, portanto ainda precisam falar gritando)

SAFIRA – Eu não quero morrer agora!

DENILSON – Estou com medo!

ELISEU – Eita diabos: esse buraco não tem fim?

ADEMIR – Quando chegar, vivaremos pizza!

RUTE – Meus filhos, ai meu Deus! Meus filhos!

TARSO – Meu Deus do céu. Aceita meu espírito nesta hora da minha morte. Tende piedade de mim! Perdoa meus pecados!

ADEMIR – Só Deus pra salvar agente agora, mas já que ele não existe, então nada mais nos sobra além do fundo do poço!

ELISEU – Tem algo de errado.

Não pode existir tamanho buraco!

Alguém consegue ver alguma coisa?

TARSO – Nada!

RUTE – Meu Deus, eu não consigo ver nada!

SAFIRA – Estou com tanto medo!

ELISEU – Não é possível!

Não é possível um buraco deste tamanho bem debaixo do centro da cidade!

Já estamos caindo há mais de cinco minutos.

Pelo tempo de queda, vezes a aceleração da gravidade, já devemos estar caindo a mais de 1000 km por hora!

ADEMIR – Tem razão! Não faz sentido!

SAFIRA – Nada disto faz sentido!

RUTE – Meu coração está doendo muito! Estou infartando!

TARSO – Tente se acalmar, senhora!

SAFIRA – Acalmar? Ficou louco? Estamos caindo! O normal é infartar mesmo!

ADEMIR – Bem, o fundo do buraco deve chegar a qualquer instante.

Foi um prazer cair neste buraco com vocês.

SAFIRA – Estou rodeada de loucos! Se ninguém pode falar nada que nos ajude, que fiquem quietos! Respeitemos a dor e o medo de cada um!

(Silêncio por tempo médio, barulho de vento em queda)

ELISEU – Meu nome é Eliseu.

Se vou morrer, gostaria que soubessem meu nome, e que pensassem nele brevemente antes de nossa morte.

ADEMIR – O meu é Ademir.

SAFIRA – Safira.

TARSO – Meu nome é Tarso.

ADEMIR – Falta aquela senhora do ataque cardíaco?

RUTE – Sou eu. Meu nome é Rute.

SAFIRA – A senhora está melhor?

RUTE – Sim. Meu peito está doendo menos.

TARSO – Somos em cinco, então?

DENILSON – Não. Faltou eu! Denílson.

(Quase chorando) Meu nome é Denílson.

(Silêncio curto)

ADEMIR – Seis pessoas?

ELISEU – Que jeito estranho de morrer!

 

FIM DA CENA 2

 

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CENA 3

(Personagens ainda em queda; o volume do barulho de vento começa a diminuir; a escuridão completa é mitigada por uma frágil luz. A partir de agora os personagens aparecem presos pelos cabos, içados à altura de meio palco (na vertical), e o tom de medo e pavor começa a diminuir)

DENILSON – Ai meu braço! Ele bateu em alguma coisa.

Dói muito.

SAFIRA – Será que consigo te ajudar?

DENILSON – Acho que quebrei meu braço.

TARSO – Então não há o que fazer!

DENILSON – Logo morreremos. Isto não faz mais diferença!

SAFIRA – Meus olhos estão se acostumando com a escuridão.

TARSO – Sim. Já consigo ver vocês.

ELISEU – Eu ainda não vejo nada.

SAFIRA – Você. Quem é você?

ADEMIR – Eu sou Ademir.

SAFIRA – Oi, Ademir. Eu sou a Safira.

RUTE – Meu Deus. Como é possível que ainda estejamos caindo assim?

TARSO – Eu também não compreendo. Não é possível. Não faz sentido algum!

ELISEU – Será possível que estou sonhando?

SAFIRA – Você não está sonhando. Eu estou aqui, não estou?

ELISEU – Mas você talvez seja apenas parte do meu sonho, ou uma lembrança.

SAFIRA – Não seja ridículo.

ELISEU – Ridículo? Estamos caindo há pelo menos meia hora. Isso sim é que um absurdo!

DENILSON – Isso realmente não faz sentido.

ELISEU – Pense bem. Tudo o que você sabia, neste exato instante, perde o sentido. Já não funciona mais.

Como é possível estarmos caindo há tanto tempo? Como é possível um buraco desta profundidade no centro de uma cidade? O que é que são as coisas reais daquele mundo que ficou para trás? Nada daquilo faz sentido agora.

Nada.

E convenhamos: agora lógica alguma me impossibilida de pensar que talvez eu esteja sonhando, e que vocês são apenas parte deste sonho.

SAFIRA – Eu não faço parte do seu sonho. Que conversa mais grotesca!

ELISEU – Talvez não faça. Mas você, nem eu, podemos provar isso.

ADEMIR – Certo Eliseu. Eu sou apenas uma ilusão de um sonho seu, ok? Agora vamos falar de coisas importantes.

ELISEU – Me diga. Sou todo ouvidos.

ADEMIR – Se ainda não morremos no fundo deste buraco, seria bom considerar a possibilidade de acharmos uma alternativa para pararmos de cair.

RUTE – Deveríamos aproveitar este milagre de Deus e tentar parar de cair. Eu concordo com ele.

TARSO – E o que faríamos depois?

ADEMIR – Certamente todo mundo lá em cima deve estar nos procurando, tentando achar alguma forma de nos salvar. Eles provavelmente mandarão alguém aqui, no fundo deste buraco, pra nos salvar.

SAFIRA – Mas nós precisaríamos parar de cair.

ADEMIR – Exatamente, Safira.

SAFIRA – E como você pensa em fazer isso?

ADEMIR – Isto eu ainda não sei. Mas se trabalharmos todos juntos podemos encontrar alguma solução.

ELISEU – Não quero ser pessimista, mas acho impossível que consigam nos salvar. Caímos demais.

DENILSON – E nós mesmos não poderíamos nos salvar?

ELISEU – Ai depende do que você entende por ser salvo!

ADEMIR – Se você não quer ajudar, Eliseu, então não nos atrapalhe. Deixe a gente pensar, e por favor não se intrometa. Quando acharmos a solução deste problema nós salvaremos você também.

ELISEU – Salvação?

TARSO – Vamos nos aproximar uns dos outros, pra não precisarmos gritar tanto.

SAFIRA – Isso. Todo mundo aqui.

TARSO – Ademir, ajude a dona Rute.

 

ADEMIR – Aqui está. Pronto. Todos conseguem me ouvir?

TODOS, MENOS ELISEU: Sim.

ADEMIR – Ainda não tentamos o mais óbvio, que é tentar segurar na parede do buraco. Talvez consigamos nos segurar. Quem é que sabe?

TARSO – Esperem aqui. Vou ver se é possível.

(Silêncio curto, Tarso até a parede do buraco e a toca, machucando a mão em algo que ele ainda não sabe o que é)

TARSO – Ai minha mão!

SAFIRA – O que foi? Se machucou?

ADEMIR – Tarso, o que aconteceu?

TARSO – (Tom de dor, euforia e medo)

Minha mão, dói muito.

DENILSON – Deve ter sido a mesma coisa que quebrou meu braço.

TARSO – Alguma coisa cortou minha mão. A parede é repleta de coisas que parecem…não sei.

Aliás, devem ser raízes.

É isto são raízes.

Mas elas passam rápido demais e nos cortam.

ADEMIR – De certa forma isto é uma boa notícia.

SAFIRA – As raízes não passam rápido. Nós passamos.

ADEMIR – Certo, certo. Eu sei.

SAFIRA – Mas pensando bem, quando se conseguisse segurar em uma delas seria como se algo saísse do chão a centenas de km por hora e nos puxasse pra cima com toda força.

DENILSON – Não entendi.

ADEMIR – Não faz mal. Vamos nos concentrar no que é importante.

SAFIRA – (Tom de discussão e leve nervosismo)

Mas o que eu disse agora é importante!

ADEMIR – Eu sei, mas é secundário.

SAFIRA – (Tom de discussão e forte nervosismo)

Não é secundário, Ademir. Estou dizendo sobre a tremenda dificuldade que seria se segurar em uma dessas raízes.

RUTE – Vocês precisam se acalmar, meninos.

(Silêncio curto)

TARSO – A dona Rute tem razão. E a Safira também.

ADEMIR – Pessoal, eu tenho consciência de que será difícil, mas não adianta ficar falando que será difícil. Podemos morrer a qualquer instante; e vocês vão ficar com medo de se machucar um pouco no processo de salvar suas vidas?

RUTE – Eliseu junte-se a nós! Mais uma cabeça pensando pode ajudar.

SAFIRA – Na verdade, mais uma cabeça pensando é mais uma ideia em contradição.

TARSO – O que você acha Eliseu?

ELISEU – Eu estou tentando relaxar e não pensar nisto tudo, e apenas morrer em paz.

TARSO – Você já desistiu?

ELISEU – Me deixem em paz. Quero descansar meu espírito.

ADEMIR – Deixem ele. Pelo visto não poderemos contar com sua boa vontade. Mas quanto a nós, temos que nos unir; e tentar não entrar em conflito. Nós não somos inimigos uns dos outros, aqui. O buraco é o nosso inimigo.

ELISEU – O buraco não é nosso inimigo.

SAFIRA – Você quer morrer, Eliseu? É isso? Se você não quer viver, não nos desestimule.

ADEMIR – Você não queria ficar em paz, Eliseu? Pois então: fique em paz. Fique ai, na sua, em paz.

RUTE – Estou com tanta fome!

DENILSON – Eu também. E com muita dor no braço.

SAFIRA – Pobre Denílson. Deve estar doendo muito!

DENILSON – Sim. Está tudo muito ruim.

Estou com dor, com frio, com medo, com fome e com saudade da minha filha.

RUTE – Eu também deixei meu velho pra trás. O que ele vai pensar disso tudo?

SAFIRA – Será que estas raízes não são comestíveis?

TARSO – Elas arrancariam sua mão quando tentasse.

ADEMIR – Temos que nos concentrar em parar de cair, pessoal. O que há com vocês?

SAFIRA – Talvez morramos a qualquer instante, não é, Ademir?

E não seria justo que a dona Rute e o Denílson matassem a fome com o que tivéssemos pra comer?

ADEMIR – E como você pegaria uma raiz desta? O Tarso  já não deu provas suficientes de que não é possível?

SAFIRA – Vou tentar também.

TARSO – Não faça isso, menina. Você vai se machucar.

SAFIRA – Saia da minha frente. Eu vou tentar.

RUTE – Cuidado minha filha.

ADEMIR – Meu Deus. Estão todos malucos por aqui!

SAFIRA – Consegui.

TARSO – Como é?

SAFIRA – Isso mesmo. Consegui pegar um bom pedaço da raiz.

TARSO – Não é possível! Você não se machucou?

SAFIRA – Não. Não me machuquei. E acho que até aprendi como colher outras.

RUTE – E será que o sabor é bom?

SAFIRA – Vamos ver. Quem quer experimentar primeiro?

ADEMIR – E se for venenosa?

TARSO – Como assim?

ADEMIR – Muitas raízes de plantas são venenosas.

SAFIRA – Quem vai experimentar primeiro?

(Silêncio curto)

SAFIRA – Vamos lá, pessoal. Denílson, o senhor não estava com fome?

DENILSON – Estou sim. Mas…

SAFIRA – Dona Rute?

(Silêncio curto)

SAFIRA – E agora esta? Eu me arrisquei pra pegar esta raiz, e ninguém vai comê-la?

TARSO – Porque não come você, então?

ELISEU – Eu como primeiro.

ADEMIR – Você?

ELISEU – Também estou com fome. Me dê isto.

(Silêncio médio. Som de mordida em raiz – parecido com mordida em cenoura)

TARSO – E ai?

(Silêncio curto)

SAFIRA – Fala logo!

ELISEU – Cenoura.

(Silêncio curto)

ELISEU – Parece cenoura, só que melhor. É muito saboroso.

Se vou morrer, bem… isto é outro assunto.

É bem rica em água; além de matar a fome, deve nos manter hidratado também.

SAFIRA – Me dá um pedaço, então?

ELISEU – Não. Eu corri este risco. Esta raiz é minha.

SAFIRA – Não acredito que está dizendo isto, não pra mim!

(Silêncio curto)

SAFIRA – Eu posso pegar outra, seu desgraçado!

ELISEU – Então faça.

(Silêncio curto)

SAFIRA –

Quero ver esta mesma coragem quando chegar a hora de você pegar sua raiz.

(Safira experimenta a raiz)

SAFIRA – É realmente muito boa.

RUTE – Isto é uma boa notícia.

TARSO – Realmente.

SAFIRA – Vou pegar uma pra senhora, dona Rute, e uma pro Denílson.

(Silêncio curto. Safira pega duas raízes e volta para o grupo)

SAFIRA – Tome, dona Rute. E uma pra você, seu Denílson.

Posso te chamar de “se Denílson ”?

DENILSON – Pode sim, minha jovem. Minha idade já permite o “sr” na frente (risada discreta, e com dor). Muito obrigado.

SAFIRA – E seu braço, ainda dói muito?

DENILSON – Sim, dói. Mas não se preocupe. Quanto a isso não há o que fazer.

ADEMIR – Podemos pensar numa forma de prender com algo sólido pra não deixar que ele se movimente. É o movimento que faz doer mais.

TARSO – Mas prender em quê?

DENILSON – Não se preocupem com isso agora. A qualquer instante vamos morrer mesmo.

(Silêncio curto)

DENILSON – Não há motivo pra se preocupar com isso.

(Silêncio médio)

RUTE – Eu sou idosa. Sim.

Mas ainda não estou preparada para morrer.

TARSO – Eu também não pronto para morrer.

ADEMIR – Ninguém está.

Nem mesmo ele, o Eliseu.

Se auto engana, quanto a isso.

SAFIRA – Mais alguém quer raízes?

ADEMIR – Se não for pedir demais, acho que todos nós queremos um pedaço!

SAFIRA – Pegarei raízes para todos, então.

(Silêncio curto)

SAFIRA – Pra você primeiro, Eliseu.

ELISEU – Obrigado.

Já posso ver seus olhos chorando.

Este é o primeiro sintoma que me aflige nesta loteria: ver uma jovem tão forte como você (silêncio breve) chorando.

Agora percebo, já não há mais esperança. (silêncio breve)

Nunca entenderão que o buraco não é nosso inimigo.

SAFIRA – E quem é o inimigo, então?

ELISEU – Não existem inimigos.

(silêncio breve)

ELISEU – Comamos, todos, em memória do sacrifício (silêncio breve)

decorrente da loteria.

 

FIM DA CENA 3 – A luz se apaga FadeOut para o final da cena.

 

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CENA 4 – As luzes se acendem novamente, a meia luz.

 

(O barulho de vento diminui quase totalmente. A luz torna-se mais clara, 75% do total do final)

RUTE – Eu tenho sessenta e dois anos.

Nasci numa família muito pobre. Muito pobre mesmo.

Meu pai era muito evangélico, e a gente ia pra praça pregar e cantar o evangelho. Eu morria de vergonha.

Tinha vontade de pouca coisa, pouca mesmo. Mas nem o pouco agente tinha.

(Silêncio curto)

Me casei com dezessete anos. Foi uma festa muito simples, mas muito bonita. Todo mundo pobre, sem dinheiro pra nada.

Mas ganhamos muitos presentes, graças a Deus.

(Silêncio curto)

Logo nasceu a Marli, a mais velha. Depois a Sueli e depois a Raquel. Três meninas. Depois o Felipe, depois a Tereza e por último o Marcelo.

Seis filhos, ao todo.

Vivíamos num bairro pobre, mas na época as crianças ainda podiam brincar na rua. (Silêncio curto)

Um dia fui buscar o Felipe, o mais arteiro, lá na rua de trás de casa. E quando voltei já era pro Tercílio ter voltado, meu marido.

Mas ele não tinha chegado ainda.

E nunca mais voltou.

Eu descobri algumas semanas depois que ele estava em outra cidade morando com uma outra mulher.

Minha menina mais velha tinha oito anos, e o Marcelo, o caçula, tinha quatro meses.

Voltei pra casa do meu pai, viúvo, com seis filhos, e fui trabalhar.

A mais velha cuidou dos outros, e se tornou mulher muito cedo.

Com quatorze anos perdi o menino mais velho, o Felipe.

(Silêncio médio/longo)

Eu limpava chão e banheiro de escola, e voltava a pé todos os dias andando; mais de sete quilômetros.

Duas horas de caminhada. Já chegava à noitinha, e já ia pra cozinha.

Meus filhos todos se casaram bem, fizeram profissão e todos tem filhos lindos, meus netos. Orava bastante pra minha neta mais velha arrumar um namorado bom; tenho fé nisso.

Outro dia desses o Tercílio quiz ver os meninos.

(Silêncio curto)

Rute Marcelina de Fátima.

Sem o Souza, no final.

(Silêncio curto)

Sem o Souza.

(Silêncio médio)

TARSO – Eu sou Souza.

Mas acho que não tenho parentesco com a senhora, não.

Meu pai é médico.

(Silêncio médio)

ADEMIR – E?

TARSO – E o quê?

ADEMIR – Vamos lá. Fale de você.

TARSO – Isso virou uma sessão de terapia coletiva.

ADEMIR – Só queremos saber um pouco de você.

Morreremos a qualquer instante; não seria bom que soubessem sua história, por pouco tempo que seja?

TARSO – Eu não tenho história nenhuma pra contar.

DENILSON – Isso não pode ser verdade.

TARSO – Ah, viajei o mundo algumas vezes. Comi muitas mulheres muito gatas. Fiz faculdade de direito, sou advogado numa…

era

era advogado numa grande empresa automobilística.

O que posso dizer?

Fiz muitas coisas, mas não fiz nada. Não como a dona RUTE – .

SAFIRA – Acho que, como ela, nenhum de nós fez nada.

DENILSON – Talvez eu tenha vivido algumas coisas semelhantes.

ADEMIR – Conte pra gente.

DENILSON – Não, não. Acho melhor não.

Não vamos entrar numa competição para ver quem viveu a história mais triste. Vamos fazer como o Tarso, e nos lembrar das coisas boas.

A dona Rute já nos deu uma boa lição por hoje, mas acho que já basta.

(Silêncio curto)

SAFIRA – Eu tenho vinte e sete anos. Sou solteira. Sempre estraguei todas minhas possibilidades de relacionamentos duradouros.

Aliás, sempre estrado tudo o que está ao meu redor.

Se pudéssemos ver com clareza, provavelmente fui eu que devo ter feito alguma coisa errada pra que aquele buraco se abrisse debaixo de nossos pés.

Faz dois anos que não converso com minha mãe, e falo só o essencial com meu pai. Sou despedida a cada seis meses de cada trabalho, ou eu mesmo trato de pedir as contas quando tudo está indo muito bem.

Não sei bem por que, mas sei que tenho um estranho poder de implodir todas as construções que entro, todas sobre minha cabeça.

Bem, agora não terei mais nada para destruir.

Talvez isso seja bom.

Um fim.

ADEMIR – Eu?

SAFIRA – Sim, é sua vez.

ADEMIR – Bem, eu, eu também não tenho muito pra contar.

Meus pais são de classe média. Bem, média alta. Nunca me faltou nada, nem carinho dos meus pais, como acontece muito hoje em dia.

Meus pais não se divorciaram, nunca bati o carro nem tirei notas vermelhas.

(Silêncio curto)

Eu estava no terceiro ano da faculdade de farmácia, numa ótima universidade.

Minha namorada é muito bonita, mas não acho que ela gostava de mim.

Ah, não sei.

É só isso.

Acho que é só isso.

SAFIRA – Que bom. Já conhecemos um pouco mais sobre você, e isso é bom.

(Silêncio curto)

SAFIRA – Não quer falar um pouco sobre você, Eliseu?

ELISEU – Falar sobre mim?

SAFIRA – Sim, só um pouco, ou o quanto quiser.

ELISEU – (Com voz animada e ligeiramente irônica)

Está bem.

Eu gosto de chocolate. Mas chocolate preto, não gosto dos brancos. Gosto de futebol e de músicas dos anos oitenta.

Gosto de fazer caminhadas longas no meio de florestas, pegar cachoeiras e cozinhar em fogueiras improvisadas. Gosto de mandioca frita e agora, bem, ultimamente ando gostando de cair em buracos.

 

SAFIRA – (Voz de censura)

A quem está tentando enganar?

ELISEU – Você ouviu cada um dos relatos com o coração aberto, por que rechaça somente a mim?

SAFIRA – (Voz de repreensão)

E por que você nos provoca?

Não há a mínima sensibilidade em você?

Respeite nossos sentimentos, por favor.

ELISEU – Pois se o meu sentimento é diferente do de vocês, quem o haveria de respeitar então?

ADEMIR – Calma, Safira.

Isso só me lembra de que podemos fazer algo para mudar esse destino. Não está tudo acabado. Eu tenho fé.

Cada história que foi contada, aqui, agora, merece ter continuidade.

Não precisa ter um fim tão absurdo e abrupto como este que se aproxima de nós. Tenho certeza de que podemos reverter este quadro.

TARSO – Safira, como foi que você conseguiu pegar aquela raiz?

SAFIRA – Por que pergunta?

TARSO – Talvez, se conseguíssemos segurar em uma ou duas raízes mais fortes, poderíamos parar de cair. Não seria possível?

SAFIRA – Eu apenas fiz um movimento bem rápido com o braço, pra cima, como se tentasse pegar algo que passa por nós bem rápido, mas que sai do chão e vai pra cima.

Assim. Mas bem rápido, e fechando a mão no percurso.

 

TARSO – Entendi.

E se eu conseguir segurar uma raiz mais forte, ou duas raizes como aquelas que você tirou para nós, talvez conseguiria parar de cair.

ADEMIR – E com certeza alguém lá em cima já está descendo, uma hora dessas, pra tentar nos encontrar.

Sim.

Bastaria parar de cair.

TARSO – Vou fazer uma tentativa.

SAFIRA – Mas há uma questão. Se você conseguir se segurar, num instante, e cada um de nós em outro, provavelmente não teríamos contato uns com os outros.

ADEMIR – Mas quando viesse o resgate, então nos veríamos lá em cima novamente.

Não há o que temer.

TARSO – Certo. Deixe-me tentar.

(Silêncio curto)

TARSO – Bem, se eu conseguir, espero que todos consigam também.

Espero ver todos vocês lá em cima, sãos e salvos.

ADEMIR – Boa sorte.

DENILSON, RUTE E SAFIRA: Boa sorte.

TARSO – Pra todos nós.

Vou tentar.

(TARSO –  se aproxima da borda do buraco, e quando tenta segurar nas raízes ele consegue, e então ele para de cair. A corda que o sustenta é puxada para cima, simulando a continuidade da queda dos demais. Próximos diálogos em tom de euforia)

SAFIRA – O que aconteceu com ele?

ADEMIR – Ele conseguiu?

RUTE – Eu acho que ele conseguiu.

DENILSON – Eu também acho que ele conseguiu.

ELISEU – Ele certamente conseguiu. Eu vi claramente.

SAFIRA – Você viu, Eliseu? Tem certeza que viu?

ELISEU – Sim, tenho certeza.

ADEMIR – Maravilha! Maravilha!

Estamos salvos.

Estamos salvos, dona Rute!

SAFIRA – Maravilha!

RUTE – Maravilha, meus meninos. Vocês conseguiram.

DENILSON – Parabéns a vocês. Agora vocês poderão se salvar.

(Silêncio médio – diálogos em tom de decepção)

SAFIRA – Seu Denílson!

E o que faremos com o seu Denílson?

(Silêncio curto)

ADEMIR – Temos que achar uma solução.

DENILSON – Não, não. Por favor.

Vocês devem salvar suas vidas. Vocês não devem nada pra mim, e precisam se salvar.

Aquele que tentar me salvar vai perder sua vida também.

 

SAFIRA – Não verdade, provavelmente a dona Rute também não conseguirá se segurar nas raízes. É preciso um movimento muito rápido, e depois segurar com bastante força.

(Silêncio médio – tom do diálogo: tristeza)

ADEMIR – Não é possível!

Agora que achamos uma forma de parar este pesadelo, este maldito sonho ruim, temos outro problema!

DENILSON – Eu já falei que não quero ser problema para nenhum de vocês.

Salvem-se e não se sintam culpados por minha causa.

ADEMIR – Dona Rute?

RUTE – (Tom de choro)Eu…

Eu não queria morrer!

Meu Deus, eu não quero morrer!

SAFIRA – Precisamos salvá-la também.

De alguma forma, precisamos fazer isso.

ADEMIR – Nunca conseguiremos!

Estas raízes não aguentariam dois, e quem quer que fosse tentar, precisaria das duas mãos, e o choque seria muito grande.

É impossível.

SAFIRA – Precisamos tentar.

ADEMIR – Não conseguiremos.

(Silêncio curto)

É impossível!

ELISEU – Eu posso tentar salvá-la. Se pensarem nalguma coisa, eu me proponho a salvá-la.

 

ADEMIR – Não há como, Eliseu! Não há como.

Maldito Tarso! Ele fez o teste, conseguiu, e se livrou deste terrível dilema moral!

SAFIRA – Ademir, precisamos salvá-los também. Você precisa me ajudar.

ADEMIR – Não podemos fazer nada por eles, Safira. Se não nos salvarmos, ninguém se salvará. Não é melhor que três de nós se salvem que todos perdermos a vida?

SAFIRA – Seu desgraçado! Nem cogite isso.

Fique aqui para nos ajudar. Você não pode fazer isso com ela!

ADEMIR – (Gritando)

Não podemos fazer nada, Safira. Você está me ouvindo? Ou nos salvamos, ou ninguém se salva. Não temos escolha!

SAFIRA – Não ouse tentar nos deixar, Ademir!

Não faço isso com eles!

ADEMIR – Adeus. Me perdoem!

SAFIRA – Não faça isso, Ademir!

(ADEMIR – se aproxima da borda do buraco. Ao tentar segurar nas raízes, não consegue, e também se machuca bastante)

ADEMIR – (Gritos de dor) Ah! Ai minhas mãos!

Está doendo muito! Ai minhas mãos!

Me ajudem! Acho que quebrei minhas duas mãos!

 

FIM DA CENA 4 – A luz se apaga FadeOut para o final da cena.

– – – – – – – – – – –

CENA 5

(A luz está no máximo de sua claridade e o barulho de vento se encerrou por completo. Ou seja: seus sentidos se adaptaram completamente ao buraco e à queda. Enquanto os três homens conversam, em primeiro plano, as duas mulheres conversam algo em segundo plano)

DENILSON – (Com dor) Há quanto tempo estamos caindo?

ADEMIR – Pelos meus cálculos, há sete dias.

DENILSON – Este seu relógio é movido a cordas?

ADEMIR – É sim. Ganhei do meu pai. Acho que ele ganhou do pai dele.

Sempre gostei de coisas retro.

ELISEU – Não é engraçado o nome que damos às coisas?

Relógio movido a cordas.

ADEMIR – É. É estranho mesmo.

ELISEU – Eu acho engraçado todos os nomes, de todas as coisas; e todas as palavras.

É muito estranho tudo isso, cada uma.

Consciência.

Dúvida.

Interrogação.

Buraco. Buraco.

Bu–ra–co.

Bur–aco.

Bu–a–ck—-ô!

(Silêncio curto)

Não faz sentido.

ADEMIR – Mas existe uma lógica nas palavras. Elas reproduzem, de alguma forma, os sons do mundo.

Existe até uma matemática lógica da linguagem.

ELISEU – Eu não sei nada dessas coisas. Só sei que pra mim parece tudo absurdo.

ADEMIR – Não, de forma alguma.

Nada no mundo é absurdo. “Deus não joga dados”.

Só parece absurdo aquilo que ainda não compreendemos; ainda.

Em algum instante a humanidade dará conta de todos os saberes do universo, tenho certeza.

ELISEU – (Tom de incredulidade e sarcasmo)

De todos os saberes do universo?

ADEMIR – Você não acredita?

ELISEU – Acho um pouco mais fácil acreditar na Dona Rute.

ADEMIR – Em que você acredita, então?

ELISEU – Acreditar?

Essa não é a melhor palavra. Acreditar eu não acredito em nada, ou talvez não.

ADEMIR – Nada? Então você é ateu?

ELISEU – Não, de forma alguma. O ateísmo e o cientificismo são crenças muito profundas e complexas, que manifestam uma tremenda fé.

ADEMIR – Fé? Fé, dentro da ciência?

ELISEU – Ademir, eu não sou estudado em coisa nenhuma. Mas eu acho que estas perguntas todas são meio ingênuas.

Eu te faço duas perguntas simples. Você viu o Big Bang dar origem ao universo? Ou, por acaso, viu Deus criar as estrelas e os sóis? Você viu? Alguém viu?

Se não viu, o resto é resto. É invenção. É fé.

Invenções da razão através da matemática absurda dos cientistas ou de relatos históricos maravilhosos e fabulosos das religiões.

E o pior de tudo é que o indivíduo inventa um argumento, ele mesmo, e depois faz bastante força pra esquecer que foi ele quem inventou tudo aquilo, transferindo dele para o mundo, como se tivesse sido do mundo que saíram suas ideias, e ele só as tivesse visto e anotado. Ele inventa, e depois tem fé no que ele inventou, sabendo que não viu a origem das coisas, ou seja, está se enganando quanto à sua própria fé.

(Silêncio curto)

Toda fé é uma mentira que se conta pra si mesmo.

Um autoengano.

E ninguém viu o que veio antes, nem o que há depois.

A raça humana supõe que existe ordem no universo, mas isto é só uma suposição. E suposição é fé. E fé é autoengano.

Como é que chama aquele método científico, mesmo?

Indução?

ADEMIR – Isso. Indução e dedução.

ELISEU – Fé!

ADEMIR – Fé?

ELISEU – Fé. Eu acho tudo isso de uma bobeira tão infantil! Os cientistas dizem: se passarem mil pássaros pretos pela janela, todos os pássaros são pretos. Não conseguem pensar que talvez estejam vendo justamente a exceção? Que todos os demais pássaros podem ser multicoloridos, menos aqueles que foram vistos?

ADEMIR – Você não acredita na ciência?

ELISEU – Eu não acredito em nada. Ou talvez em tudo.

ADEMIR – O nome disso é Niilismo.

ELISEU – Eu sei lá o que é isso. Não sei nem pronunciar.

ADEMIR – O niilismo assim, como você pensa, não é bom.

ELISEU – Por que não?

ADEMIR – Porque ele atrapalha o progresso humano.

ELISEU – Volto a dizer. Não sei nada dessas coisas. Não sei se atrapalha o progresso humano, o que, pra mim, é outra mentira. Progresso? Que progresso?

(Silêncio curto)

ELISEU – Eu só sei de uma coisa. Se atrapalha ou não, só sei que tudo isso ai é fé. A vida humana é toda um ato de fé, é uma construção artificial que agente diz que é natural.

(Silêncio curto)

ELISEU – E vai ver, disseram isso ai só porque morrem de medo de que o progresso não possa salvar a raça humana.

Medo.

Medo e esperança.

É só o medo e a esperança que empurram o homem mundo afora. O resto é resto, são filhos do vento com alguma mãe igualmente bastarda.

ADEMIR – (Rindo com ironia forçada, pois na verdade não tem respostas para dar)- Nunca ouvi tanta baboseira de uma só vez.

ELISEU – Baboseira?

Então está bem. Por mim não tem problemas. Cada um acredita no que quer, e mesmo acreditar em nada é uma escolha de fé.

ADEMIR – Agora é que eu não entendi nada!

ELISEU – Deixa tentar me explicar, com minhas palavras grosseiras.

(Silêncio curto)

Imagine você numa sala escura; não dá pra ver nada lá dentro. Nada mesmo. Então você se pergunta: tem alguém aqui comigo? Acreditar que sim será uma escolha; pode ser um amigo, um inimigo, um cachorro ou um monstro alado. Você escolhe. Mas acreditar que não há ninguém mais lá com você, isso também será uma escolha.

E na verdade agente sempre fica com o talvez ali, no canto, por que é mais fácil ter certeza do que quer que seja do que conviver com a dúvida.

DENILSON – Eu tenho certeza de que meu braço dói cada vez mais.

ADEMIR – Se estivéssemos lá em cima, você tomaria alguns remédios e sua dor passaria, não é? A medicina daria um jeito no seu problema.

ELISEU – Como eu disse antes, eu não sei de nada não. Só estou falando por que o silêncio incomoda mais que nossas vozes, não é?

SAFIRA – Alguém quer raízes saborosas e nutritivas?

DENILSON – Muito obrigado, menina. Mais uma vez.

ADEMIR – Eu também quero.

ELISEU – (Aceitando e pegando a raiz)

Obrigado, Safira.

ADEMIR – Pessoal, aproveitando o momento, eu gostaria de pedir desculpas pela minha atitude quatro dias atrás.

Dias, já é um termo estranho para usarmos, não é mesmo?

Mas gostaria de dizer que estou arrependido, e queria saber se vocês podem me perdoar.

(Silêncio curto)

Dona Rute? Seu Denílson?

RUTE – Olha, moço Ademir, eu quero mesmo te dizer uma coisa sim, pro senhor, que tá engasgado aqui desde aquele dia.

Eu criei seis filhos e perdi um. Tudo sozinha. Eu fui responsável pelo caráter deles, se bão ou ruim. E eu te falo uma coisa: nenhum filho meu deixaria um outro pra trás só pra salvar a própria vida.

Nenhum.

Foi assim que eu fui criada, e foi assim que eu criei eles.

Agora sua forma de ver o mundo tá errada, viu. Tá muito errada.

Deus, que tá lá no céu, vê tudo, até aqui. Em qualquer lugar.

Ele vê nossos corações. Ele vê nosso egoísmo.

Ele vê o que os olhos não veem.

Deus vê tudo.

Tudinho.

(Silêncio curto)

RUTE – E pelo que to percebendo você não acredita em Deus, não é?

ADEMIR – É verdade, Dona Rute. Eu não acredito em Deus.

RUTE – Pois se acreditasse não teria tentado deixar gente indefesa pra trás.

ELISEU – Dona Rute, vamos com calma. Isso não é bem verdade, não é? Aquele foi um momento de fraqueza dele, e qualquer um está suscetível a esse tipo de erro.

RUTE – Não um homem temente a Deus!

ELISEU – Dona Rute, não estou defendendo o Ademir. Mas pelo que estou entendendo a senhora está dizendo que um crente em Deus não erra? É isso? Então, quando alguém começa a acreditar em Deus este é o instante em que ele começa a não mais precisar de Deus e de seu perdão?

ADEMIR – Até agora a pouco você não acreditava em Deus.

ELISEU – Eu aceito sua possibilidade.

SAFIRA – Gente, poupem a dona Rute dessa conversa.

ELISEU – Dona Rute, acho que seria muito ruim, pra senhora, viver estes últimos instantes de sua vida com ódio no coração. Só isso que quero dizer pra senhora.

Eu acho que uma pessoa temente a Deus não deixaria ninguém pra trás, mas outra pessoa temente a Deus não permitiría o ódio crescer em seu coração.

Só isso que eu queria te dizer.

DENILSON – Bem, eu não tenho a perdoar. Eu mesmo disse que ele poderia tentar o que quisesse, pra esquecer de mim sem peso na consciência.

SAFIRA – Ademir, de certa forma você desculpas a todos nós. Você não tentou me abandonar aqui, a mim diretamente, mas deu provas de que faria.

ADEMIR – Mas gente, calma. Vocês estão exagerando.

Eu queria salvar nossas vidas, salvar a todos nós. Mas desta minha intenção ninguém se lembra, não é? Fui eu que me preocupei com o grupo, primeiro que todo mundo.

SAFIRA – (Um pouco nervosa e cheia de rancor, rancor gratuito, forçado. Irônico)

Você se preocupou foi com você mesmo, desde o início. Morrendo de medo que estava, não viu ninguém mais ao seu redor.

ADEMIR – (Nervoso, tentando se convencer de que tem razão)

Ah, cale a boca. Você não sabe o que se passava em minha mente. Não pode ler meus pensamentos. (Irônico) Ou pode?

Egoísta aqui é você, que não sabe conversar, só atacar.

SAFIRA – (Nervosa, gritando)

Egoísta eu? Você está louco? Fui eu quem me preocupei com a salvação de todos desde o início!

ELISEU – Salvação? Salvar do quê?

SAFIRA – (Gritando)

E você é outro idiota! Você finge não ter medo! Seu idiota!

Quer saber, só eu consigo pegar as raízes, e não pegarei mais nenhuma pra vocês dois. Se virem. Já era.

ELISEU – Nossa! Em trinta segundos ela sai do oito e vai pro oitenta!

Não preciso que faça nada por mim.

SAFIRA – Ah não? Pois se depender de mim você vai morrer de fome antes de morrer da queda.

ELISEU – (Falando baixo, irônico)

Você não vai mais querer me salvar?

SAFIRA – (Chorando de raiva)

Seu ridículo!

Seu monstro!

As pessoas sentem medo e choram. Você disfarça e se engana.

Engana a si mesmo, mas não me engana.

Pois agora vou fazer você admitir seu medo, seu idiota. Não vou mais pegar raízes pra você.

ELISEU – Não?

(ELISEU se afasta, e de súbito faz um movimento rápido e pega uma raiz que passa por eles. Olha para ela ironicamente, e dá uma mordida na raiz. Safira lhe desfere um olhar triste, decepcionado e rancoroso)

RUTE – Você não precisava fazer isso com ela, moço.

DENILSON – Se eu estivesse com a mão boa, lhe daria um soco bem agora, rapaz arrogante.

(Silêncio médio. ADEMIR leva as mãos à cabeça, falando sozinho – os demais se espalham. DENILSON e RUTE consolam SAFIRA , que chora.)

ADEMIR – O que foi tudo isso?

Minha nossa! O que está acontecendo conosco?

Vamos morrer?

(Agora falando alto, para os demais, dando uma bronca coletiva)

Vocês mergulharam tanto nos problemas que simplesmente se esqueceram de nosso verdadeiro problema.

Vocês se esqueceram de nossa condição?

Esqueceram?

Estamos em queda. Vamos virar pizza a qualquer instante, e não temos a menor previsão de quando isso vai acontecer. Pode ser agora, daqui dez segundos ou minutos.

Vocês se esqueceram disso?

Só que ainda não aconteceu. Ainda é possível fazer alguma coisa. Cada segundo em que estamos vivos é um milagre que estamos desperdiçando.

Ou vocês desistiram?

(Silêncio curto)

Me falem.

(Silêncio curto)

Se já desistiram me falem pra que eu realmente tente me salvar sozinho!

Que absurdo!

Me torno o vilão por tentar me salvar, mas depois ninguém mais quer se salvar.

(Silêncio curto)

Quer saber? Vocês é que são egoístas. Todos vocês.

Não querem se salvar. Não é nem questão de poder ou não. Vocês não querem. Mas mesmo assim foram capazes de me criticar.

Assim que minhas mãos pararem de doer um pouco vou tentar novamente, e vou deixar vocês morrerem, e sem nenhum peso na consciência.

(Silêncio curto. Falando sozinho, tom de revolta e ironia)

Deus no coração?! Essa é boa.

Deus no coração!

 

FIM DA CENA 5 – Luz de apaga FadeOut para o final da cena.

 

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CENA 6

(SAFIRA conversa com RUTE e DENILSON, em primeiro plano. ADEMIR e ELISEU estão em afazeres individuais, cada um num canto)

SAFIRA – Deixa eu ver seu braço, Denílson. Está muito ruim?

DENILSON – Dói demais.

SAFIRA – O senhor já quebrou o braço antes?

DENILSON – Já, quando era criança. Mas ai agente tomava remédio pra dor e ajudava, né?

SAFIRA – Dona Rute, a senhora não nos daria essa segunda blusa, da senhora, pra amarrarmos o braço do seu Denílson? Ai o braço dele faria menos movimentos e ele sentiria menos dor.

RUTE – Lógico, minha filha. Por que você não falou antes?

(Dona RUTE tira a blusa e entrega a SAFIRA)

SAFIRA – Certo. Venha aqui, seu Denílson.

Assim. Vamos amarrar essa blusa em seu braço e tentar prender no seu corpo.

(SAFIRA pega o braço quebrado de DENILSON e começa o procedimento para prendê-lo ao corpo)

SAFIRA – O senhor é açougueiro, não é?

DENILSON – Sim, sim. Eu aprendi a trabalhar com carne desde criança.

Aprendi a matar tudo que é animal, a despelar, e a fazer os cortes certos.

Tudo desde criança, na roça.

RUTE – E por que você falou que sua vida também era triste?

DENILSON – Ah, não gosto de falar disso não, dona. Prefiro deixar pra trás.

É que eu não fui como a senhora, que foi só vítima.

Eu fui vítima e vilão, sofri e fiz muita gente sofrer também.

Mas me arrependo muito disso tudo.

(SAFIRA termina de prender o braço de Denílson, continuam a conversa)

SAFIRA – Eu era enfermeira, antes de me tornar secretária.

Mas precisei parar com essa profissão.

RUTE – Por quê? É uma profissão tão bonita!

SAFIRA – Ah, muita coisa ruim aconteceu naquele tempo.

DENILSON – Conta pra gente. Temos tempo! – (Rí sozinho)

(ADEMIR se aproxima, mas sem entrar na roda de conversa)

SAFIRA – Está certo! Vamos lá.

Bem, eu era enfermeira numa ala de pós operatório num grande hospital da nossa cidade. Era difícil tudo! Aprender cada procedimento, os outros enfermeiros me subestimando, tudo tudo tudo difícil!

Mas então aconteceu uma coisa muito estranha e… (com pesar) e difícil.

Certa vez internou um rapaz jovem pra fazer uma cirurgia simples. Parece que foi tudo bem na cirurgia, e ele foi para o pós operatório, onde eu trabalhava.

Uma noite fui para meu plantão e quando cheguei lá as coisas já estavam caóticas, vários pacientes difíceis, poucos funcionários e muita coisa pra fazer. Parecia um hospital de guerra. E esse rapaz já começava a apresentar problemas respiratórios mais graves, e ninguém sabia o motivo.

No meio desse caos a família dele apareceu lá, e quando eles viram o caos e o filho passando mal, enlouqueceram.

Começaram a gritar, e então os médicos foram falar com eles. No meio da bagunça um médico gritou: “Quem foi que não ministrou esse medicamento listado na receita do paciente?” Essa é uma pergunta muito difícil. Pensa bem! Quem foi que não fez? Se não foi feito, ninguém fez, e era responsabilidade de todas as enfermeiras, mas a que estava na direção dos olhos deles era eu.

Bem, encurtando a história.

O menino foi parar na UTI, e depois entrou em coma induzido.

O motivo? Ninguém sabe.

Só ficou provado que aquele remédio que não foi ministrado não poderia ter sido responsável pelo que aconteceu.

Alguma coisa inexplicável aconteceu com aquele rapaz, naquela noite, e eu tive o azar de estar no lugar errado no centésimo de segundo errado.

O rapaz morreu, e quando tentavam explicar que o motivo era desconhecido, o pai e a mãe não aceitavam de forma alguma.

Tinha que ter uma explicação.

Mas não tinha. Pelo menos, não para nós.

Resultado.

A família era rica e influente, e eles foram até o final com aquela ideia maluca.

Colocaram na cabeça que era culpa minha, exatamente minha, e me levaram a julgamentos intermináveis.

Eu perdi o direito de enfermar, e até hoje corre o processo que pode me condenar a três anos de prisão, por negligência.

(Silêncio curto)

Meu Deus! Negligência do quê?

(Silêncio médio)

DENILSON – Mas deve ter uma explicação, não tem? A morte do menino?

Se pelo menos alguém soubesse o que aconteceu com ele, ai veriam que você não teve culpa.

SAFIRA – Isso nunca foi descoberto, e agora, tanto tempo depois da morte dele, as chances são menores ainda.

RUTE – Quanto tempo faz que essas coisas aconteceram?

SAFIRA – Há um ano, mais ou menos. Tem outra sessão do julgamento semana que vem.

(Silêncio curto)

Tive que arrumar outro emprego fora da minha área, ganhando bem menos.

E conviver com a vergonha de um erro que não cometi.

DENILSON – Essa vida é muito doida mesmo, não é?

É muita gente inocente sendo incriminada, e muita gente torta andando sossegado na rua.

É muito trabalhador passando dificuldade, e muito vagabundo comendo em mesa farta. Tem hora que dá revolta.

RUTE – Mas essas coisas são todas da vontade de Deus.

Nada acontece se Deus não permitir.

ADEMIR – Então foi Deus que permitiu que seu marido traísse a senhora com outra mulher?

RUTE – Uai, moço, pra falar a verdade, foi Deus que permitiu sim.

ADEMIR – Mas a senhora acha que era vontade de Deus que ele te traísse? Que Deus estranho.

(SAFIRA faz cara de impaciência e revolta contra ADEMIR)

RUTE – Não era vontade de Deus que ele me traísse. Mas se Deus não quisesse, ele não teria me traído, por que quando Deus quer alguma coisa, nada pode acontecer diferente.

ADEMIR – Então Deus não quis impedir a traição do seu marido?

SAFIRA – Já chega, Ademir!

RUTE – Deus respeita o livre arbítrio das pessoas.

ADEMIR – Mas se Deus respeita o livre arbítrio, na verdade nada acontece segundo a vontade de Deus, mas sempre segundo a vontade do homem, por que ele tem sua livre escolha garantida por Deus!

SAFIRA – Minha nossa! Como você é realmente desagradável! Eu tive a grande sorte de vir parar num lugar maluco, como esse, com duas pessoas extremamente desagradáveis – (Olha também para o Eliseu, que nem percebe, nem se atenta).

ADEMIR – É. A dúvida incomoda, não é?

SAFIRA – Não. É você quem incomoda.

Deixe a gente em paz. Vai lá tentar se salvar sozinho, seu covarde.

ADEMIR – Com certeza. Estou trabalhando nisso.

Vim aqui, desestabilizar suas crenças, só prazer.

SAFIRA – Seu ridículo.

ADEMIR – As pessoas não suportam a desestabilização de suas verdades, não é?

SAFIRA – Não queremos conversar com você. Você pode sair de perto da gente, por favor?

ADEMIR – Com licença.

(ADEMIR se afasta, e se aproxima de ELISEU)

ADEMIR – Só descansando?

ELISEU – (Apático, direto e irônico)

Estava tentando. Mas vocês gritam muito, e me acordaram, novamente.

ADEMIR – (Com orgulho próprio) – Você ouviu nossa conversa?

ELISEU – E como não?

ADEMIR – Pobre dona Rute. Acredita em cada coisa!

ELISEU – Com todo jeitinho, vou te dizer uma coisa que penso sobre tudo isso.

Eu só suponho, está bem? Não tenho certeza.

Mas percebo que por trás dessa sua expressão de confiança e vitória existe um tremendo menino medroso.

A dona Rute quer uma verdade a qualquer custo. Então ela constrói a verdade absoluta dela. Por medo.

E você tem coragem de me dizer que não faz exatamente o mesmo?

ADEMIR – (Expressão de seriedade e medo negado)

Mas a ciência tem verdades comprovadas. A ciência só produz verdades empíricas e constatadas, com segurança e seriedade.

ELISEU – (Expressão de desistência da conversa)

Então não precisamos mais conversar.

ADEMIR – Eu também acho que não. Eu também acho que não.

 

FIM DA CENA 6 – Luz se apaga FadeOut para o fim da cena.

 

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CENA 7

SAFIRA – (Cantando a meia altura – Ponta de Areia, Milton)

Ponta de areia ponto final

Da Bahia-Minas estrada natural

Que ligava Minas ao porto ao mar

Caminho de ferro mandaram arrancar

Velho maquinista com seu boné

Lembra do povo alegre que vinha cortejar

(ELISEU se junta a ela no cantarolar)

Maria fumaça não canta mais

Para moças flores janelas e quintais

Na praça vazia um grito um ai

Casas esquecidas viúvas nos portais

(Silêncio curto)

ELISEU – Gosto muito daquela…

No meio do meu caminho

(SAFIRA, expressão de quem reconheceu a canção, se une ao canto)

sempre haverá uma pedra

Plantarei a minha casa numa cidade de pedra

Itamarandiba, pedra corrida, pedra miúda rolando sem vida

Como é miúda e quase sem brilho a vida do povo que mora no vale

ELISEU – Gosto mais ainda do final.

No caminho dessa cidade as mulheres são morenas

Os homens serão felizes como se fossem meninos

SAFIRA – Linda, também.

(Silêncio médio. ELISEU olha vagarosamente para SAFIRA)

ELISEU – Um dia eu havia andado a tarde inteira atrás de trabalho; e já estava muito cansado. Então me sentei numa praça, de frente para o pôr do sol. Naquele instante me dei conta do quanto nossa cidade era cinza e sem vida; por que a beleza do sol e das nuvens, mesmo por entre os fios de energia elétrica, fazia tudo mais ficar bem sem graça.

Naquele instante, em meio àquela contemplação do por do sol, passou uma moça muito bonita na rua de trás da praça. Ela caminhava lentamente; e eu não consegui tirar os olhos dela. De jeito nenhum. Quando me dei conta o pôr do sol já havia passado.

Naquele dia entendi que poderia estar na frente do campo de flores mais bonito do mundo, diante de um belíssimo por do sol, mas que se passasse uma mulher bonita por ali, meus olhos não conseguiriam olhar pra qualquer outra coisa. E isso é ser humano. Eu acho.

Para um homem, não existe nada mais lindo do que uma mulher, outro ser de sua espécie, um igual, mas um pouco diferente. Mais belo que qualquer pôr do sol em qualquer lugar maravilhoso do mundo.

E não falo de uma mulher em específico. Não. Falo de todas.

Essa sensação de contemplação, que disse agora, reúne todas as mulheres do mundo naquele lugar e instante, e fazem de vocês todas, uma só mulher extra humana, mulher super humana, super beleza e delicadeza. Essa contemplação purifica, sublima e deseja todas as mulheres numa só.

SAFIRA – Mas isso não é amor.

ELISEU – Não sei o que é amor. Não sei definir. Só sei sentir, mas não sei o que sinto.

SAFIRA – Mas esta tal contemplação ai, que você falou, não é amor.

(Silêncio curto)

ELISEU – E por que não?

SAFIRA – Ué! Não é obvio? Por que deveria ser em direção a uma só mulher.

(Silêncio curto)

ELISEU – Entendi. Eu te entendi sim.

(Ele tem mais a dizer, mas sente que ela não entendeu seu primeiro raciocínio. Então ele desiste da conversa e se afasta. SAFIRA fala sozinha.)

SAFIRA – Não entendi, eu disse algo de errado?

(Depois se lembra de que estava com raiva dele anteriormente; seu rancor volta).

Que se dane. Se disse, está dito. Não devo nada pra ele, nem ele pra mim.

Estúpido.

RUTE – Menina Safira, você pode pegar raízes pra gente? Estamos com uma baita fome.

SAFIRA – Nossa, de novo?

RUTE – É que as últimas raízes não estavam tão saborosas, e acabamos não comendo tudo. Tá tudo na mão, né minha filha, só esticar o braço e pegar, que vale a pena esperar uma raiz mais gostosa, não é?

SAFIRA – (Expressão de ligeiro desconforto, começando a se sentir explorada)

Tudo bem, Dona Rute. Uma pra cada um dá?

RUTE – Dá sim, minha filha.

(SAFIRA vai até a parede do buraco e ao pegar uma das raízes machuca levemente a mão, mas faz sons de reclamação de dor, e entrega a primeira raiz para DENILSON)

DENILSON – Obrigado, minha filha.

(SAFIRA estende o braço mais uma vez para pegar outra raiz para dona RUTE, mas desta vez ela não se machuca)

RUTE – Obrigada, minha menina. Deus te abençoe

DENILSON – Minha nossa. Essa raiz também não está boa como as outras. O doce dela está parecendo de fruta vencida e estragada.

RUTE – Nossa. Minha mãe! Que raiz horrível!

(Dona Rute atira longe a raiz)

RUTE – Tava horrível, menina. Tenta pegar outra pra gente ver se elas estão ruins nesta altura do buraco. Às vezes a gente tá só passando por uma região de raízes ruins.

DENILSON – É verdade. Deve ser isso. Essas coisas acontecem mesmo. Tinha lugar que uma laranja não dava o sabor de outra de jeito nenhum, mesmo que fosse só uns cinco metros um pé do outro.

(Silêncio curto. Ambos olham para Safira que se sente ainda mais desconfortável)

SAFIRA – Mais uma pra cada um, então.

(SAFIRA vai pegar outra raiz e dessa vez machuca a mão levemente, mais uma vez, contudo agora ela simula uma dor muito maior do que a que realmente está sentindo. Sua simulação não foi muito convincente e acabou gerando desconfiança na dona Rute)

SAFIRA – Ai minha mão! Ai, minha nossa. Que dor!

(Silêncio curto, olhar de desconfiança da Dona RUTE, falando ironicamente)

RUTE – Machucou a mão, menina?

Deixa eu ver sua mão!

SAFIRA – Machuquei. Só um pouco. Mas tá doendo.

Ai minha mão!

ELISEU – Tudo bem, Safira?

SAFIRA – Sim, sim. Pode se acalmar. Só doeu um pouco.

ELISEU – As raízes estão ficando mais grossas conforme descemos. E menos saborosas também.

ADEMIR – Se estão mais grossas, quer dizer que estão mais fortes para segurar uma pessoa, não é verdade?

ELISEU – É possível.

RUTE – Tudo bem, a gente espera com fome.

ELISEU – Eu pegarei raízes pra vocês, mas comerão sem reclamar, certo?

DENILSON – Com certeza. Eu peço desculpas pelo que falei.

ELISEU – Não se preocupe.

(ELISEU pega três raízes e entrega a primeira para o DENILSON, a segunda para RUTE, e fica com a terceira na mão. Ele se aproxima de SAFIRA)

ELISEU – Safira, eu guardei esta raiz pra você. Dei sorte de conseguir pegar uma mais fina, que tem o sabor melhor, e guardei pra você.

SAFIRA – Por que você está fazendo isso?

ELISEU – Isso o quê?

SAFIRA – Tentando me agradar, de repente.

(Silêncio curto, diálogos mais pausados)

ELISEU – Não tem problema se você não quiser.

Me desculpe.

SAFIRA – Não, espera.

Só estou curiosa pra saber o motivo dessa mudança repentina!

O que causou isso em você?

ELISEU – Eu não mudei nada.

SAFIRA – Ah mudou sim. Lógico que mudou.

Há alguns dias, noites, já não sei mais, você era todo arrogancia e intrepidez, cheio de coragem e insensibilidade, metido a super-homem.

ELISEU – Eu não mudei isso. Só estamos falando de assuntos diferentes.

Se voltarmos a falar da queda, bem, realmente não tenho medo dela. Nem nunca terei.

Tenho medo mesmo é de você. Do agora, deste instante à sua frente. E por ele que tremo; é só por isso que suaria, se fosse capaz de suar neste frio.

SAFIRA – (Incrédula e fechada)

O que você está querendo dizer com isso?

ELISEU – Se tentar te dizer, então não será dito. Só posso te dizer o que sinto se eu não falar palavra alguma.

SAFIRA –  (Entendendo, mas não querendo entender, dissimulando com ironia)

O que é você está dizendo. Que palavras são essas?

ELISEU – (Tentando disfarçar a decepção, mas sem sucesso)

É que…

Se eu simplesmente disser que sinto algo diferente por você, essa frase limitaria tanto (ênfase no tanto) o que sinto, que eu ficaria muito frustrado.

A ordem das palavras, essa suposta ordem das palavras, não me permite explicar algo tão desordenado e inexplicável. Como colocar em palavras o que não entendemos?

SAFIRA – Eu também não entendo.

Eu sinto medo.

ELISEU – Todo o tempo?

SAFIRA – Por vezes me esqueço um pouco de nossa condição.

Quando estou envolvida nos problemas que nós mesmos criamos (riso triste). Mas é triste o fato de que substituo o medo por outros sentimentos cinzas; nada mais restou que possa colorir a vida como antes!

Meu Deus, estou tão confusa, com tanto medo! Nada disso faz sentido, por mais que eu tente.

A dona Rute acha que Deus está preparando algo melhor pra gente, no final dessa viagem em direção à morte.

O seu Denílson fica sempre em silêncio, com um medo contínuo e gritante nos olhos, que me enche de pena e também de medo.

ELISEU – O Ademir se refugia na possibilidade de evitar a queda.

SAFIRA – O que será que aconteceu com o Tarso? Será que vieram salvá-lo?

ELISEU – Acho que nunca saberemos.

Mas se não vieram, pense bem: ele ficou lá, parado. Foi ele, realmente, quem perdeu a vida.

Nós, aqui, estamos com medo, esperança, possibilidades, planos, fé e rancor.

Vivos.

A ele, lá, parado, não sobrou nada disso.

SAFIRA – Mas e o sentido disso tudo?

ELISEU – O sentido? Sou eu, e um pouco menos que a morte.

A vida não volta à terra, quando enterramos o corpo sem vida.

Nem a Deus, que deu o espírito.

Ela se perde no tempo.

A vida, Safira, está em cada sorriso, salto ou trabalho; em cada favor, gesto e intenção.

Toda a vida de uma árvore retorna à terra, quando cede e cai. Um movimento de eterno retorno universal. Mas com certeza não existe o eterno retorno da energia que foi gasta num sorriso: essa se dissipou no tempo.

Esse gesto, riscado no tempo, será o máximo de sentido que você encontrará, SAFIRA – (Silêncio curto)

O sentido da vida é a vida, o amanhã e o ontem, os sonhos, os projetos, os fracassos, o medo e a esperança. O sentido da vida é viver.

(Silêncio curto)

E morrer.

É isso que somos. É isso que faz a vida estar viva.

(Silêncio curto)

Loteria.

Um premiado, belo e feio bilhete de loteria.

Um bilhete cinza.

(SAFIRA abraça ELISEU, e ambos ficam apenas em silêncio, parados)

 

FIM DA CENA 7 – Luz de apaga FadeOut para o final da cena.

 

– – – – – – – – – – – – – – – – –

CENA 8

(SAFIRA e RUTE  conversam em primeiro plano. ADEMIR e ELISEU estão ao fundo, pegando muitas raízes. Denílson fica toda essa cena com extrema dor e fome, quase desmaiando, e com poucas forças para falar)

DENILSON – (Com expressão de muita dor, quase desmaiando, sem forças)

Safira, minha filha: estou com tanta fome. Por favor, me ajude! Meu braço dói tanto, meu Deus. Preciso de ajuda.

SAFIRA – Você pode esperar um pouquinho, seu Denílson. Estou terminando de arrumar este feixe de ramos e já pego raízes para o senhor.

RUTE – Deixa eu ajudar você com essa coroa. Vai ficar muito bonita.

Temos que arrumar esta blusinha também, ela está um pouco atrapalhada demais. Tira ela pra eu dar uma arrumada.

SAFIRA – Os outros vão me ver sem blusa!

RUTE – Não, fique assim, atrás de mim, enquanto arrumo sua blusa.

E suas mãos, estão melhores?

SAFIRA – Já pararam de doer. Estão bem melhores.

RUTE – (Enquanto SAFIRA tira a blusa, e dona RUTE a ajeita com as mãos, e passa pequenas tiras de barbante que tira da própria roupa para arrumar as de SAFIRA, elas conversam em tom descontraído e disperso)

Que decisão mais bonita essa de vocês dois. O casamento é uma instituição de Deus, que reflete o caráter de Deus – quando Ele vive junto com o casal, lógico.

Tem muita gente que não quer saber de Deus, e é por isso que tanto casamento dá errado. Na verdade, ninguém mais quer saber dessas coisas não, né? A moda agora é “morar junto”, ou nem isso. Sei lá. Não sei de mais nada.

SAFIRA – O Eliseu  é um bom homem. Sei que ele vai cuidar de mim.

Ele me dá um tipo diferente de segurança.

RUTE – Vocês serão felizes, eu sei. Tenho certeza.

SAFIRA – E a coroa?

RUTE – Vamos terminar de fazê-la. Precisamos de mais algumas ramas de raízes.

SAFIRA – Elas estão cada vez mais difíceis de aparecerem.

RUTE – Vamos lá tentar.

(ADEMIR e ELISEU vêm para o primeiro plano)

ELISEU – Eu quero dar um banquete. Raízes pra todos, com fartura. E não quero qualquer raíz, quero as melhores.

ADEMIR – (Em suas mãos, um punhado de raízes amarradas formando uma espécie de mecanismo em forma de gancho)

Estou quase terminando este sistema para coletar raízes com mais segurança e eficiência. E o farei de uma forma que conseguirei me pendurar numa raíz mais forte, e me segurar nela até a ajuda chegar.

Farei um estoque de raízes, para não morrer de fome, e pronto, tudo vai dar certo.

ELISEU – E quanto tempo você acha que demorarão para chegar até você?

ADEMIR – Pelos meus cálculos, estamos caindo a sessenta e dois dias. Andei pensando, e provavelmente eles não enviariam uma pessoa pra descer até aqui. Mandariam uma corda, ou algum material que pudesse nos içar pra cima.

Eles mandam a corda, e a nós só resta acreditar, esperar e segurar na corda para sermos puxados novamente para cima.

ELISEU – E você acredita mesmo nisso?

ADEMIR – Veja esses cálculos.

ELISEU – Onde arrumou papel?

ADEMIR – A Safira me deu. Tinha bastante na pasta dela.

Mas veja.

(Arruma os papéis que estavam desordenados, demonstrando ansiedade)

Calculando a massa de nossos corpos, vezes a velocidade da aceleração e a gravidade, então chegamos ao número dois milhões, seiscentos e dezoito quilômetros de distância da superfície da terra, lá, onde estaríamos a salvo.

ELISEU – E você acha que conseguirão mandar algo a esta profundidade pra te salvar?

ADEMIR – Com toda certeza.

ELISEU – Com base em quê?

ADEMIR – Em meus números. A matemática não falha, meu amigo. Tenha certeza.

Enquanto o resgate não chega, eu continuarei subindo para adiantar o processo.

ELISEU – Subindo como?

ADEMIR – Um problema de cada vez. Primeiro preciso solucionar o da queda, depois pensarei em subir, e sei que isso não será problema.

Esta é a beleza do conhecimento humano: está sempre em progresso, avançando e aprimorando. Cada falha é uma razão para tentar novamente, e não para desistir.

ELISEU – (Expressão de incredulidade e pena)

Sim, entendo.

ADEMIR – Mas tenho outra coisa que quero te mostrar.

Veja.

Enquanto calculava outras coisas, percebi que existe um erro no método de cálculo da gravidade. Esses números não batem, se forem conduzidos assim.

Mas veja, olha esses outros números!

ELISEU – Eu não entendo nada!

ADEMIR – Se eles estiverem certos, e estão, tenho certeza, tenho provas aqui para provar que Einstein estava errado, amigo.

E sabe o que isso quer dizer? Que eu seria o primeiro a questionar uma verdade considerada absoluta pela ciência, em nossos dias.

ELISEU – E existem verdades na ciência?

ADEMIR – Essa conversa, novamente?

ELISEU – A verdade é uma canção: pare de cantá-la, e ela se esvai no tempo, por entre as árvores da floresta.

ADEMIR – Rapaz tolo. Não seja simplista.

De que serve a matemática, então? Você tem, ou alguém pode ter alguma dúvida de que dois mais dois são quatro?

ELISEU – Não, longe de mim.

Mas enfim, continue em seus cálculos. Eu vou terminar de colher raízes para o casamento. Você vem, não é?

ADEMIR – Lógico. E prepararei um presente também.

ELISEU – Obrigado, amigo.

DENILSON – (Quase desmaiando)

Por favor, me ajude. Estou com tanta fome e dor.

(Ademir e Eliseu passam por Denílson sem nada fazerem por ele. Apenas exprimem certa tristeza com repugnância).

ADEMIR – (Somente ele, em primeiro plano, com papéis, lápis e uma calculadora) – Minha nossa.

Como disse Arquimedes: Eureka.

Eu achei! Achei! Achei uma forma de unir a mecânica quântica com a relatividade geral! Minha nossa. Isso é genial!

Pessoal, ouçam.

Ouçam todos! Encontrei a solução para a teoria do “Tudo”, que há tanto tempo a ciência procura. Com isso consigo provar matematicamente a existência do Bóson de Higs e a teoria das cordas.

(Todos olham com olhar de incompreensão e descaso, e continuam seus afazeres)

ADEMIR – Agora sei, com toda certeza, de onde o universo veio.

ELISEU – Ademir, vamos. Anda homem, o casamento já vai começar!

ADEMIR – Só um instante. Preciso terminar meu presente.

(Ele pega uma das folhas e termina um desenho, para dar de presente)

ADEMIR – Pronto. Já podemos começar.

SAFIRA – (Brincando e sorrindo)

A noiva sou eu, sabia! Só eu é que posso chegar atrasada. Vocês devem chegar pontualmente.

ADEMIR – Meu presente só vou dar depois que o casamento estiver selado, só por garantia.

(Todos riem discretamente, mas estão felizes)

RUTE – Vamos começar. Aqui estão o padrinho Ademir e o Noivo Eliseu.

E agora a entrada da noiva.

A música, gente. Por favor, me ajudem!

(Todos cantarolam a marcha nupcial enquanto Safira sai de uma extremidade do buraco e vai até a outra ponta)

ELISEU – É a noiva mais linda do mundo todo!

SAFIRA – Seu conquistador barato!

ELISEU – E estou errado?

RUTE – Vamos dar continuidade.

Estamos aqui num momento festivo, muito bonito e importante para todos nós. Ele significa a mudança de uma fase, de duas trajetórias que se encontram, e que esperamos que dure para sempre, quanto for possível.

Qual será o segredo do casamento eterno?

Um bom casamento não vem de graça, ele deve ser criado.

No casamento, as pequenas coisas são as grandes coisas.

É jamais ser muito velho para dar-se as mãos.

É lembrar de dizer “te amo”, pelo menos uma vez ao dia.

E nunca ir dormir zangado.

É ter valores e objetivos comuns.

É estar unidos ao enfrentar o mundo.

É formar um círculo de amor que une toda uma família.

É dizer elogios e ter capacidade para perdoar e esquecer.

É criar uma atmosfera onde cada um possa crescer na busca do bem e do belo.

É se casar com a pessoa certa, mas também se tornar o companheiro perfeito.

E para ser o companheiro perfeito é preciso ter bom humor e otimismo.

Ser natural e saber agir com jeitinho.

É saber escutar com atenção, sem interromper a toda hora.

É mostrar admiração e confiança, se interessar pelos problemas e atividades do outro.

Perguntar o que é que o aflige, o que deixa feliz, por que está aborrecido?

É distribuir carinho e compreensão, combinando amor e poesia, sem esquecer dos galanteios e da cortesia.

É ter sabedoria para repetir os momentos do namoro.

Aqueles momentos mágicos em que a orquestra do mundo parecia tocar somente para os dois.

É ser o apoio diante dos demais.

É ter cuidado no linguajar, é ser firme, leal.

Enfim, eu espero que vocês consigam ter e ser tudo isso por toda uma vida juntos, juntos e felizes.

E eu peço, por último e pessoalmente, que permitam que Deus faça parte da vida conjugal de vocês. Vocês só tem a ganhar.

Amém?

SAFIRA e ELISEU – Amém.

RUTE – Eliseu, você promete, diante de Deus e destas, desta testemunha, receber Safira como sua legítima esposa para viver com ela, conforme o que foi ordenado por Deus, na santa instituição do casamento? Promete amá-la, honrá-la, consolá-la e protegê-la na enfermidade ou na saúde, na prosperidade ou na adversidade, e manter-se fiel a ela enquanto os dois viverem?

ELISEU – Sim. Eu prometo.

RUTE – Safira, você promete, diante  de Deus e desta testemunha, receber o Eliseu como seu legítimo esposo, para viver com ele, conforme o que foi ordenado por Deus, na santa instituição do casamento? Promete amá-lo, honrá-lo, respeitá-lo, ajudá-lo e cuidar dele na enfermidade ou na saúde, na prosperidade ou na adversidade, e manter-se fiel a ele enquanto os dois viverem?

SAFIRA – Sim.

RUTE – Assim, sendo, pelos poderes a mim concedidos, na presença de Deus, eu vos declaro marido e mulher.

O noivo já pode beijar a noiva!

(ELISEU e SAFIRA se beijam, e ADEMIR e RUTE batem palmas)

ELISEU – Obrigado a todos pelos esforços de cada um para que este momento tão especial acontecesse.

E agora o momento que todos esperavam! O banquete!

Eu separei as mais belas e suculentas raízes para nossa festa. Comamos e nos satisfaçamos!

ADEMIR – E aqui está meu presente.

(ADEMIR entrega seu desenho para o casal)

SAFIRA – O que é isso?

ADEMIR – Um desenho do por do sol com uma moça bonita, no caso, a Safira, passando ao fundo.

SAFIRA – Você ouviu nossa conversa naquele dia?

ADEMIR – Não tive como evitar. Eu estava tentando pegar raízes ali perto, ouvi e achei muito interessante.

SAFIRA – Era isso que você queria dizer, então? Você tinha visto a mim na praça, naquele dia?

ELISEU – Você disse que não era amor.

SAFIRA – Mas agora é. Muito amor.

(Eles se abraçam, e ficam em primeiro plano. ADEMIR e RUTE conversam em segundo plano. DENILSON está lá fundo, totalmente esquecido)

LISEU –  (Cantarolando para Safira – Clube da esquina 2, Milton)

Porque se chamava moço

Também se chamava estrada

Viagem de ventania

(Safira apenas o olha nos olhos enquanto ele canta)

Nem se lembra se olhou pra trás

Ao primeiro passo, asso, asso

Asso, asso, asso, asso, asso, asso

Porque se chamavam homens

Também se chamavam sonhos

E sonhos não envelhecem

Em meio a tantos gases lacrimogênios

Ficam calmos, calmos

Calmos, calmos, calmos

E lá se vai mais um dia

(A música começa a tocar na cabeça dos dois, trilha – versão Milton – Disco Clube da Esquina 1. Os dois se beijam e uma bela cena de amor deve acontecer. Os demais personagens são ocultados pela anti-luz, e o casal fica bem evidente em primeiro plano e com iluminação destacada, enquanto dura a música do Milton. É importante que eles transmitam a ideia de que foi possível alcançar a felicidade naquela situação. Mas toda essa cena acontece enquanto DENÍLSON agoniza em morte, ao fundo. Deve, portanto, ser uma cena belo-feia com máxima intensidade. Quando a música acaba, a luz volta ao todo do cenário, e eles despertam do transe afetivo daquele instante. Dona RUTE e ADEMIR estão discutindo fé e ciência aos gritos, no fundo)

ADEMIR – A senhora, com todo respeito, só pode estar louca!

RUTE – Me chamar de louca é ter todo respeito? Esse é o problema de vocês. Uma asneira atrás da outra.

Dizer que o mundo veio de uma explosão de uma pedrinha minúscula que virou todo o universo!

As histórias da bíblia são menos absurdas.

DENILSON – (Balbuciando bem baixinho) – Me ajudem, por favor.

ADEMIR – Então uma chuva forte que inundou o mundo todo não é absurdo?

RUTE – Muito menos que o universo inteiro vir de uma pedrinha minúscula.

ADEMIR – Mas eu tenho provas.

RUTE – Então “cadê”? Me mostra. Me mostra agora.

ADEMIR – Calma, não é assim, também.

RUTE – Ah, então não é assim? É ou não é?

Você pode me provar ou não?

ADEMIR – Mas a senhora também não pode me provar agora que aconteceu um dilúvio! Muito menos que Deus tenha criado todo o universo.

RUTE – (Gaguejando)

Pois eu, eu… eu posso sim. É só olhar para o mundo e ver a mão criadora de Deus.

DENILSON – (Balbuciando) – Me ajudem. Estou morrendo.

ADEMIR – Eu olho para o mundo e vejo a mão criadora da natureza, da ordem explicável pela matemática e pela física.

RUTE – Mas tem que ser muito bobo pra acreditar nessa tal ciência, einh?

ADEMIR – Bobo? Uma pessoa que acredita no dilúvio está me chamando de bobo? Não acredito!

(ELISEU e SAFIRA olham um para o outro, sorriem, e dão com os ombros, enquanto os dois ainda discutem ao fundo)

SAFIRA – Fazer o quê?

ELISEU – Cantar!

(ELISEU começa a cantar novamente – ponta de areia, Milton)

Ponta de areia!

(Ambos)

ponto final!

(A luz se apaga de súbito, e um faz-se um som de queda de corpos no chão.

Silêncio completo. Fecha-se a cortina)

Fim.

 

 

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  1. João, Deus te abençoe, meu filho!

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