ESPELHO DENTRO

Olá, tudo bem? Entre, fique à vontade. A sala é pequena, mas cabemos bem nós três!

Sou Helena, e esta é minha prima, Estela. Feia, não é? Céus, ela é muito feia. Vamos, entre. Chegue mais perto, não precisa ficar com medo; ela é feia, mas não morde. Venha, entre; olhe mais de perto. Vou acender a luz pra vermos melhor.

Veja, veja de perto. O problema está tão somente no rosto dela, está vendo? Uma judiação. Olhe para a boca dela. É difícil de explicar, não é? Parece que existe uma dobra, algo assim. Sabe quando a gente pega uma fita de cetim e dobra? Só uma dobra, um giro, assim, com a mão? Pois então, não parece que fizeram isso nos lábios dela? E aí você sobe o olhar e chega à outra desgraça. Olhe seu nariz; meu deus: olha este nariz! Veja, chegue mais perto. Pode por a mão.

Viu? O nariz é mais fácil de explicar: parece que ela levou um soco bem forte que afundou todo seu nariz pra dentro, assim. A cara dela fica reta, não é mesmo? Parece que perde as características faciais de um ser humano, eu acho. Sabe? Sem o relevo do nariz, olhe assim de perfil, de lado, veja, sem o relevo do nariz fica tudo reto, não se parece com o desenho de um rosto humano. Parece, sei lá, alguma outra coisa. Nariz, e boca.

E é só isto. Veja os olhos dela: são bonitos. Se taparmos sua boca e nariz com a mão, assim, veja só: seus olhos são bonitos, harmonizam com seus cabelos. Seus cabelos são bonitos também. Estão ao natural, acredita? Não tem nenhum tratamento aqui, não; ele é assim mesmo.

Olha só ela de costas! Não se acanhe, venha. Só por que ela está nua? Não tenha vergonha. Veja: de costas, assim, ela não parece ser bonita? Magra, pele bonita, cor bonita, pernas finas na medida certa, cinturinha. Um pouco sem bunda, mas assim está na moda. Cabelos bonitos; veja: com movimentos e brilho. Lindo. Olhando por este ângulo ela até se parece com uma modelo, não é mesmo? Minha nossa: se você entrasse na sala, agora, e a visse assim, por trás, só assim, com este cabelo e corpo você pensaria: que mulher linda é essa! É uma modelo?

Mas basta um ligeiro vislumbre de seu rosto que já nos toma o susto.

Meu deus: você é muito feia.

Não dá nem pra dizer que olhando rápido ela se parece bonita. Não dá.

E não fique com pena deste olhar de vergonha e medo, não. Não pense que por ser tão feia por fora que talvez seja ela bonita por dentro. Ela é feia, sim. De alma e espírito.

Inteligente? Que nada. Nem isso pra compensar. Acredite, é burra como uma porta.

Feia. E burra. É isso que ela é.

Eu convivi com ela a vida toda. Tive este desprazer. Minha mãe e a mãe dela eram dessas irmãs muito ligadas, bobeiras assim. Meu pai tinha posses, mas o pai dela era muito pobre; então as irmãs se casaram uma pra vida boa e outra pra desgraça. Não tenho vergonha de dizer isso não. Todos sabem. E não bastassem ser pobres, tinham que fazer tantos filhos! Aí já é burrice; se você é pobre, tenha só um filho, meu deus. No máximo dois. Mas nove? E você acha que a desgraça acabou? Sete dos irmãos nasceram com o mesmo problema que ela. Agora me diga: não é burrice? Uma coisa é o azar de se nascer assim, de se ter um filho feio assim; outra coisa é insistir no erro. Parece até que eles queriam torturar os filhos, pelo amor de deus. É muita maldade pôr filhos assim no mundo.

E eu sei que ela também pensa isso dos próprios pais. Pelo menos sei que ela já pensou. Na adolescência ela vivia praguejando contra deus, os pais e o mundo. Eu já a vi sussurrando várias vezes com as árvores: “se meus pais sabiam que os filhos estavam todos nascendo assim, por que não pararam? Por que tiveram tantos filhos”?

Na escola, obviamente, todos zombavam dela. Céus: zombavam muito; você precisava ver! Era muito engraçado. Era tanto apelido que não dá nem pra me lembrar de todos. Eu mesma inventei um bem legal: queijinha. Você não acha que a cara dela lembra um queijo? Esse branco pálido e achatado? Queijinha. Lembro-me que esse apelido pegou por um bom tempo, mas tinham outros bons também. Acho que a graça era que dava pra inventar vários, então, pra quê ficar só com um?

Foi nessa época que ela começou a manifestar claramente um ódio ferrenho por tudo o que era bonito. Lembro-me que ela apanhava borboletas apenas para torturá-las. Jardins de flores, então? Era um perigo tê-la por perto em jardins. Ela destruía tudo. Mas ela odiava mesmo eram as meninas bonitas; minha nossa: como sofri nas mãos dela! E a Hortência, então, uma amiga minha? Sofreu demais. Era ódio, sabe. Um ódio profundo. A Hortência era uma menina legal, educada, linda-linda: e nunca zombou da Estela. Acho que você, Estela, começou a classificar o mundo pela beleza, não foi? Só que ao contrário: tudo o que era bonito era mau, não é mesmo? Não era assim que você pensava?

Ela está muda assim, mas ela não perdeu a língua não, viu? Ela não fala é de tremenda vergonha mesmo. As palavras não saem direito por causa da boca; fica parecendo um, bem, nem sei com o que se parece. Mas é muito estranho. Pena que ela não vai falar nada agora pra você ouvir; é muito engraçado.

Abra a boca, Estela. Mostre pra nós sua boca por dentro. Vamos lá, não há problema algum: ninguém aqui vai zombar de você. Vamos! Isso; abra.

Veja, se aproxime. Essa dobra nos lábios – está vendo? Parece se misturar com a gengiva. Parece isso, não é? Parece que a gengiva cresceu e virou lábios, ou o contrário: seus lábios viraram para dentro e deles nasceram os dentes. Enfim! E então quando ela fala parece com aqueles momentos em que se toma anestesia no dentista, sabe? A boca fica boba, e as palavras saem em sons embaralhados e roucos. Dá até aflição ouvi-la falar. Meu corpo até arrepia, igual a quando se arrasta uma cadeira.

Lembro também da época em que ela foi procurar emprego. Trágico. Ninguém queria dar emprego pra ela; em nada. Ela ficou dois anos inteiros tentando e nada. E não falo de empregos de atendimento ou de contato com consumidor não! Falo de empregos em fábricas de calçados; teve uma fábrica que fazia essas coisas de plástico, sabe: baldes, bacias, essas coisas assim, e nem lá deram emprego pra ela. Aí, por fim, falei com meu pai, ele ficou com dó e arrumou emprego pra ela em uma das nossas dez fábricas de tijolos.

Ela era a única mulher lá. Ficava o dia todo jogando água, com uma mangueira, sobre os blocos que acabavam de ficar prontos; pra eles não racharem ao sol forte de Ribeirão.

Pois você não acreditaria se eu te contasse que um dia um velho bêbado que trabalhava lá na fábrica tentou estuprá-la! Não estou mentindo. Mas sabe como ele fez? Ele pegou uma toalha e jogou na cabeça dela, pra esconder o rosto. Quando meu pai chegou lá ele já tinha rasgado toda a roupa dela e gritava umas coisas sem nexo, deitado sobre ela. Meu pai, lógico, impediu o pior. Ainda bem: já pensou se ainda recai um azar pior e por acaso nascesse deste momento absurdo uma criança – filha de uma deformada com um velho bêbado? Minha nossa! Já basta, não é?

Meu pai viu que não daria certo ter uma mulher lá na fábrica e a demitiu.

O velho continua lá, bêbado, até hoje.

Você consegue ver, nesses olhos, por trás de tanta vergonha e aparente ternura, todo o rancor e ódio nascido da inveja? Você consegue? Eu tenho náuseas quando me deparo com a inveja. Quando me deparo com pessoas que definem o que é mau a partir do rancor; uma moral nascida do rancor; uma moral proveniente da inveja! Isso me enoja. Demonstra fraqueza; é a moral dos cordeirinhos. Eu prefiro os lobos.

Mas bem, já que você entrou aqui, vou te contar o resto da história.

Não sei se este final é trágico, bonito ou depressivo.

Você acredita que a Estela vai se casar? Meu pai! Não dá nem pra imaginar. Ela vai se casar com um rapaz quase tão feio quanto ela, mas certamente mais pobre. Minha nossa. Qual será o fim disso? E sobrou pra mim, esse desafio, de vir aqui arrumar a noiva: e é possível arrumar essa noiva?

O que foi? Você disse algo, Estela?

Viu só, quanta vergonha! Ela fala pra dentro.

Vamos, menina, fale alto para que nossa visita possa te ouvir.

Fale!

Fale, Estela.

– – –

Obrigada. Obrigada, Helena, por me ajudar.

Apenas avise, pra nossa visita, que este espelho branco está quebrado.

Anúncios

2 Comments Add yours

  1. Eliton Almeida da Silva diz:

    João, só passei pra registrar minha leitura. Acompanho suas publicações que sempre me inspiram a alguma reflexão. Não que isso seja muito, mas, não é de migalhas que vivem os que não sobrevivem, no mundo mágico do que não é material? Seu sonho não se consubstancia em sua própria obra. Não é arte pela arte. Não vive para si. Espero que compreendas. Desejo que sintas. Almejo que… Que seja. Abraço!

    1. Fico honrado! Muito obrigado.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s