SESSENTA E TRÊS QUILOS

_Ei, você. Você é Jesus!

_O que foi?

_É isso mesmo! Eu te reconheço; não com os olhos, nem com a razão. Mas é você mesmo: Jesus!

Jessé era um monge franciscano que vivia há vinte e dois anos no mosteiro de São Bento, de frente com a Praça Santo Antônio. Ele era da ordem dos franciscanos por escolha, já que iniciou seu sacerdócio como redentorista; e somente depois de oito anos foi que migrou de ordem eclesiástica.

Já de longa data Jessé era conhecido por seu coração piedoso, caridoso e cuidador. Havia mais ou menos quinze anos que ele descia a pé, todos os dias, a Avenida da Saudade em direção à catedral. Usava sempre as mesmas sandálias velhas de couro e seu hábito cinza de lã com o cordão branco na cintura.

Ele descia a avenida distribuindo sorrisos, conselhos, os ombros magros e o próprio ordenado, que era pequeno. Dizem que ele já salvou dezenas de casamentos, evitou vários suicídios e converteu muitos ateus somente através da linguagem de seus atos. Contudo o mais afamado de seus feitos foi uma cura de certa menina com meningite aguda. Esta cura impossível lhe fora atribuída havia dez anos, e na época até o arcebispo de Aparecida do Norte veio conhecer o caso e parabeniza-lo. E esta menina doente ele conheceu ali mesmo, no caminho da Avenida Saudade, no cruzamento com a Rua Capitão Salomão. A mesma esquina onde trabalhava o jovem encanador Silvano.

_Ei, você. Você é Jesus!

Silvano, como era de se esperar, não entendeu nada. Contudo o que lhe faltou mesmo não foram os sentidos das palavras do padre, mas as próprias palavras. É que o padre as pronunciou no exato instante em que o rapaz desferiu uma pesada martelada na calçada de cimento, na intenção de chegar ao encanamento.

_O que foi?

Jessé não titubeou e foi logo às clarezas.

_Você, rapaz, é Jesus. Não conheces as escrituras sagradas? Jesus! Você prometeu que voltaria e cumpriu sua palavra. Voltaste para ajudar a humanidade e conduzi-la em direção a uma nova era de paz e piedade!

_O senhor quer um copo d’água?

_Eu sei que não crês em mim; mas eu sei em meu coração. Um anjo me contou nesta noite última que a mim caberia reconhecer o salvador e apresenta-lo ao mundo.

_Padre, o senhor está enganado. Eu, bem, sou pecador; até com certo gosto, sabe? Não conheço igreja nenhuma e se não me engano nunca me confessei.

_Quando vieste pela primeira vez tu mesmo só tiveste certeza de que era o messias no dia de teu batismo, quando Deus pai lhe concedeu o dom da verdade: o grande e supremo dom de todos os dons: o dom da verdade. Mas tenha calma. Vou te apresentar sua verdadeira origem e missão; venha comigo.

_Padre, eu preciso entregar este trabalho em duas horas!

_Certo; tudo bem. Tudo bem. Eu espero.

Exaltado e arrebatado, o velho padre sentou-se diante do local de trabalho de Silvano. Quase não podia controlar o desejo de chorar, mas se pôs ali, em silêncio, a observar as marteladas do acossado encanador.

_Que bom que ficou tudo pronto. Agora venha, temos muito a conversar.

Silvano tinha, como muitos de nós, certa dificuldade por falar não, ainda mais em se tratando de um homem trajando roupa como aquela, armado de um sorriso como aquele, e de uma inquietante curiosidade que transbordava. Silvano seguiu o padre até o mosteiro, uma pequena caminhada de menos de oito minutos. Lá Jessé apresentou ao jovem uma suntuosa biblioteca na qual se sentaram. O velho abriu livros, mostrou profecias, desenvolveu argumentos, desvendou, desvelou, intrigou e instigou o coração do jovem a se abrir ao mundo espiritual; e Jessé era muito bom nisso. Neste instante outro também idoso padre entrou pela porta e os cumprimentou.

_Padre Osório, venha. Quero lhe apresentar a Jesus!

_Jesus?

_Sim, o messias, nosso salvador. Ele voltou!

_Não diga blasfêmias, servo do mal! Estas palavras são abomináveis diante de Deus!

As palavras duras e o olhar repreensivo do padre Osório causaram uma profunda impressão no coração de Silvano, profunda o suficiente para causar-lhe uma catarse transformadora. Olhou ele firmemente para o segundo padre e lhe falou:

_Duvida de mim, bom servo? Não temas. Saiba que é compreensível, e por isso te perdoo. Sente-se, precisamos nos falar.

Milagrosamente Silvano deu início a uma breve, porém profunda, pronunciação que imediatamente tomou o coração de ambos os padres de uma comoção incontrolável. Explicou as profecias, os versos e os inversos de uma forma tão divina que lhes era impossível resistir. Caíram de joelhos ante ele, chorando e dando graças.

Imediatamente levaram-no à arquidiocese da cidade, e o arrebatamento de suas palavras foi unânime entre os novos ouvintes. A comoção era geral. Suas palavras eram sábias, calmas e mansas. Elas continham – e isso era claro como o mais ensolarado dos dias de verão – o pilar da verdade; a certeza clara e indubitável da anti-dúvida; a clareza solene e impecável que só poderia ser proclamada por um ser sobre-humano, um ser divino. As palavras de Jesus causavam uma trégua cabal no perene conflito que abrasava cada um daqueles exaustos corações. Depois de anos, os religiosos daquele recinto finalmente tiveram uma perfeita noite de sono, sorriram genuinamente e abriram seus corações para o mundo: amaram aos próximos como a eles mesmos.

Ribeirão Preto se tornou então uma nova Meca.  Vieram religiosos de toda sorte – católicos, protestantes, hindus e budistas; pousaram aqui repórteres do mundo todo, incrédulos universitários de dezenas de nacionalidades, e até mesmo o Papa veio verificar a veracidade dos relatos. As perguntas eram as mesmas, aquelas eternas e quase impossíveis. Quase. Jesus, não se sabe como, tinha as respostas. Ele as tinha: todas! Todas elas fundamentadas numa pedra angular: “eu sou o caminho, a verdade e a vida”, dizia. Parecer pouco – pode imaginar o leitor, mas tu mesmo não suportarias olhar para seus olhos sem se jogar ao chão envolto em lágrimas de alegria, paz e conforto. “Vinde a mim, todos vós que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei”. O padre Jessé era seu seguidor mais próximo, e claramente sabia seu papel nesta trama: elevar o senhor Jesus sobre todas as coisas. Convinha, dizia ele, diminuir seu “eu” e elevar o amor de Cristo.

Os racionalistas, empiristas, existencialistas, materialistas e outros vinte e três tipos de “istas” logo se inflamaram. Os ataques – como se pode antever, eram previsíveis; aqueles de sempre: “faça-nos um milagre e prove sua divindade”; “outro charlatão que veio brincar com a fé dos pobres”; “salta-te do alto daquele edifício e peça para que seus anjos te salvem, e então toda a cidade será sua”. E era justamente nestes momentos que Jesus mais se impunha. Como? Através de um silêncio esmagador. E de um par de olhos tão mágicos, tão serenos e repletos de amor que dissipava todo e qualquer questionamento incrédulo. Era muito. Era tudo. Era a paz num par de olhos castanhos.

Os dias se passavam e Jesus continuava a receber pessoas a todo tempo. Eram procissões, cultos de glória, mensagens e sermões: todos os dias, o tempo todo. Contudo, com o andar dos dias aparentemente o poder de persuasão de Jesus estava diminuindo. Parece que seus sermões já não tinham todo aquele brilho inicial, e seus olhos, ainda meigos e cheios de amor, agora pareciam cansados. Padre Jessé foi o primeiro a reparar, e também o primeiro a sugerir minoração na rotina de Jesus.

_Como? – disse o Papa. Padre Jessé, a criminalidade mundial diminuiu drasticamente, os ricos estão ajudando os pobres, os sãos aos doentes, as cores se abraçaram e duas grandes guerras foram interrompidas em atos de fraternidade e amor. O mundo está mudando, padre! Como poderíamos pedir para a humanidade para esperarem com um pouco menos de avidez pelas palavras de nosso divino mestre? Precisamos dele aqui hoje; precisamos de suas verdades; precisamos que ele sane nossa angústia! Nós clamamos.

E foi assim que negaram a Jesus Cristo poder descansar. Pelo menos não naquela noite. Não naqueles próximos sete meses em que recebeu pessoas do mundo todo em sua cidade. Pelo menos não nos próximos dois anos nos quais passaria a viajar pelo mundo pregando a verdade e acalentando corações incertos e hesitantes, levando paz e certeza onde antes imperava o medo da dúvida, o antigo reino do demônio.

África do Sul, Nigéria e Irã. Jesus escolheu primeiro aqueles que mais viviam dificuldades. Depois Espanha, Portugal, Suécia e Holanda. Passou pelo oriente, Coréia do Norte, China e Japão. De lá para o México, Estados Unidos, Canadá e por fim voltou ao Brasil. Jesus mal conseguia permanecer de pé, seus olhos cansados ainda transmitiam serenidade e piedade, mas o brilho já não era o mesmo; a intensidade de suas palavras rareava, e a verdade que elas carregavam, finalmente, parecia mais frágil.

_Jesus, eu sinto muito. Sei que precisas descansar e repor sua fé para continuares tua obra – disse o padre Jessé. O que posso fazer pelo senhor?

_Com certeza, meu bom amigo, preciso descansar. Preciso sair a sós, preciso, apenas, caminhar sozinho. Será que posso?

E Jesus se pôs a passos curtos. Passadas lentas, cansadas e reflexivas. Sentou-se, por fim, no banco de uma praça, respirou fundo e abaixou a cabeça.

E Jesus chorou.

_Boa noite. Posso te ajudar de alguma forma? – abordou-o um homem.

_Olá, boa noite. Desculpe-me. É que estou muito cansado – respondeu Jesus.

_Parece que te conheço de algum lugar?

_Já que o disse, sua feição também não me parece estranha, mas não me lembro de onde. Não, não me lembro.

_Mas ainda não me respondeu por que motivo chora?

_Estou cansado. Muito cansado. Minhas forças se acabaram – disse Jesus.

_Disso eu sei bem – respondeu o homem. Veja o meu caso – mas, por favor, não zombes de mim. Sou um professor de física, e pesquisador também. E nestes anos de academia escrevi alguns livros que infelizmente, ou felizmente, foram muito vendidos; talvez estes livros tenham sido meus maiores erros, ao menos para mim mesmo. Depois deles tenho sido constantemente convidado para fazer palestras a respeito de astronomia, física, origem da vida, coisa e tal. Mas, minha nossa, tenho dado tantas palestras, tantos cursos, tantas verdades e certezas que, bem, hoje estou cansado. Estou muito cansado, sabe? Às vezes me sinto como aquele Titan da mitologia grega, Atlas, aquele que segurava os céus. Os céus, neste caso, são as dúvidas do mundo todo. E é por isso que estou tão cansado. Acontece que, não sei, mas acho que não tenho mais forças para esconder de mim mesmo a minha mentira.

_Sua mentira?

_Sim, a minha mentira. A mentira que conto pra mim mesmo, todos os dias.

_E qual é?

_A de que tudo isto foi uma escolha. Só uma escolha – artificial. Bem, tenho que ir. Apenas me diga seu nome, meu amigo, para que eu me despeça mais aliviado.

_Meu nome? Oh sim, meu nome. Meu nome é Silvano.

Jessé nunca mais viu o jovem pregador. Silvano se mudou para uma pequena cidade ao sul de Minas Gerais, e lá conseguiu mudar sua aparência, seus jeitos e até voltar ao anonimato. Mudou de profissão: jardineiro. Decidiu que nunca mais iria consertar vazamentos de canos; percebera que era preciso respeitar os furos que permitem à água tomar outros rumos. O padre Jessé voltou a fazer seu velho caminho pela Avenida da Saudade até a catedral. Todos os dias ele se detém por alguns instantes no cruzamento com a Rua Capitão Salomão – observando, orando e esperando o raio cair três vezes no mesmo lugar.

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